Economia

Um gás no PIB

Governo estuda pacote de estímulo à economia no curto prazo, mas o leque de opções é restrito

Um gás no PIB

Esforço contínuo: o ministro Henrique Meirelles, tem sido pressionado a buscar alternativas para aquecer a economia (foto: Ilustração: Evandro Rodrigues)

Numa semana em que predominaram os embates institucionais entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Senado Federal, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, saiu aliviado e ainda mais fortalecido. Meirelles superou as especulações sobre o seu futuro e, de quebra, deu início à tramitação da Reforma da Previdência Social. Mas não foi fácil. Na segunda-feira 5, em evento na cidade de São Paulo, Meirelles teve de negar que estivesse sendo “fritado” no governo devido à demora dos bons resultados da economia. “Não tenho visto isso”, disse o ministro, que tem total respaldo do presidente Michel Temer.

Meirelles admitiu, no entanto, que está preparando um pacote de medidas para estimular a economia enquanto o ajuste fiscal é aprovado no Congresso. Como se sabe, a pressão e a ansiedade dos empresários são grandes. O próprio presidente Temer anunciou, no mesmo evento, a uma plateia de integrantes do setor imobiliário que “estamos estudando medidas rápidas e velozes com vista a dinamizar muito proximamente a economia, especialmente no setor da construção civil, do microempresário, da microempresa”.

A grande dúvida, no entanto, é sobre qual é o arsenal disponível para dar um gás no PIB no curto prazo. Para os representantes do setor produtivo e do mercado financeiro ouvidos pela DINHEIRO, a medida mais importante será a redução acelerada dos juros, missão que está nas mãos do Banco Central (BC). “Os juros terão que cair logo ao redor de dois pontos percentuais, porque a inflação caminha certamente aos 4,5% do centro da meta no ano que vem pelo bom trabalho do Banco Central”, diz Mario Garnero, presidente do Brasilinvest e do Fórum das Américas.

“Isso daria um alento importante aos setores produtivos, que correm um risco grande de terem que dispensar ainda mais pessoas no ano que vem.” Na terça-feira 6, o Comitê de Política Monetária (Copom) divulgou a ata da última reunião na qual sinalizou um ritmo maior de queda dos juros a partir de janeiro. Por enquanto, não há chance de o BC liberar depósitos compulsórios para aumentar a oferta de crédito, uma sugestão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O nível de financiamento hoje é muito baixo”, diz Antonio Megale, presidente da Anfavea.

“Apenas 51% dos carros novos vendidos são financiados, o menor patamar da história.” Já no âmbito da Fazenda, há alguns coelhos que poderiam ser tirados da cartola. Um deles poderia beneficiar o setor de caminhões, que amarga uma retração de 30% nas vendas neste ano. “Advogo um programa de renovação de frota, que faria com que o custo logístico do Brasil diminuísse e também que os caminhões poluíssem menos”, diz Roberto Cortes, presidente da MAN Latin America. Outra medida que está em gestação em Brasília é a realização de um novo Refis, o programa de parcelamento de dívidas da Receita Federal.

“As empresas estão altamente endividadas e precisam voltar a produzir e pagar impostos”, diz Antonio Corrêa de Lacerda, sócio-diretor da MacroSector Consultores. No mês passado, em entrevista à DINHEIRO, Meirelles se posicionou contra a medida, mas pode ceder diante dos apelos empresariais. Mais polêmica ainda é a proposta do governador do Maranhão, Flávio Dino, de utilizar R$ 20 bilhões das reservas internacionais em investimentos públicos. “Gastar 5% das reservas em grandes obras faria uma diferença tremenda para a economia”, diz Dino (leia entrevista aqui).

O ministro da Fazenda discorda e considera mais importante manter intacto o colchão de proteção contra crises internacionais. Há alguns ajustes microeconômicos que podem contribuir para um melhor ambiente de negócios. Um deles é a adoção de novas regras para desapropriação de imóveis em projetos de infraestrutura. Os empresários também gostariam que as concessões de aeroportos, ferrovias, portos e rodovias fossem realizadas com mais rapidez. Outro ponto importante envolve o fim das regras de conteúdo local para a produção de petróleo, o que poderia estimular o setor.

De uma forma geral, no entanto, os agentes econômicos sabem que não existe milagre. A margem para turbinar o PIB é pequena. “O governo não tem espaço fiscal para desonerar produtos e estimular a demanda”, diz Hugo Valério, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). “O mais prudente é acelerar as reformas e, para isso, suspender o recesso seria a melhor decisão.” No que depender do Congresso Nacional, entretanto, as férias de verão dos parlamentares estão mantidas.

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Estímulos à economia

Conheça algumas medidas que poderiam ser adotadas no curto prazo

1 – Redução mais rápida dos juros
2 - Liberação de depósitos compulsórios
3 - Linha de crédito consignado com garantia do FGTS
4 - Lançamento de um novo Refis
5 – Utilização de parte das reservas internacionais para investimento
6 - Novas regras para desapropriação de imóveis em projetos de infraestrutura
7 – Acelerar a publicação dos editais das concessões de infraestrutura
8 – Fim das regras de conteúdo local para a produção de petróleo

Colaboraram: Paula Bezerra e Andressa D’Amato