Economia

Troca de guarda no Banco Central

Quem é e o que pensa Ilan Goldfajn, o mais cotado para assumir o posto de guardião do real

Troca de guarda no Banco Central

Goldfajn: Ortodoxo e respeitado no mercado, ele defende a independência do Banco Central (foto: Claudio Belli/Valor)

O novo ministro da Fazenda Henrique Meirelles prometeu para a segunda-feira 16 o anúncio do sucessor de Alexandre Tombini no Banco Central. O nome mais provável para assumir o posto de guardião da moeda brasileira é o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, que concorria com Mário Mesquita ao posto. Se nomeado, Goldfajn deve reproduzir no BC a mesma estratégia que o tornou célebre entre seus pares no Itaú Unibanco. Ao ser encarregado, em 2010, da espinhosa tarefa de unificar as tesourarias de três bancos (Itaú, Unibanco e BBA), ele teve de transformar em um coro afinado os discursos, por vezes dissonantes, de 12 economistas que trabalhavam nas três casas, muitos deles com carreiras vistosas – e egos inflados.

Seu plano passou pela reprodução, em parte, de uma estrutura de pesquisa baseada em modelos matemáticos robustos. Esse instrumental teórico era usado para prever e calcular indicadores econômicos, algo que freqüentava seu dia a dia como diretor de Política Econômica do BC, onde ele trabalhou entre 2000 e 2003. “Ele tinha uma visão ampla do sistema”, comenta uma fonte que acompanhou de perto o trabalho de Goldfajn no Itaú. De fato, o economista é reconhecido pelo notório saber sobre macroeconomia e pela experiência em estratégias para o combate à inflação e condução da política monetária.

Em seu Ph.D, obtido no Massachusetts Institute of Technology (MIT), ele produziu um estudo sobre dívida pública, que foi premiado com o prêmio do “World Economy Lab”, da instituição americana. A experiência vem a calhar, já que o endividamento do governo é um dos principais problemas da economia brasileira para o governo Temer resolver. Paralelamente, com o seu estilo de coordenar o trabalho, Goldfajn, que não é o mais simpático nem o mais tirano da turma, embora seja duro quando necessário, foi arrefecendo a vontade dos demais economistas do banco em relação a quem seria o porta-voz da instituição.

Em pouco tempo, ele mesmo assumiu a posição sem que a esperada guerra de egos se concretizasse. “Goldfajn impôs respeito de uma maneira sustentável ”, confirma um ex-colega de banco. Tempos depois, ele instituiu uma medida que causou desconforto entre seus colegas. Como ele era muito requisitado para fazer apresentações a clientes, como, por exemplo, do segmento corporativo, ele passou a enviar a fatura das horas trabalhadas da equipe para o centro de custos do setor. “Ele tem uma capacidade de organização acima da média e foi o homem certo na hora certa”, avalia o ex-colega.

Suas opiniões sobre o papel do BC na economia e no sistema financeiro estão em linha com o pensamento econômico ortodoxo. Ao ser chamado a opinar na Comissão de Assuntos Econômicos no Senado, em 2013, Goldfajn defendeu maior transparência na condução da política fiscal. Na ocasião, ele afirmou ser a favor da independência do BC, pois isso daria mais clareza e transparência na condução da política monetária. Essas opiniões constam de artigos publicados no livro “Como reagir à crise?”, coletânea organizada por ele e por seu colega no Itaú BBA, o economista Edmar Bacha.

Recentemente, ao comentar o Relatório Trimestral de Inflação pelo BC, Goldfajn reafirmou que o Copom (Comitê de Política Monetária) deve reduzir os juros apenas no segundo semestre deste ano. Ele esperava quatro cortes de 0,5 ponto percentual na Selic, a partir de julho: “A recessão prolongada e o câmbio mais estável devem contribuir para uma gradual redução das expectativas de inflação, o que abrirá espaço para o ciclo de corte de juros mais adiante”. Obviamente, com a posse do novo governo e a troca do comando no BC, essas e outras previsões devem mudar.

Nascido em 1966 em Haifa, Israel, Goldfajn cresceu no Rio de Janeiro. Estudou em uma escola tradicional judaica em Botafogo, o Colégio Israelita Brasileiro A. Liessin, vizinho do Colégio Princesa Isabel, onde a psicóloga Denise Salomão Goldfajn, sua mulher, cursava o ensino médio. Os dois se casaram em 1991, logo após ele concluir o mestrado na PUC-RJ, que engatou na sequência do curso de Economia na UFRJ, concluído em 1988. Já casados, os dois seguiram para os Estados Unidos, onde ele concluiria o Ph.D no MIT, em 1995. Pais de três filhos, Gabriel, Maya e Amir, o casal ainda ficaria mais quatro anos nos Estados Unidos.

Ilan lecionou na Brandeis University por dois anos, até ir para o Fundo Monetário Internacional (FMI), onde foi economista até 1999. Nessa época, ele ainda foi consultor do Banco Mundial e da ONU. De volta ao Brasil, Goldfajn lecionou na PUC-RJ por dez anos. Ele ainda foi sócio da Gávea Investimentos, entre 2003 e 2006, chefiando as áreas de pesquisas macroeconômicas e análise de risco. Atuou como diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa em Economia da Casa das Garças, entre 2006 e 2009, e foi sócio-fundador da Ciano Investimentos e da Ciano Consultoria, entre 2007 e 2009, de onde se desligou ao ir para o Itaú.

Em uma entrevista para a publicação “Educar para Crescer”, o economista lembra do papel fundamental de seu pai em sua opção de prolongar os estudos. “Só parei de estudar formalmente quando eu tinha quase 30 anos. Isso foi fundamental para minha vida na área de economia, que também é baseada no estudo. Logo que me formei, pensava em começar a trabalhar e meu pai me mostrou que eu podia investir mais em mim.” José Jayme Goldfajn conhecia o mercado e sabia que esses anos a mais fariam toda a diferença na carreira do filho. Até 1991, José Jayme era sócio da Objetiva Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda.

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