Economia

Importadores querem voltar a sorrir

A trajetória de queda do dólar e a troca de governo começam a devolver o otimismo às marcas importadas, mas a recuperação deverá ser lenta

Importadores querem voltar a sorrir

Gandini, da Kia e Abeifa: “Queriam nos matar, sem piedade. Agora estamos confiantes de que a equipe de Temer terá uma visão mais equilibrada e justa” (foto: João Castellano)

Nos últimos três anos, os importadores de veículos no País viveram um autêntico teste de sobrevivência. A supervalorização do dólar frente ao real – que chegou à cotação de R$ 4,16, em janeiro – e a cruzada promovida pelo governo da presidente afastada Dilma Rousseff, que estabeleceu cobrança adicional de 30 pontos percentuais de IPI sobre veículos produzidos no exterior, criaram um ambiente de extermínio do mercado de importados. “Queriam nos matar, sem piedade”, afirmou o presidente da Kia Motors do Brasil e presidente da associação que representa os importadores, a Abeifa, José Luiz Gandini. “Nesse ritmo, com o dólar acima de R$ 3 e a cobrança de impostos que não fazem o menor sentido, em menos de dois anos não haverá uma concessionária de carro importado de porta aberta.”

Os números do setor endossam que o mercado de veículos importados tem mais motivos para chorar do que para sorrir. Pelos cálculos da Abeifa, as marcas de fora venderam 3,33 mil unidades em julho, 37,1% menos do que no mesmo mês do ano passado. No acumulado de janeiro a julho 2016, a retração é ainda maior: 43,6%. Isso apesar da alta de 19,7% em julho em relação a junho, que trouxe um alento aos empresários do setor. “Quando o governo definiu uma cobrança extra de IPI para os importados, com a intenção de proteger os fabricantes locais, o dólar custava R$ 1,60”, disse Gandini. “Agora, com o mercado geral em forte retração e a moeda americana nas alturas, sobretaxar a importação só gera desemprego, quebradeira de concessionários, além de inviabilizar qualquer operação.”

Então, pode-se imaginar que os importadores estão condenados ao fracasso, correto? Para Gandini, não. Ele acredita que o atual cenário econômico e político começa a desenhar um horizonte mais promissor para o mercado de importação. Isso porque, nas últimas semanas, em reuniões a portas fechadas com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Marcos Pereira, houve sinalizações de que, após a aprovação do processo de impeachment de Dilma no Senado, essas “distorções”, como a definição de cota de importação de 4,8 mil unidades por ano, cerca de 10% do necessário, deverão ser reavaliadas. “Agora estamos mais otimistas em relação ao futuro e confiantes de que a equipe do presidente Michel Temer terá uma visão mais equilibrada e justa no que se refere ao mercado de importação”, afirmou Gandini.

Os carros importados, de fato, não parecem representar qualquer ameaça aos veículos fabricados no Brasil. Segundo a Abeifa, eles respondem por apenas 1,9% do mercado brasileiro e, em 2016, não devem superar 39 mil unidades vendidas. No ano passado, foram 59,9 mil veículos. Em 1977, o melhor ano da história dos importados, foram emplacados 77 mil carros no País. “Garantir aos importados uma participação de mercado é fundamental para estimular a concorrência, melhorar o nível de qualidade dos carros nacionais em termos de tecnologia e ampliar as opções de compra para o consumidor”, garante o consultor para indústria automotiva, Otávio Neiva Barros.

Em um cenário mais promissor para as marcas importadas, quem tem mais mercado, evidentemente, sorri primeiro. É o caso da coreana Kia, responsável por quase 30% das vendas do setor no Brasil. A venda de 1.276 carros da marca em julho representou uma alta de 58,1% sobre o mês anterior. No mesmo período, o mercado geral reagiu 5,6%, com a venda de 181 mil unidades, segundo a associação dos fabricantes, a Anfavea. “Vários fatores contribuem para essa melhora do ambiente: o dólar em queda, o clima de confiança dos consumidores e empresários com a saída de Dilma e as estratégias das marcas para ampliarem suas vendas”, disse Gandini. 

Mesmo que as perspectivas de recuperação do setor se concretizem, parte do estrago causado ao elo mais frágil da cadeia automotiva, os revendedores, será irreversível. As concessionárias das 18 marcas associadas à Abeifa hoje somam 490 em todo o País. Há três anos, eram 850. E a agonia não se limita aos importados. Segundo a Fenabrave, a associação que representa o setor, mais de 1,6 mil concessionárias fecharão as portas entre 2015 e 2016, com a demissão de 50 mil pessoas. “As empresas que tentaram se segurar em 2015 e interromperam as atividades devem fechar de vez neste ano”, diz o presidente da entidade, Alarico Assumpção Júnior.