Economia

Juntos outra vez

Depois de um ano e meio de gelo, Dilma Rousseff e Barack Obama se encontram e reaquecem relação bilateral

Juntos outra vez

De braços abertos: Obama em visita a Dilma Rousseff no Brasil, em 2011. Presidentes têm encontro marcado no Panamá (foto: CELSO JUNIOR/AGÊNCIA ESTADO/AE)

No fim de agosto de 2013, Edward Snowden, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, vazou documentos mostrando que o governo americano havia espionado a presidente Dilma Rousseff. Irritada, Dilma cancelou uma viagem que faria no mês seguinte a Washington. Um ano e meio depois, o episódio finalmente parece ter sido absorvido e ficado no passado: o encontro entre a mandatária e o seu colega Barack Obama, marcado para o sábado 11, durante a 7ª Cúpula das Améri­cas, na Cidade do Panamá, representa um ato de reconciliação.

Além de uma conversa inicial, ali também seria agendada a viagem de Dilma à capital americana, no segundo semestre. O episódio da espionagem colocou na geladeira uma relação bilateral que até começou bem, com uma viagem de Obama com toda a família ao Brasil, em março de 2011, ainda no início do primeiro mandato de Dilma. Desde a revelação das bisbilhotices da NSA, por Snowden, o governo americano fez várias tentativas de reaproximação, mas nunca entregou o pedido de desculpas públicas que o Brasil demandava. O degelo começou timidamente, em janeiro passado, quando o vice-presidente, Joe Biden, deixou as festividades de Ano Novo em seu país mais cedo e apareceu em Brasília para a cerimônia de posse de Dilma.

Nesse momento, o governo brasileiro, mesmo sem a retratação formal, começou a perceber que não pode mais desperdiçar as oportunidades que se abrem, cada vez mais, no lado norte do hemisfério americano. “Hoje a relação é marcada por uma indiferença benigna, mas há grandes oportunidades de cooperação entre as duas grandes economias hemisféricas”, diz o embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Depois da paralisação nos temas de interesse mútuo, o pragmatismo falou mais alto.

Em fevereiro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, deslocou-se até Washington para iniciar as negociações de acordos de facilitação de comércio e convergência regulatória, para reduzir a burocracia e alinhar normas técnicas. “Temos de aproveitar as oportunidades que se abrem com o crescimento da economia americana”, disse o ministro à DINHEIRO. Para a indústria, o grande mercado do Norte vem se tornando cada vez mais importante. “É estratégico para o Brasil, principal destino de nossas exportações de produtos industrializados”, afirma Monteiro. A parcela dos manufaturados e semimanufaturados na pauta de exportações para os Estados Unidos aumentou de 76%, no ano passado para 83%, neste ano. 

No total, as vendas ao país somaram US$ 27 bilhões em 2014, cerca de 12% de tudo o que o Brasil exportou. Os itens que lideram a lista são aviões, motores e turbinas, autopeças e materiais de construção. De olho na retomada do setor de construção americano, o primeiro acordo de convergência regulatória beneficia o setor de cerâmica e porcelanato. Também foram negociadas melhorias para o setor têxtil e de máquinas e equipamentos. “Exportar mais e atrair investimentos são as duas maiores oportunidades que temos para crescer”, diz o presidente da Câmara Americana de Comércio (Amcham), Gabriel Rico, que acompanhou o ministro à capital americana.

A fabricante de cerâmicas Portobello já começa a planejar uma estratégia para aumentar as exportações para os Estados Unidos. “A expectativa é de retomada com os Estados Unidos de forma gradual, a partir deste ano”, afirma Mauro do Valle, diretor comercial da empresa. Será uma alternativa para driblar a queda nas vendas de material de construção no Brasil. Hoje, as vendas externas da companhia representam apenas 10% do seu faturamento. Tanto para a Portobello como para as empresas, em geral, o encontro entre Obama e Dilma representa um avanço que pode garantir portas abertas aos negócios brasileiros.