Economia

A guerra pelos R$ 500 milhões de ACM

aguerra2.jpg

ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES: sua filha Tereza foi à Justiça para arrolar novos bens no inventário

DURANTE DÉCADAS, Antônio Carlos Magalhães reinou absoluto na Bahia. Como político, apoderou- se da máquina do Estado, intimidou adversários e esmagou a oposição. Como empresário, ergueu um império, que inclui a TV Bahia, afiliada da Globo, o jornal Correio da Bahia e a construtora Santa Helena. Desde sua morte, em julho do ano passado, já se discutia o destino do legado político de ACM. Mas uma guerra muito mais intensa, pela herança material e palpável do babalorixá baiano, explodiu na semana passada. Na terça-feira 11, oficiais de Justiça e soldados da PM baiana arrombaram as portas do apartamento da viúva, Arlette Magalhães, de 78 anos, para arrolar no inventário jóias, pinturas, móveis, tapetes persas e até mesmo as bandejas de prata que o senador deixou. O que mais chocou a sociedade baiana foi a identidade da autora da ação: Tereza Mata Pires. Além de filha de ACM e Arlette, ela é casada com César Mata Pires, dono da construtora OAS e um dos homens mais ricos do País. DINHEIRO teve acesso, com exclusividade, ao processo judicial que corre na 14a Vara de Família de Salvador. Na petição inicial, de 15 de fevereiro deste ano, os advogados de Tereza alegam que ?a parte mais substancial do patrimônio deixado pelo falecido senador constitui um dos maiores acervos nacionais particulares de objetos sacros, com imagens autênticas e raras, e milhares de peças de arte e jóias de outras espécies?. Em seguida, relacionam tapetes persas, mesas de jacarandá, quadros de pintores nacionais, como Portinari, Guignard e Di Cavalcanti, e até mesmo uma coleção de paliteiros de prata de ACM.

O valor desses objetos é estimado em R$ 20 milhões, uma ninharia perto do patrimônio total deixado pelo senador baiano. Calcula-se que a soma de suas empresas, imóveis, participações acionárias e aplicações financeiras valha cerca de R$ 500 milhões. O acervo de ACM também representa pouco diante da fortuna do casal Mata Pires. Os dois têm 95% da construtora OAS, que figura entre as quatro maiores do País, com receita de R$ 2,5 bilhões.

Portanto, pouca gente compreendeu a lógica dessa briga por miudezas, que expõe uma verdade inconveniente para os Magalhães: a de que ACM enriqueceu ? e muito ? na política. Depois da confusão, o senador Antônio Carlos Magalhães Júnior passou a definir Tereza como ?ex-irmã?. A mãe, Arlette, divulgou uma nota contra a ?brutalidade? da ação. E esse bloco familiar, que inclui os três filhos do ex-deputado Luiz Eduardo Magalhães, morto em 1998, passou a enxergar o dedo de César Mata Pires, marido de Tereza, na ação. Tanto assim que, na quinta-feira 13, os Magalhães decidiram processálos por difamação. O objetivo real do casal Mata Pires seria a tomada de controle da TV Bahia, jóia da coroa do império do senador. ?O César tem uma ambição desmedida e decidiu fazer agora o que não tinha coragem quando ACM era vivo?, disse à DINHEIRO uma fonte muito próxima à família.

aguerra3.jpg

No velório, a mãe Arlette e a filha Tereza estavam unidas pela dor. Hoje, disputam na Justiça as miudezas de ACM

O que confere lógica à tese é o fato de César Mata Pires também ter ingressado com uma ação contra o cunhado ACM Júnior e os três filhos de Luiz Eduardo Magalhães em janeiro deste ano ? ou seja, poucas semanas antes da invasão do apartamento da viúva Arlette. Na petição inicial, também obtida com exclusividade pela DINHEIRO, o dono da OAS questiona o acordo societário feito na Bahiapar, que controla a TV Bahia. Hoje, o bloco aliado à viúva Arlette tem 66,6% do capital ? e vota em conjunto. César e Tereza Mata Pires, com 33,3%, ficaram isolados e inconformados. Antes do acordo, César teria até tentado cooptar diretamente alguns filhos de Luiz Eduardo, como a modelo e aspirante a atriz Carolina, mas sem sucesso. E o objetivo da ação que explodiu na semana passada, ligada ao inventário de ACM, seria apenas uma forma de pressioná-los e obrigálos a negociar o controle da TV.

Se era esse o plano, foi um tiro n?água. De acordo com relatos da imprensa local, o grupo de policiais que participou da invasão do apartamento teria sido transportado em carros da empreiteira. Funcionários de César Mata Pires também teriam comprado lanches para os policiais que ajudaram a arrombar as portas. Isso fez com que a repercussão para a construtora baiana fosse a pior possível. ?É um escândalo sem proporções, que envolve diretamente a OAS?, disse o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM). ?Isso revolta a sociedade brasileira?, completou seu colega Pedro Simon (PMDBRS). Para a OAS, ficou ainda a pecha da ?ingratidão?. Isso porque a empreiteira tinha dois apelidos auto-explicativos no mundo da engenharia pesada: ?Obras Arranjadas pelo Sogro? e ?Obrigado Amigo Sogrão?.

Além disso, no funeral de ACM, no ano passado, César Mata Pires chegou até a conduzir a sogra Arlette. A ligação entre a construtora e a família era tão próxima que, durante anos, se disse até que ACM seria dono oculto da empresa. Era mito. Mas, em momentos difíceis, o senador ajudou a construtora. Foi assim quando teria usado sua influência para colocar a Previ como sócia da OAS na Linha Amarela, no Rio de Janeiro, e quando pressionou o exprefeito de São Paulo, Celso Pitta, a honrar pagamentos da avenida Águas Espraiadas. Procurados pela DINHEIRO, a OAS e o casal Mata Pires decidiram não se pronunciar.

A guerra também ganhou contornos políticos. Isso porque a juíza que autorizou a invasão do apartamento, Fabiana Oliveira Pellegrino, é casada com o deputado Nelson Pellegrino, candidato à Prefeitura de Salvador pelo PT e adversário do deputado ACM Netto. Pode ser coincidência, mas ficou na ar a suspeita de motivação eleitoral na ação contra a viúva de ACM. Além disso, a OAS e o PT têm tido ótimo relacionamento nos últimos anos. O presidente da empresa, Adelmário Pinheiro, conhecido como ?Dr. Léo?, tornou-se amigo de José Dirceu e Delúbio Soares depois de ter sido um dos grandes financiadores da campanha de Lula em 2002. Foi também ?Dr. Léo? quem recebeu a primeira ligação de Jaques Wagner após sua vitória para o governo estadual, em 2006, que pôs fim a 20 anos de ?carlismo? na Bahia. Com a TV Bahia nas mãos, essa nova parceria da OAS poderia ir muito mais longe.

O HERDEIRO POLÍTICO
Amorte do senador Antônio Carlos Magalhães deixou um vácuo político na Bahia. Algum tempo atrás, imaginava-se que esse espaço poderia ser ocupado por um membro do clã, como o deputado federal ACM Netto (DEM-BA), que chegou a ocupar uma posição de destaque nas investigações do mensalão e irá disputar, neste ano, a Prefeitura de Salvador. Mas as coisas não têm sido tão simples. Pesquisas eleitorais o colocam ora em terceiro, ora em quarto lugar. O favorito, curiosamente, é outra pessoa ligada a ACM, mas não pelo sangue. Trata-se do ex-prefeito Antônio Imbassahy, um técnico do PSDB, que também ingressou na política pelas mãos do babalorixá baiano.