Economia

Sombras na mineração

Queda nos preços internacionais afeta projetos no Brasil e cria dificuldades para cadeia de fornecedores e municípios mineradores

Sombras na mineração

Horizonte incerto: projeto da Vale, em Minas Gerais, onde municípios amargam uma queda de 30% na arrecadação (foto: Bruno Vereza/Vale)

Distante 500 quilômetros de Belo Horizonte, a capital mineira, o município de Paracatu pouco lembra os registros da vocação mineral do passado, encontrados nas cidades históricas do circuito turístico do Estado. Os escassos relatos dão conta de que ali se deu a última grande descoberta aurífera regional do século 18. Na cidade, porém, é possível encontrar, hoje, 15 hotéis e moradores que acompanham de perto a cotação do metal. Em maior ou menor grau, os cerca de 90 mil habitantes dependem da maior mina de ouro a céu aberto do mundo, situada no município, nutrindo sentimentos de gratidão e ressalvas à atividade, pelas oportunidades e impactos que gera.

Nos últimos meses, mesmo quem sempre defendeu seus benefícios, não esconde os ressentimentos do momento de austeridade. “O preço do ouro caiu muito e diminuiu o serviço”, diz um fornecedor que não quis se identificar. Ele relata queda de até 80% na demanda. Desde o pico mais recente, em 2011, o preço do ouro caiu quase 40%, obrigando as empresas a se ajustarem. Na busca por competitividade, a canadense Kinross, dona da mina local, desativou máquinas antigas, investiu na redução do consumo de energia e no aproveitamento de rejeitos. Para não demitir o excedente de mão de obra, realocou 150 funcionários.

Ainda assim, a vida útil do projeto, que era estimada até 2041, há quatro anos, foi reduzida para 2031. “Redução de produção não funciona para nós”, afirma Gilberto Azevedo, gerente geral da companhia. “Precisamos trabalhar no aumento da escala e na eficiência.” O caso do ouro está longe de ser isolado e mostra a amplitude das dificuldades atuais na mineração. Neste ano, a produção mineral brasileira deve somar US$ 38 bilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram).

O montante é 5% inferior ao registrado em 2014 e 30% menor do que há quatro anos. A conta inclui mais de 20 tipos de minérios. O principal deles é o minério de ferro, responsável por quase 80% da produção e cuja cotação caiu cerca de 70%. “Os preços estavam acima da realidade e se produzia de qualquer maneira porque os custos cobriam”, diz Marcelo Ribeiro Tunes, diretor do Ibram. “Na hora que chegou aos níveis normais, a nota de corte subiu.” Como no resto do mundo, projetos estão sendo revisados, adiados e até cancelados.

Muitas mineradoras de menor porte se inviabilizaram e as grandes ficaram mais seletivas. A Vale, por exemplo, vendeu meganavios, participações em negócios secundários e passou a priorizar projetos mais rentáveis. O processo de adaptação deixa marcas pelo caminho.Municípios mineradores de Minas Gerais, Estado responsável por pouco mais da metade da produção de metálicos, amargam uma queda de 30% na arrecadação, na média. “Todas as cidades estão demitindo, cortando horas extras e parando de investir”, afirma José de Freitas Cordeiro, presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais (Amig).

Diante do quadro, o grupo, composto por 32 municípios, costurou um acordo com a Vale para que a companhia repasse cerca de R$ 300 milhões de um valor de royalties que estava sendo questionado na Justiça. Em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde a prefeitura teve de demitir servidores, estatísticas da Associação Comercial, Industrial e de Serviços (Acisnl) dão a dimensão da crise: 191 empresas de pequeno e médio porte fecharam as portas neste ano. Na cadeia de fornecimento, fabricantes de equipamentos trabalham com metade da capacidade e contam uma redução de pessoal de 30%.

“Se as empresas locais não tiverem se adequando, vão ter muita dificuldade”, diz Anderson Brini, vice-presidente da Metso, uma das maiores fornecedoras de máquinas ao setor. O grupo aposta nos serviços que ajudem a reduzir o custo das mineradoras para superar a crise. No setor, é consensual a visão de que a situação é transitória, até que se inicie um novo ciclo. O que é impossível saber é quanto demorará a retomada. Até lá, restará às cidades mineiras dar mais atenção aos laços do passado do que do presente com a mineração.