Economia

Mania de grandeza

Em meio à tormenta econômica, a presidente argentina, Cristina Kirchner, lança projeto para construir o maior edifício da América Latina e é acusada de megalomania

Mania de grandeza

Otimismo duvidoso: Cristina Kirchner compara o novo projeto cultural ao Central Park de Nova YorK (foto: Divulgação)

Parafraseando uma célebre declaração do falecido ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen sobre o Brasil durante a crise do petróleo, a julgar pelo comportamento e pelos atos da presidente Cristina Kirchner, a Argentina se parece mais com uma ilha de tranquilidade em meio a um mundo turbulento do que com uma economia em recessão. Na semana passada, Cristina deixou escapar mais uma vez seu entusiasmo exuberante ao comparar o projeto de um arranha-céu em Buenos Aires ao maior ícone urbanístico dos Estados Unidos. “Essa torre se transformará no símbolo de Buenos Aires”, afirmou a presidente.

“Terá a magnitude do Central Park, de Nova York.” O prédio, uma parceria público-privada com a empreiteira Riva S.A., será o maior edifício da América Latina, com 67 andares, e custará cerca de US$ 300 milhões. Promete abrigar um hotel de luxo, estúdios de TV e um anfiteatro, além de um estádio anexo para 15 mil pessoas, em uma ilha artificial. Ficará entre os bairros de Puerto Madero e La Boca, no encontro dos rios Prata e Riachuelo. Isso, em cinco anos, se sair do papel. Para a oposição, a obra é mais uma investida megalomaníaca de Cristina que não dará certo e representa uma incoerência diante do momento atual do país, que sofre uma crise cambial e econômica.

A escassez de divisas na Argentina está se intensificando após o impasse sobre as  negociações com os credores da dívida externa. O país entrou em calote técnico no final de junho e o governo lança mão de medidas para tentar conter a sangria de dólares. Na semana passada, o Banco Central da República reduziu de US$ 300 mil para US$ 150 mil o valor mínimo a partir do qual uma empresa precisa pedir autorização para obter dólares. Na prática, a medida representa mais uma amarra para as companhias com comércio exterior e que já enfrentavam dificuldades em sustentar seus negócios.

Também entrou em vigor  um limite maior de renda necessária para quem pretende comprar moeda estrangeira. Agora, os argentinos precisam ter uma renda mínima mensal de 8.800 pesos para requisitar a compra de dólares. Antes, a exigência era de cerca de 7.200 pesos. Como o país está em calote técnico e não tem acesso aos mercados internacionais, o governo tenta blindar o nível já baixo de reservas cambiais, hoje próximo de US$ 28 bilhões. Com um avanço mais veloz do déficit fiscal para dar conta dos subsídios da energia, deterioram-se os dados de inflação, as expectativas e a queda no nível de atividade econômica.

O Banco Mundial prevê estagnação no PIB de 2014, ante crescimento de 3% em 2013. Diante de tal cenário, são cada vez mais frequentes as análises que preveem uma extensão da crise para além de 2014. “Se as autoridades não conseguirem sair da situação de default no início de 2015, o cenário econômico para o próximo ano será ainda mais sombrio. A restrição externa continuará dificultando o acesso das empresas a divisas, e mantendo o viés negativo sobre as expectativas”, afirmam, em relatório, os analistas da consultoria abeceb.com.

A falta de divisas do vizinho do rio da Prata é um desafio que o Brasil tem de encarar desde  hoje. Embora não se trate de um problema novo para os exportadores, a dificuldade em receber por suas exportações para a Argentina se agravou nas últimas semanas e acendeu um sinal amarelo entre as montadoras instaladas no País. Segundo um executivo do setor, as empresas estão sem receber pelas peças enviadas ao país vizinho há cerca de duas semanas e estão próximas do limite. A reação natural será reduzir a produção tanto na Argentina, pela dificuldade em receber pelas peças importadas daqui, como nas fábricas nacionais, nos modelos que são enviados ao vizinho.

Outra alternativa no radar das companhias é diminuir o envio de carros montados para garantir que os dólares sejam suficientes para o pagamento das peças que abastecem a produção na Argentina. O temor, porém, é de que esse tipo de iniciativa possa estimular o governo de Cristina Kirchner a querer opinar no mix de produtos de cada empresa. “O que acontece é que você vai mandando peças e não recebe. Fica com uma exposição. O problema está na Argentina, mas a dívida está no Brasil”, diz um executivo que pede para não ser identificado.

As exportações de veículos montados para a Argentina neste ano, até agosto, estão 40% abaixo do registrado em igual período do ano passado. O país é o principal destino das vendas externas do setor, com mais de 80% do total. O problema de escassez de divisas soma-se à retração do mercado no vizinho. A previsão estimada do tombo nas vendas de veículos na Argentina fica entre 20% e 30%, intervalo que encontra pouco espaço nas manias de grandeza de Cristina. O PIB deve encolher e a pobreza, crescer. Não há espaço para megalomanias como um Central Park vertical.