Economia

Avanço chinês

Gigante asiático se contrapõe aos Estados Unidos de Donald Trump e exerce seu protagonismo global no fórum econômico mundial de davos

Avanço chinês

Atenção: presidente da China chega a Davos disposto a vender o país como novo líder da globalização (foto: Divulgação)

No Fórum Econômico Mundial de Davos, nos Alpes suíços, é usual que economistas, autoridades e empresários discorram sobre assuntos em evidência na agenda global e tentem esboçar uma direção para o futuro. O tamanho da repercussão do evento, no entanto, depende da lista VIP de convidados políticos. Em 2012, por exemplo, o presidente americano Barack Obama foi o centro das atenções. Em 2015, os holofotes estavam sobre a premiê alemã Angela Merkel. Na edição deste ano, realizada entre os dias 17 e 20 de janeiro, a surpresa foi a primeira participação de um presidente chinês em 46 anos de evento.

Recepcionado com pompa e circunstância, Xi Jinping logo se posicionou como novo líder da ordem econômica global e fez um contraponto à retórica de ultradireita do novo presidente americano, Donald Trump. Xi defendeu valores tradicionalmente encampados pelas potencias ocidentais, como a oposição ao protecionismo. Em seu discurso, o líder chinês lançou uma série de ataques velados a Trump. “Os problemas que preocupam o mundo não são causados pela globalização”, afirmou na abertura do evento, na terça-feira 17. “Os países deveriam considerar seus próprios interesses num contexto mais amplo e evitar buscá-los às custas dos outros”.

Com peso crescente na economia global e com práticas ainda questionadas de comércio, a China vem tentando afastar a imagem de intervencionista. Como se tivesse sido cuidadosamente moldado para aquela plateia, o discurso de Xi abraçou as causas do Fórum Econômico, como o multilateralismo (leia reportagem aqui) e a resolução conjunta de problemas, o oposto do defendido pelo novo presidente americano. Antes de tomar posse, Trump ameaçou empresas americanas que têm operação no México e acusou a China de práticas anti-comerciais. Em Davos, o presidente chinês fez questão de reforçar que “ninguém sairá vencedor de uma guerra comercial”.

A sua participação em Davos foi negociada há meses e marcada para coincidir com a posse de Trump. “Sob o ponto de vista de Xi, colocar a China como uma guardiã do status quo internacional serve tanto para mostrar que a ascensão do país está em linha com os interesses globais, quanto para minar a reivindicação americana de líder global”, afirma John Minnic, analista sênior para o leste asiático da consultoria americana Strafor. As declarações da equipe do presidente americano dificultam saber a verdadeira disposição de Trump em cumprir suas promessas. Na Suíça, o assessor especial Anthony Scaramucci afirmou que os Estados Unidos querem apenas que os acordos sejam “simétricos”.

O tom destoa ao do novo secretário de Comércio, Wilbur Ross, que, em sua audiência de confirmação no Senado, na quarta-feira 18, acusou a China de ser o “país mais protecionista” entre as grandes nações. Para o diretor de Ásia da consultoria Eurásia, Michael Hirson, o movimento chinês tem mais a ver com questões práticas do que ideológicas. “A China não está buscando acordos globais com padrões ambiciosos em áreas como proteção de direitos intelectuais, livre circulação de dados e proteções ambientais”, diz Hirson. “A China está se posicionando como líder da globalização, mas de uma forma que beneficie seus interesses.”

BRASIL Enquanto a China exercia seu protagonismo, a presença do Brasil no Fórum foi mais discreta. Após almoçar com empresários e banqueiros, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que as reformas em curso no País foram bem avaliadas pelos investidores. “A receptividade em Davos está muito positiva”, afirmou. Uma pesquisa apresentada pela PwC em Davos confirma a perda de brilho em relação ao Brasil. O País aparece em sétimo lugar nos destinos considerados prioritários para investimentos na opinião de executivos de multinacionais, enquanto na edição passada do levantamento ele estava em sexto lugar. Porém, a mesma pesquisa mostra os empresários brasileiros otimistas (leia artigo aqui). A maioria dos executivos (57%) está “muito confiante” quanto ao desempenho de suas empresas ao longo deste ano, muito acima da média global de 38%.

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