Economia

A força brasileira da Toyota

A montadora escolhe um dos piores momentos da história do setor automotivo para dar prioridade ao Brasil. O timing não poderia ter sido melhor

A força brasileira da Toyota

Voz ativa: a operação brasileira da Toyota, comandada por Koji Kondo, está ganhando importância para o grupo, que investe para tornar o País mais competitivo (foto: FELIPE GABRIEL)

A montadora japonesa Toyota chegou ao Brasil em 1958. Nessas quase seis décadas, sua atuação no País sempre foi considerada discreta, em comparação à posição que a empresa possui no mercado global de automóveis, atualmente, a de maior fabricante do mundo. No final do ano passado, ela figurava apenas na sétima posição no País, com 7,43% de participação de mercado. Nesse mesmo período, a indústria automotiva enfrentou poucos altos e baixos. As piores fases aconteceram no início dos anos 1990, quando o ex-presidente Fernando Collor de Melo liberou as importações e chamou os carros nacionais de “carroças”, e nos últimos quatro anos. Desde 2012, o mercado de veículos caiu quase pela metade, saindo de um total de mais de 5 milhões de carros vendidos no ano para cerca de 2,6 milhões. É surpreendente, portanto, o fato de que a Toyota tenha escolhido, justamente, esses tempos conturbados para fazer da sua operação brasileira uma das maiores prioridades do grupo. Mas é exatamente o que vem acontecendo.

Uma série de mudanças está em curso na operação da companhia no Brasil cujo foco está na preparação da empresa para o próximo período de bonança, que virá, segundo seu presidente, Koji Kondo, somente a partir de 2019. “O ano que vem pode apresentar evolução, mas ainda será difícil”, diz Kondo.  Se o conturbado segundo governo de Dilma Rousseff marcou um dos piores momentos do mercado automotivo brasileiro, no geral, para a Toyota representou novos tempos. Em 2012, a empresa se lançou no concorrido segmento “de entrada”, dos carros mais baratos, com o lançamento da linha Etios. Os resultados ficaram aquém do esperado e, no ano seguinte, com a chegada do americano Steve Saint Angelo à presidência da empresa na América Latina, as mudanças começaram a ser feitas. Até então, era a matriz japonesa quem dava as cartas. Poucas coisas eram desenvolvidas aqui, o que resultou em erros, principalmente no Etios. Os consumidores avaliaram o carro de forma negativa em quesitos como o design e o acabamento. As vendas, como resultado, não progrediram.

A demanda por tecnologia e conectividade nos automóveis vem crescendo no Brasil há, pelo menos, quatro anos, afirma Valdner Papa, consultor automotivo e professor das faculdades FAAP e ESPM. Essa é uma tendência irreversível na indústria. Sem uma equipe local dedicada ao desenvolvimento de novidades, a Toyota acabava engessada.  Segundo Kondo, esses tempos ficaram para trás. “Hoje temos uma equipe de 150 engenheiros locais e acabamos de criar um centro de design”, diz o executivo. “Estávamos atrasados em relação aos nossos concorrentes.” O Etios, em particular, recebeu mais de 600 mudanças de componentes. O design externo continua praticamente igual, mas o carro ganhou um novo painel, totalmente digital, bancos mais confortáveis e câmbio automático. “O objetivo, agora, é fazer carros cada vez mais brasileiros”, diz Kondo. Com isso, ele espera incomodar mais os líderes de mercado, Fiat, Volkswagen e GM. “Nós costumávamos ter um volume pequeno no Brasil. Eu não me preocupo muito em estar no primeiro ou no segundo lugar, mas acredito que devemos competir em igualdade com as outras grandes montadoras.”

Há um contexto global que confere a esse movimento, ainda, um timing quase perfeito. Ao contrário de Nissan e Honda, suas principais rivais japonesas, a Toyota mantém grande parte de sua produção “em casa”. Das suas fábricas no Japão saem, por ano, cerca de 3 milhões de veículos, o suficiente para abastecer todo o mercado brasileiro, e ainda sobrarem centenas de milhares de automóveis. Até este ano, a empresa vinha se beneficiando da desvalorização do iene. Em 2015, a moeda japonesa chegou ao menor patamar frente ao dólar em 13 anos. Desde janeiro, no entanto, a cotação do iene subiu mais de 19%, gerando preocupações à indústria japonesa. Essa é uma chance para os brasileiros ganharem ainda mais relevância. “Vamos tornar o Brasil competitivo não só no mercado global, mas também frente às outras divisões do grupo”, diz Kondo. Para isso, é preciso aumentar a eficiência e reduzir os custos. “Temos de pensar em como manter sustentável a indústria brasileira frente à competição da China, de toda a Ásia e, também, dos Estados Unidos”, afirma o executivo. Unir a disciplina japonesa com a criatividade brasileira é, na visão da Toyota, um excelente caminho.