Economia

Manifestações emparedam o governo Dilma, diz Arko Advice

Para Murilo Aragão, cientista político e presidente da Arko Advice, atos anti-Dilma tornam situação do governo dramática 

Manifestações emparedam o governo Dilma, diz Arko Advice

Para Murillo Aragão, da Arko Advice, situação política do governo Dilma piorou sensivelmente após manifestações

O cenário político-econômico está pior, avinagrado, e pode levar a uma indigestão coletiva se nada for feito. A análise é de Murillo Aragão, presidente da consultoria de análise e pesquisa política Arko Advice.

Cultuado como um dos  mais articulados e informados profissionais em consultoria política, Aragão conhece como poucos o ambiente político em Brasília com um trabalho de mais de duas décadas. Ele concedeu a seguinte entrevista à DINHEIRO sobre as manifestações populares do domingo, 13.

Como o sr. avalia as manifestações e o que isto implica do ponto de vista político daqui para frente?

Trata-se de uma situação dramática para o governo porque as manifestações foram robustas. Demonstram claramente que o governo não tem apoio da sociedade. Foram os maiores atos da história recente do Brasil e emparedam o governo Dilma em um momento político muito delicado.

Que momento político é este?

Um momento de fragmentação partidária, de desunião da base política e de profunda perplexidade programática. Refiro-me ao fato de o governo não saber se programar para sair da crise econômica em que vivemos, a pior desde a década de 1930. É um momento gravíssimo da história do Brasil e as manifestações só demonstram o quão frágil estamos.

O sr. se surpreendeu com o tamanho das manifestações em todo o País?

Sabíamos que seria muito maior do que em março do ano passado, mas não tão maior como se observou.

E quais são os próximos capítulos? O que esperar da convenção do PMDB, que é base de apoio do governo?

O PMDB decidiu não sair do governo agora, mas deu um aviso muito claro de que sairá na medida em que os acontecimentos forem se desenvolvendo. A decisão do partido foi dar uma chance ao governo, mostrar que alguma coisa deve ser feita.

E qual é a solução?

A rigor existem cinco soluções: a renúncia da presidente; o afastamento por um motivo de saúde ou algo alegado; a constituição de uma nova maioria para governar o País; o impeachment; ou a cassação da chapa. Uma delas prevalecerá, mas o que é importante ressaltar é que o “tempo” para cada uma delas é diferente. Provavelmente o tempo visível é o debate sobre o impeachment, que, sendo sancionado ou não, obrigará necessariamente à formação de uma nova maioria política, com a presidente Dilma ou com o vice-presidente Michel Temer. Essa talvez seja a vantagem do debate sobre o impeachment.

Como funcionaria a licença?

A presidente pode solicitar legalmente um afastamento do poder por motivo médico de, digamos, 90 dias, de forma voluntária. E o governo seria automaticamente repassado ao vice. Mas isto são hipóteses, não há nada definido.

Das cinco saídas listadas, qual a mais provável na sua opinião?

Penso que é o impeachment, por ser uma solução institucional com maior capacidade de realização. Não é algo fácil, trata-se de uma solução traumática e existe sempre a chance de a presidente até ganhar a batalha. O problema é que a conjuntura está piorando muito para o governo, o que deve resvalar em uma votação (do impeachment) no plenário daqui a dois ou três meses. O ponto é que a solução que se avizinha é de muito desafio para o governo, que tem sido muito incompetente na condução política, em que pese a tentativa de trazer o Lula ao governo.

O impeachment seria então baseado nas chamadas “pedaladas fiscais”?

O impeachment em si pode ter uma justificativa formal, mas a motivação será absolutamente política. O próprio pedido de impeachment está sendo enriquecido com outras evidências de desvios de conduta. O que eu quero dizer é que será um grupo de evidências, não somente as pedaladas.

Hoje surgiu a informação que toda a condução do processo do ex-presidente Lula em São Paulo será conduzida pelo juiz Sérgio Moro. O que isto muda no atual cenário?

Coloca uma pressão adicional sobre o ex-presidente, até porque o tema estava sendo tratado em um ambiente estadual. E agora passa para um foro federal, o que é ruim para ele.