Economia

Desafio global

Encontro do G20 na China é a primeira chance de Temer encarar o protecionismo comercial

Desafio global

Olhar internacional: a cidade de Hangzhou, na China, se prepara para a reunião das 20 maiores economias (foto: Divulgação)

Virada a página do impeachment, o presidente Michel Temer terá pela frente a tarefa de recolocar a economia nos trilhos e precisará como nunca da ajuda internacional. O problema é que seria bom “combinar com os russos antes”, como diria o craque Garrincha em 1958, em uma alusão ao favoritismo da então União Soviética, cotada para o título mundial, durante uma preleção com o técnico Feola. Ciente de que a imagem do País piorou muito após cinco anos do governo Dilma Rousseff, o presidente Temer decidiu embarcar para um giro internacional no mesmo dia em que tomou posse.

Na visão dos especialistas, o novo governo terá de lidar com a chamada aversão ao risco. Em bom português, medo de colocar dinheiro em países emergentes como o Brasil e perder. “Dinheiro não aceita desaforo, esta é a regra. E, no final das contas, não interessa a ideologia do presidente, o partido, mas sim o tamanho do risco”, afirma Welber Barral, ex-secretário da Secretaria de Comércio Exterior no governo do ex-presidente Lula. Para driblar esta aversão, diz o executivo, é muito importante a participação direta de Temer e de dois ministros, José Serra (Relações Exteriores) e Henrique Meirelles (Fazenda), da reunião do G20, o grupo das 20 maiores economias do planeta, em Hangzhou, nos dias 4 e 5 de setembro.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento da economia global será de 3,2% em 2016. Não é um desempenho trágico nem suficiente para ajudar o Brasil, o 25º maior exportador do mundo segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), que se vê às voltas com preços achatados de commodities importantes como minério, petróleo, soja e milho. E a contraparte, o mercado interno, registra a pior sequência de queda dos últimos 20 anos, com uma retração de 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro semestre do ano.

“O problema é que o mundo se movimenta ainda muito lentamente e está mais protecionista, olhando mais para seus vizinhos do que para os emergentes”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O contexto, explica Castro, é de uma China com desaceleração de crescimento, uma Europa bem mais entricheirada depois da saída do Reino Unido da União Europeia (o chamado Brexit) e os Estados Unidos em plena campanha eleitoral. O caso do Brexit é emblemático na visão dos analistas porque deteriorou o sonho de um acordo bilateral do Brasil com a União Europeia.

Para o professor de Finanças do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-RJ), Gilberto Braga, há uma série de sequelas no episódio. “Tradicionalmente os ingleses são mais liberalizantes em relação ao comércio internacional, principalmente em relação à agricultura, do que o resto da Europa”, afirma. O raciocínio é que a saída dos ingleses dá espaço ao protecionismo de países que concedem fortes subsídios aos seus produtos agrícolas, como a França e a Polônia. “Tudo isto dificulta um acordo bilateral”, diz Braga. O cenário americano, com a disputa de Hillary Clinton e Donald Trump pela Casa Branca, também não será uma fácil porta de entrada para os produtos brasileiros.

O impasse, explica Barral, é que os Estados Unidos voltaram a crescer depois da crise de 2008, marcada pela quebra do banco Lehman Brothers. “Mas as exportações brasileiras não surfaram neste crescimento americano porque não somos competitivos, e o câmbio não está nos favorecendo”. Uma saída, diz Barral, seria uma reaproximação natural com a Argentina e o novo governo Macri, o que daria novos contornos para negociações no âmbito do Mercosul. Mas se o mundo está mais retraído, não se pode dizer que falte dinheiro para investir. O presidente da AEB lembra que a liquidez é farta no planeta, mas com um paradoxo: cerca de 30% de toda esta dinheirama está aplicada a juros negativos nos bancos de economias desenvolvidas. Isto é, dinheiro que penaliza o investidor.

Para o presidente da Sobeet, um centro de estudos sobre o Comércio Exterior, Luiz Afonso Lima, o problema da liquidez internacional não é algo recente. “Assistimos a um cenário que se desenhava há algum tempo, de reconcentração dos investimentos em países desenvolvidos”, afirma. “Essas nações perderam espaço até 2015 para as economias emergentes, mas agora passam a sugar novamente o capital internacional”. Se Temer conseguir reverter a imagem negativa do País, a consequência natural será a atração de bilhões de dólares em investimentos especulativos e produtivos (leia reportagem aqui). Essa corrida já começou.

—–

Confira as demais matérias do Especial Governo Temer:

Começa a era Temer
Surge uma nova economia
O duro caminho das reformas
Reação dos empresários
Que venha o Touro!