Economia

Para onde vai a Europa?

Eleições na Alemanha, França e Holanda podem ser influenciadas pela crise migratória e pelo avanço de ideais protecionistas. Risco de repetição de fenômenos como o Brexit e a eleição de Donald Trump podem mexer com a economia global

Para onde vai a Europa?

Longo caminho: refugiados tentam se proteger do frio em acampamento na Sérvia (foto: Boris Babic/dpa)

A Europa enfrenta seu inverno mais rigoroso dos últimos 100 anos em meio à crise dos migrantes e refugiados. A temperatura, que atingiu a mínima de 27 graus negativos em alguns países, levou mais de 80 pessoas à morte, na semana passada. A maioria são famílias que fogem das zonas de conflito, como a Síria, e ficam vulneráveis em alojamentos improvisados com barracas de lonas. Desde meados de 2014, o Velho Continente encara os desafios da imigração, que chegou ao seu ápice em 2015, com a entrada de mais de um milhão de pessoas no centro da região.

Esse é mais um ingrediente na bomba-relógio da Europa, que enfrenta um crescente risco político e econômico desde que a crise financeira global dizimou postos de trabalho. O resultado dessa combinação tem o maior apelo popular de um discurso xenófobo e ultraconservador, que culminou com a saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit, no ano passado. Neste ano, as eleições presidenciais na Alemanha, na França e na Holanda vão testar os limites desse fenômeno nacionalista e protecionista.

“Acredito que 2017 será um ano decisivo para a ordem global em função das eleições européias”, diz Roberto Abdenur, embaixador do Brasil em Washington entre 2004 e 2006 e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. “Será decisivo para ver a força desse movimento nacionalista.” A partir do resultado do Brexit, uma nova ordem retrógrada e isolacionista passou a ser desenhada, no pior choque que a Europa sentiu desde o término simbólico da Guerra Fria, selado pela queda do muro de Berlim, em 1989.

O sentimento de frustração dos britânicos com as decisões da União Européia em relação à crise dos refugiados e o sentimento de que é melhor caminhar sozinho do que com integrado à região passou a ser discutido por eleitores de outros países. A repercussão aumentou após a vitória de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos. Ele quer construir um muro para isolar a América do México. Os especialistas enxergam que esses movimentos corroboraram a tese de que uma nova ordem global está se formando, baseada em um discurso contra a globalização e antiliberal.

Os impactos mais prováveis do protecionismo seriam o abandono de acordos comerciais planejados, como a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), que Trump rejeita, e restrições mais fortes à imigração. Fala-se até mesmo em regras mais severas ao turismo. Segundo projeções da Euromonitor, um avanço da onda protecionista, a princípio, atingiria levemente o PIB mundial nos próximos anos, com uma queda de 1% a 2%. Mas, se essa onda se transformar num tsunami, a tendência é de um recuo ainda maior do PIB global nos próximos cinco anos, para algo entre 4% a 5%.

“Em caso de maior disseminação do populismo político, os riscos de uma estagnação econômica aumentará nas economias avançadas e nos mercados emergentes”, diz Daniel Solomon, economista da Euromonitor International. A possibilidade de um mundo menos globalizado coloca em xeque o futuro das relações comerciais globais. O reflexo dessa nova configuração apareceu no final de 2016, quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) reduziu para 1,7% a projeção de crescimento das trocas comerciais em 2017. Enquanto isso, a expectativa de crescimento econômico global está em 2,7%, de acordo com o Banco Mundial.

Para países emergentes como o Brasil, o cenário é ainda mais preocupante. Patrícia Krause, economista-chefe da Coface, seguradora de crédito especialista em riscos globais, avalia que a vitória de candidatos de extrema-direita na Europa ajudaria a aumentar barreiras comerciais e a taxação de produtos importados, o que dificultaria ainda mais a retomada econômica do Brasil. Além disso, a expectativa da retomada de diálogo do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul ficará cada vez mais distante.

“O aumento do protecionismo na Europa tenderia a inviabilizar os planos de comércio exterior do Brasil”, diz Patrícia. “O País é ainda muito fechado ao comércio internacional e, depois de anos focado no Mercosul, tem buscado recentemente ampliar acordos comerciais, como com a União Europeia”. Qual será o futuro da Europa? Essa incógnita só poderá ser respondida após as eleições deste ano, que coloca em xeque as principais economias do continente. A França será a primeira a ser testada. Está machucada pelos recorrentes atentados terroristas do Estado Islâmico nos últimos anos e é um dos destinos mais buscados pelos refugiados e migrantes.

Lá, um sentimento nacionalista ascendente entre os franceses tem reforçado o discurso da direita ultraconservadora, encabeçado pela advogada e deputada Marine Le Pen, filha do polêmico político Jean-Marie Le Pen. A candidata da Frente Nacional propõe um plebiscito para tirar a França da União Europeia. Os conservadores adorariam ter o seu “Frexit” para expulsar os muçulmanos não nativos do país, assim como criar regras mais rígidas de comércio, a fim de garantir os empregos locais. Com eleição prevista para acontecer entre 23 de abril e 7 de maio, os franceses se mostram divididos.

De um lado, os socialistas, donos da maior força política do país, têm sofrido queda na popularidade com a rejeição do governo de François Hollande. De outro, os candidatos de centro-direita e extrema direita têm conquistado o eleitorado. Até o momento, as pesquisas de intenção de voto colocam Le Pen atrás de François Fillon, do partido Os Republicanos, um conservador moderado. Se a União Europeia ainda não sabe quais serão os caminhos para uma ruptura com o Reino Unido sem grandes traumas, um Frexit poderia derrubar o PIB da zona do euro de 7% a 10%, de acordo com a Euromonitor International.

Dependendo do resultado da eleição na França, essa instabilidade política poderá atingir a Alemanha, que decidirá no segundo semestre se a chanceler Angela Merkel continuará a comandar o principal defensor da integração regional. Entre os alemães, partidos com um discurso xenófobo não ganhavam apoio desde o final da Segunda Guerra Mundial. A partir de 2013, porém, o Alternativa para a Alemanha (AfD) passou a angariar eleitores ao criticar os resgates propostos por Merkel à zona do euro. Posteriormente, Alexander Gauland e Leif-Erik Holm, dirigentes do partido, ganharam mais voz com a explosão da crise migratória no continente.

Embora Merkel seja a franca-favorita à vitória, o que preocupa é a adesão ao ultraconservadorismo em um país que já foi marcado pelo nazismo. Na Holanda, Geert Wilders, líder do Partido Holandês da Liberdade (PVV), de extrema-direita, chegou a ser julgado por discriminação racial e incitação ao ódio, com discursos contra a presença de marroquinos no país, em 2014. À época, ele foi denunciado mais de seis mil vezes na Justiça.

“Políticos populistas como Marine Le Pen e Geert Wilders tornaram-se mais populares do que as vozes de protesto”, diz Maurits van Rooijen, reitor da escola de negócios alemã GISMA Business School. “Eles mudam as regras do jogo. Politicamente, estamos alcançando um estágio sensível em nossa história.” O sopro de esperança está no resultado das eleições na Áustria, em dezembro, com a surpreendente vitória do candidato independente Alexander Van der Bellen sobre o conservador Norbert Hofer.

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Da diversidade para a intolerância

O discurso da atriz Meryl Streep, na cerimônia da 74a edição do Globo de Ouro, ecoou nas proximidades da Casa Branca, em Washington. “Quando os poderosos usam sua posição para intimidar os outros, todos perdemos”, disse ela, numa crítica direta ao todo poderoso Donald Trump. A partir do próximo dia 20, o magnata assumirá a presidência dos Estados Unidos para dar início a uma era de intolerância e miopia sócio-econômica. Ele parece caçoar das regras americanas, portando-se de maneira leviana em assuntos que exigem seriedade, como no caso da espionagem russa nas eleições americanas.

Mal chegou ao poder e já está sendo acusado de nepotismo ao nomear o genro, Jared Kushner, casado com sua filha Ivanka, como seu assessor. Trump tem montado no Twitter um circo para ameaçar e fazer política econômica. Mordeu e assoprou a Ford, que cancelou um aporte de US$ 1,6 bilhão na construção de uma nova fábrica no México para investir em Detroit. Nem as estrangeiras, como Toyota e BMW escapam das cobranças. A montadora alemã, porém, confirmou que vai inaugurar sua unidade mexicana, mesmo com o risco de uma “sobretaxa de fronteira”.

Os EUA estão prestes a ter uma política industrial que vacilará entre a perseguição aos opositores e ao compadrio aos que compartilharem das mesmas ideias do presidente. Resta saber se a economia americana país resistirá aos desmandos do Republicano. Embora especialistas do mundo todo ainda não estejam certos dos riscos que Trump causará à ordem global, é certo que a intolerância chega ao poder no lugar da diversidade. A transição do governo Barack Obama será chocante e trará muitos desafios para a comunidade internacional.

Numa das últimas tentativas para não perder partes importantes de seu legado, o Democrata se emocionou ao falar, em um longo discurso proferido na terça-feira 10, sobre os perigos da segregação para a democracia. Obama enfatizou que o abandono de princípios democráticos fortalece adversários externos e grupos extremistas como o Estado Islâmico, mandando um recado para a Europa, onde a onda nacionalista e populista que ganha força.

“É por isso que eu rejeito a discriminação contra os muçulmanos americanos”, disse o presidente. A última cartada de seu mandato aconteceu na sexta-feira 13. Como tentativa de salvar os avanços nas relações bilaterais com Cuba, Obama colocou fim, de maneira imediata, à política de “pés secos, pés molhados”, que concedia residência aos cubanos que chegassem ao país, mesmo de maneira ilegal. Com isso, Obama agrada Havana, que vê na medida um desestímulo à fuga dos cubanos para os EUA.