Economia

Juros ladeira abaixo

A aprovação da PEC dos gastos públicos em 1º turno abre o caminho para o Banco Central atender ao grande anseio dos empresários: a redução da Selic

Juros ladeira abaixo

Descida segura: o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, deve iniciar um novo ciclo de afrouxamento monetário (foto: Fotomontagem: Evandro Rodrigues)

Desde 2005, na véspera de cada reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o economista-chefe da Infinity Asset Management, Jason Vieira, divulga um levantamento comparativo entre as taxas de juros reais (descontada a inflação prevista para os 12 meses seguintes) em 40 países. Neste período de quase 12 anos, o Brasil lidera o ranking na maior parte do tempo, sendo superado apenas quatro vezes por Rússia, Turquia ou China. A não ser que ocorra uma inesperada reviravolta no ambiente internacional, o incômodo troféu de “maior pagador de juros do mundo” permanecerá em nossas mãos até 2018.

“O principal fator que explica os juros altos no Brasil é a fragilidade fiscal”, diz Vieira, que, a pedido da DINHEIRO, antecipou o seu levantamento referente à reunião do Copom nos dias 18 e 19 de outubro, mostrando que a taxa real do Brasil é o dobro da praticada pela Rússia. “Apenas em 2018 deveremos voltar a ter Selic nominal de um dígito, o que resultará numa taxa real possivelmente menor do que a da Rússia.” A boa notícia é que, apesar de longo, o caminho dos juros baixos pode ser trilhado imediatamente – basta o Banco Central (BC) se render à realidade.

A questão é porque isso ainda não aconteceu. O descontrole das contas públicas é apontado como um dos motivos históricos dos juros altos no Brasil. Nas palavras do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, a flexibilização monetária dependerá, dentre outros fatores, da “redução da incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste fiscal e seus respectivos impactos sobre a inflação”. Nesse contexto, a aprovação em 1º turno na Câmara dos Deputados da PEC dos gastos públicos, na segunda-feira 10, era o gatilho fiscal que faltava para o início de um ciclo de redução da Selic, que está em 14,25% ao ano desde julho de 2015.

“Além do fiscal, a inflação de alimentos e de serviços andou muito bem”, diz Felipe Salles, economista do Itaú Unibanco. “Por conta disso, nós achamos que já há condições de o Banco Central cortar 0,25 ponto percentual nos juros na próxima reunião.” Outro empurrão a favor da queda da Selic foi dado pela Petrobras. Na sexta-feira 14, a estatal anunciou uma nova política transparente de preços, que leva em consideração a cotação do petróleo no mercado internacional, e reduziu o diesel em 2,7% e a gasolina em 3,2%, nas refinarias.



Além da trajetória benigna das contas públicas no longo prazo, que pressupõe o avanço da reforma da previdência, o ambiente econômico recessivo joga a favor do barateamento do crédito, sem grandes riscos inflacionários. Com o PIB encolhendo 3% neste ano, após o tombo de quase 4% em 2015, e o desemprego subindo a 12%, as vendas no varejo despencaram 6,7% desde janeiro. Em setores que dependem de financiamento, o tombo é ainda maior, como no caso dos eletroeletrônicos (-14,4%) e automóveis (-14,7%), segundo o IBGE. “Já passou da hora de o Banco Central reduzir os juros”, afirma Carlos Thadeu de Freitas, que foi diretor do BC e atualmente comanda o departamento econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC). “Mesmo que os juros caiam bastante, não haverá uma inflação de demanda.”

Outro setor sensível ao crédito é o de material de construção, cujas vendas devem cair 8% neste ano, segundo a Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco). A entidade, presidida por Cláudio Conz, subscreveu o apoio de uma ampla frente empresarial à aprovação da PEC dos gastos públicos. “Queremos agora canalizar as forças para mostrar ao Banco Central que é hora de reduzir os juros”, diz Conz. “Para nós, o barateamento do crédito é fundamental, pois quando uma pessoa reforma a casa, ela paga a mão de obra à vista e parcela os materiais de construção.”

Situação semelhante é a vivenciada pela indústria de motocicletas, que registra uma queda superior a 20% neste ano. Se comparado ao pico registrado em 2011, o mercado caiu pela metade – de 1,9 milhão de motos emplacadas para um volume levemente inferior a 1 milhão de unidades. “Mais importante do que a queda dos juros será uma postura menos restritiva dos bancos”, diz Marcos Fermanian, presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo). “De cada dez clientes que pedem um financiamento, oito recebem um não como resposta.”

A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) argumenta que o rigor na concessão do crédito por parte dos bancos e das financeiras decorre da falta de informações sobre o cliente, o que aumenta o risco de inadimplência. “O agente financeiro precisa perguntar mais e o cliente também precisa falar mais sobre a situação financeira dele”, diz Hilgo Gonçalves, novo presidente da Acrefi. “Transparência total. Só assim será possível aprovar o crédito adequado para o cliente certo.”

O executivo prevê que, a partir do novo ciclo de redução dos juros pelo Banco Central, a retomada do crédito ocorrerá de forma mais racional e sustentável do que no boom de financiamentos dos últimos anos (leia entrevista ao final da reportagem). Em 2016, pela primeira vez na série histórica, iniciada em 2007, o Banco Central prevê uma retração do total de crédito do País, em torno de 2%. Para o ano que vem, a Acrefi projeta expansão entre 5% e 8%. Até mesmo o sempre traiçoeiro cenário internacional tem colaborado com a tendência de queda de juros no Brasil.

Os principais países desenvolvidos da Europa e da Ásia trabalham com taxas reais perto de zero ou negativas. Além disso, o Federal Reserve (o Banco Central americano) empurrou para o fim do ano a elevação dos juros que foi aguardada ao longo de 2016. Esse movimento ajudou a valorizar o real frente o dólar em 18% neste ano, o que também contribui para o combate à inflação. Vista com credibilidade pelo mercado, a nova equipe do BC vem conquistando importantes vitórias na guerra das expectativas.

Quando Goldfajn assumiu o cargo, em junho, os analistas projetavam que o IPCA, índice oficial de inflação, estaria em 5,50% em 2017. Na última coleta de dados do Boletim Focus, na segunda-feira 10, a mediana das estimativas tinha caído para 5,06%. Ao reduzir os juros na próxima reunião, o Copom não apenas se mostrará sensível à dura realidade econômica, como também vai gerar uma redução nos gastos com o serviço da dívida pública interna, atualmente em R$ 3,6 trilhões. A cada meio ponto percentual a menos de Selic, o governo federal economizará R$ 18 bilhões em 12 meses. Nada mal para um País com tantos problemas fiscais.

—–

“A retomada do crédito será mais racional e sustentável”

Em sua primeira entrevista, o novo presidente da Acrefi, Hilgo Gonçalves, prevê um cenário promissor em 2017

O sr. está animado com o Brasil?
Sim. Vivemos um momento de transição de um modelo que não era sustentável para um novo modelo que sinaliza uma enorme oportunidade. O ponto fundamental é a PEC do ajuste fiscal, pois é impossível que um país cresça com déficit nas contas. Nesse contexto, a escalação da equipe econômica foi fantástica.

A Acrefi também apoia a reforma da previdência?
Seguramente. A Acrefi é a favor do longo prazo. Precisamos fazer agora a reforma para que nossos filhos, netos e bisnetos possam ter uma previdência saudável.

Em 2016, pela primeira vez na série histórica do Banco Central, o volume crédito está recuando. Haverá recuperação no ano que vem?
Sim, nós projetamos uma expansão nominal entre 5% e 8%.

Quais são as premissas?
O principal item é a retomada do emprego, que virá com o resgate da confiança. Esse processo ainda vai demorar um pouco, mas os trabalhadores empregados vão perder o medo de serem demitidos e voltarão a consumir.

Teremos um novo boom de crédito?
Não. Desta vez será bem diferente dos anos anteriores quando houve muito estímulo ao crédito. As pessoas contraíram empréstimos de maneira quase emocional, em muitos casos. Infelizmente causou uma alta acelerada no endividamento das famílias. Agora a decisão será mais racional, o que é mais saudável para todos, para quem toma e para quem empresta. Isso gera um crescimento mais sustentável do crédito, que será um dos alavancadores do PIB. Portanto, a retomada do crédito será mais racional e sustentável.

As instituições financeiras não estão muito rigorosas para liberar crédito?
Os bancos e as financeiras estão dispostos a emprestar mais e os empresários e consumidores precisam do crédito. Porém, está faltando informação no mercado de crédito. O agente financeiro precisa perguntar mais e o cliente também precisa falar mais sobre a situação financeira dele. Transparência total. Só assim será possível aprovar o crédito adequado para o cliente certo.

Quando os juros vão começar a cair?
Creio que o Banco Central já reduza 0,25 ponto percentual na reunião deste mês. Quanto aos juros na ponta, tudo vai depender da inadimplência.

Mas a sociedade acha que os bancos ganham muito dinheiro…
Todos os empresários procuram ter uma remuneração adequada ao capital investido. Com a portabilidade do crédito, o tomador deve negociar bastante.

Há educação financeira no Brasil?
A educação financeira deveria ser obrigatória nas escolas. As famílias precisariam fazer orçamento doméstico e calcular os juros. Nós só acreditamos no crédito responsável.

—–

Confira também:

Os gastos públicos nos trilhos
Bolsa aos 60 mil pontos. E agora?

Veja também

+ 5 benefícios do jejum intermitente além de emagrecer
+ Jovem morre após queda de 50 metros durante prática de Slackline Highline
+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Mulher finge ser agente do FBI para conseguir comida grátis e vai presa
+ Zona Azul digital em SP muda dia 16; veja como fica
+ Estudo revela o método mais saudável para cozinhar arroz
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ Cinema, sexo e a cidade
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel