Economia

Para aonde vai o PIB


Estacionada há 20 anos em crescimento pífio, a economia brasileira respirou, na semana passada, uma brisa de euforia. Na quarta-feira, 31 o IBGE anunciou que o PIB havia crescido 1,4% no primeiro trimestre. Como número parece insignificante, mas é a maior taxa de expansão desde o final de 2004. Ela aponta para um crescimento anual da ordem de 4%, talvez um pouco mais. Foi o que bastou para que o governo discretamente desse hurras. ?É uma excelente notícia?, regozijou-se o presidente Lula. Seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, sublinhou a melhor parte da estatística: ela mostra que a expansão do PIB deveu-se, em grande medida, ao crescimento dos investimentos, sinalizando que o ímpeto da economia não deve arrefecer. Mantega chegou a calcular que, se os próximos trimestres repetirem o primeiro, o ano vai fechar com 6% de expansão.

Otimistas por dever de ofício, o presidente e seu ministro passam por cima de fatos que sugerem mais cautela. Um único exemplo: se o ministro olhasse para trás, em vez de olhar para frente, descobriria que nos 12 meses encerrados em março a economia brasileira cresceu apenas 2,4%, muito perto da sua medíocre média história de 2,2%. E não é só isso. No mesmo dia em que se anunciava o PIB do trimestre, saiu também a decisão do Copom sobre os juros, com redução de apenas 0,5%. Nas três reuniões anteriores a queda havia sido de 0,75%. Ao reduzir o ritmo, ao estabelecer taxa básica de 15,25% ao ano, o Banco Central contribui para esfriar o ímpeto dos investidores. É um sinal contrário ao crescimento da economia. Estevão Kopschitz, do Grupo de Acompanhamento Conjuntural do IPEA, credita à redução da taxa de juros toda evolução favorável da economia este ano. Mas ele observa ? em outro contraponto importante ? que a boa taxa do primeiro trimestre deveu-se também ao baixo crescimento em 2005. ?Em parte, cresceu pela base de comparação, que é menor?, explica. ?No fundo, ainda estamos flutuando em um taxa relativamente baixa de crescimento.? No meio empresarial, que tem de lidar com impostos e juros maiores que nas demais economias emergentes, o otimismo também é limitado. ?Crescemos porque havia uma demanda muito reprimida, mais ainda não há confiança total?, explica Marcelo Siviero, principal executivo da Alcan no Brasil. ?Com essa carga tributária não vamos chegar nunca a 5%?. Feitas as contas, é importante que a economia tenha crescido forte no primeiro trimestre. Mas o mais importante é criar condições para que ela continue crescendo no mesmo ritmo. Os governos adoraram estourar garrafas de champagne, mas os brasileiros estão cansados de celebrar boas notícias que envelhecem em uma semana.