Economia

Efeito real

Nunca antes na história deste País as empresas brasileiras deveram tantos dólares a credores internacionais, o que afeta resultados e cotações na Bolsa

Efeito real

Aldemir Bendine, presidente da Petrobras: dívida equivalente a 9,4% do Produto Interno Bruto (foto: ANDRE DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO/AE)

A alta do dólar nas últimas semanas afetou profundamente as dívidas das empresas brasileiras. O caso mais emblemático é o da Petrobras. Segundo uma avaliação da empresa de informações financeiras Economática, a alta do dólar de R$ 3,10 no fim de junho para cerca de R$ 4,00 no fim de setembro ampliou o passivo da estatal em R$ 100 bilhões. Um dólar a R$ 4,04 eleva a dívida total da empresa para R$ 513 bilhões, o equivalente a 9,4% do Produto Interno Bruto (PIB), tornando ainda mais desafiadora a gestão da empresa, presidida por Aldemir Bendine.

O comportamento das ações refletiu imediatamente as preocupacões do mercado. Em setembro, até a quinta-feira 24, enquanto o dólar comercial apreciava-se 15% em relação ao real, o valor da petroleira recuava 24% na Bolsa. Ela não foi a única a sofrer no pregão. No encerramento dos negócios na quarta-feira 23, as 300 companhias abertas brasileiras valiam US$ 471,6 bilhões, abaixo dos US$ 478,8 bilhões das 121 empresas listadas na bolsa do México. Pela primeira vez em dez anos, a bolsa brasileira perdeu a liderança latino-americana para sua concorrente mexicana. Procurada, a Petrobras não comentou o assunto.

Bendine tem os maiores problemas com o câmbio, mas está longe de ser o único executivo a perder o sono com o assunto. Nunca antes na história do Brasil corporativo as empresas deveram tanto em dólares. O dado consolidado mais recente, divulgado pelo Banco Central na terça-feira 22, mostra que a dívida externa total das empresas no dia 30 de junho era de US$ 211 bilhões. Somando-se os empréstimos que as empresas transnacionais instaladas no Brasil recebem das matrizes, as chamadas operações intercompanhias, esse total sobe para US$ 421 bilhões.

É muito: de cada quatro dólares devidos pelo Brasil a credores internacionais, três se referem a essas operações. E o refinanciamento dessas dívidas, algo fundamental para o dia a dia de qualquer executivo financeiro, ficou comprometido desde que o País perdeu o grau de investimento concedido pela agência Standard & Poor’s no início de setembro. O crescimento da dívida externa privada foi provocado por dois fatores. Um deles foi a apreciação do real em 2010 e 2011, quando a taxa de câmbio chegou a patamares tão baixos quando R$ 1,70.

O dólar relativamente barato incentivou as empresas a captar recursos lá fora. O outro foi a política monetária expansionista americana, que manteve os juros nos Estados Unidos perto de zero desde 2008 e tornou o crédito externo muito barato. Como resultado, o passivo externo privado, sem contar as operações intercompanhia, cresceu 45% em dólares entre 2011 e 2015. Nesse cenário, o impacto da alta da taxa de câmbio é simples de entender. Uma empresa com uma dívida de US$ 100 milhões teria de pagar, no fim de 2014, R$ 266 milhões.

Sem tomar um centavo a mais emprestado, o total a pagar haveria aumentado para cerca de R$ 400 milhões nos últimos dias. Companhias exportadoras estão a salvo, mas as empresas que faturam em reais ou que dependem de insumos importados vão sentir um impacto direto nos seus resultados. “Praticamente, todas as empresas são, em maior ou menor grau, afetadas pelo dólar mais alto”, diz o consultor paulista Fábio Yamamoto, sócio da consultoria financeira Tiex.

“Mesmo quem não tem dívidas em dólar ou não depende de insumos importados vai perceber um aumento nos custos indiretos.” O exemplo mais didático, diz ele, é a alta dos custos logísticos devido ao aumento dos combustíveis. A situação é grave, mas não é tão crítica como a de 2008, quando um solavanco cambial devastou os resultados de empresas muito alavancadas e vitimou nomes tradicionais, como Aracruz e Sadia. “As empresas estão endividadas em dólares, mas têm usado poucos derivativos tóxicos”, diz Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco. “Não deveremos ver problemas tão sérios quanto os de há alguns anos.”

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