Economia

Fim da paciência

Cada vez mais sufocado pela deterioração da economia, o setor produtivo mergulha no apoio ao processo de impeachment e projeta as melhorias nos negócios em um eventual governo de Michel Temer

Fim da paciência

A missão do superpato: a Fiesp colocou 5 mil patos em frente ao Congresso Nacional para simbolizar seu apoio ao processo de impeachment (foto: CHARLES SHOLL/FUTURA PRESS)


No início da tarde da quinta-feira 31, o vice-presidente da República, Michel Temer, chegou ao restaurante Cantaloup, no bairro do Itaim Bibi, na zona Sul de São Paulo, para um encontro com cerca de 50 economistas e conselheiros do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Numa conversa de aproximadamente duas horas, Temer frustrou aqueles que tinham a expectativa de ouvir os planos e as metas de um futuro governo sobre sua liderança, caso o processo de impeachment seja bem-sucedido no Congresso Nacional.

O vice-presidente manteve a discrição para não falar em fim do governo Dilma. No entanto, Temer agradou bastante os empresários ao garantir que irá preservar as investigações da Lava Jato, ao contrário de informações que circulam dizendo que ele comandaria uma operação abafa. “Sou um constitucionalista e serei o primeiro a respeitar a autonomia do Poder Judiciário”, disse ele. “No regime democrático, deve haver o equilíbrio entre todos os poderes.” Por fim, Temer explicou que o governo ignorou o plano de recuperação da economia elaborado pelo PMDB no final do ano passado, o que provocou o rompimento do partido com o PT, decisão que foi aclamada pelos correligionários na terça-feira 29 (leia reportagem aqui).

No mesmo dia em que o PMDB deixou a base aliada de Dilma Rousseff, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) espalhou cinco mil patos de plástico em frente ao Congresso, além do superpato, de 20 metros de altura (equivalente a um prédio de sete andares), para simbolizar o apoio do setor produtivo ao impeachment. Desde que a entidade lançou o manifesto, em 17 de março, a adesão ao movimento tem crescido e ganhado força entre o empresariado.

As pouco mais de 100 associações e sindicatos patronais que assinaram inicialmente o apoio à campanha liderada pelo presidente Paulo Skaf, no edifício da Fiesp, em São Paulo, se multiplicaram por quatro nos últimos 15 dias. “Se estamos contra a presidente, é porque entendemos que ela perdeu o controle e está prejudicando o País”, afirma Skaf. “Se ela tivesse fazendo o trabalho dela adequadamente, nós só estaríamos trabalhando.” É a primeira vez na história em que o empresariado abraça abertamente uma posição tão clara contra o governo vigente.

A principal expectativa dos empresários é que o efeito do governo Temer seja semelhante ao que aconteceu com a eleição de Mauricio Macri, na Argentina. Desde que assumiu a Casa Rosada, em dezembro do ano passado, o presidente restabeleceu a confiança no país, o que destravou investimentos e devolveu parte da credibilidade que tinha sido perdida nos anos de Cristina Kirchner. Embora o Brasil não deva passar por novas eleições antes de 2018, a saída de Dilma pode destravar a economia em poucos meses e evitar que mais empresas fechem as portas (leia reportagem aqui).

“A Argentina estava mais próxima do fundo do poço e, com um projeto inteligente e a volta da confiança, a retomada foi mais rápida do que todos esperavam”, diz Flávio Rocha, presidente da Riachuelo. “Aqui a economia está lenta, mas pode ser ativada muito rapidamente, também.” A deterioração dos principais números da economia nacional causa perplexidade no setor produtivo, que está se segurando onde pode para não sucumbir às más notícias. A taxa de desemprego deve atingir a casa dos dois dígitos ainda no primeiro semestre, o déficit do governo central deve chegar a quase R$ 100 bilhões neste ano e a dívida bruta vai se aproximar de 72% do Produto Interno Bruto (PIB).

Com isso, os cortes de R$ 44,6 bilhões nos gastos do governo federal, neste ano, são insuficientes para melhorar o desempenho da economia e recuperar a confiança perdida. “Qualquer iniciativa que o atual governo adote é duvidosa, em termos de qualidade”, diz Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). “O empresário ficou com medo de investir e não acredita mais no que o governo Dilma possa entregar. Precisamos de uma mudança porque estamos no clima de fim de governo.”

Uma eventual administração Temer terá de mostrar muita disposição para atacar os problemas que estão paralisando o País. Esse novo governo terá de fazer uma análise muito profunda do gasto público e promover cortes grandes, para tornar o estado mais eficiente. O Brasil está deixando de caber dentro de toda a sua riqueza gerada, o que exige uma redução de tamanho. O PMDB precisará ter a coragem que o PT não teve para executar as reformas.

Os empresários não querem ver um ajuste fiscal parcial e a ausência de um plano para o corte de despesas. “O equacionamento da dívida pública vai devolver a credibilidade que o governo atual tentou fazer, com o ministro Joaquim Levy, mas não conseguiu”, diz Vicente Abate, presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer). “Um plano para cortar despesa é um dos pontos fundamentais.” A paciência do setor produtivo chegou ao fim.

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