Economia

Negros na elite


Wanderlei Coelho teve uma infância bastante pobre. Ele e o irmão foram criados pela mãe num barraco de madeira da Vila Madalena, nos anos em que o reduto boêmio ainda era habitado pela classe média baixa de São Paulo. Ele foi engraxate, tapeceiro, office boy, motorista de táxi e mecânico. ?Meu objetivo era vencer na vida como todo mundo?, diz. Conseguiu. Hoje é dono de uma casa noturna com capacidade para duas mil pessoas em São Paulo, de restaurante, de uma produtora de eventos e sócio de uma construtora. Tem ainda investimentos em locação de imóveis e numa escola primária. Como chegou lá? Além de trabalhar muito, estudou Direito. Formado, montou um escritório de advocacia, que também funcionava como imobiliária e despachante, mas acabou enveredando pelo mundo dos espetáculos. ?Sabia que se estudasse e batalhasse muito, conseguiria sair daquela miséria?, conta. Aos 52 anos, se orgulha de ser dono de uma casa avaliada em mais de R$ 1 milhão em Alphaville, bairro nobre de São Paulo, de uma Mercedes SLK 200, uma Pajero Sport, um Montana e outros 15 imóveis. História de vida semelhante tem um homem chamado Joaquim Barbosa. Com um salário mensal que representa o teto do funcionalismo público ?nem o presidente da República ganha mais do que ele (aliás, ganha três vezes menos), o primeiro ministro negro do Supremo Tribunal Federal começou a vida profissional varrendo chão. Primogênito dos oito filhos de um pedreiro com uma dona de casa, Barbosa costumava limpar o banheiro do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal cantando em inglês com pronúncia perfeita. Deixou boquiaberto o então diretor do tribunal, Pedro Luz Cunha, que o apadrinhou, conseguiu um emprego melhor e o orientou a voltar a estudar. Hoje, no auge dos seus também 52 anos, Barbosa fala quatro idiomas é mestre e doutor em Direito Público pela Universidade de Paris, mestre pela UnB, professor licenciado da UERJ e professor visitante da Universidade de Columbia, em Nova York, e da Universidade da Califórnia. ?Minha nomeação é a coroação de uma carreira?, disse ao assumir o cargo. ?Tenho a esperança de que, nos próximos dez ou quinze anos, uma indicação como esta (de um negro) seja uma coisa banal. Assim, aceito o fardo, e esse é o preço que tenho de pagar.?

Esse sonho de Barbosa já começou a dar sinais de que pode se concretizar. Pelo menos é que mostra uma pesquisa feita pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, com base em dados da Pnad, do IBGE. Os números apontam que em 2004, os afrodescendentes eram 15,8% da elite (representada pelo 1% mais rico do País), um avanço em relação aos 9,1% verificados em amostra semelhante realizada em 1992. ?Esse é um resultado importante que deve ser festejado?, disse à DINHEIRO Hélio Santos, professor da Fundação Visconde de Cairu, da Bahia. Segundo ele, essa mudança começou a acontecer graças a uma série de políticas públicas voltadas para a inclusão social dos negros que começaram a ser desenvolvidas a partir dos anos 90. ?Mas o ideal seria estar nos 25%?, afirma. O economista Mário Theodoro, da Universidade de Brasília, concorda. Ele, a pedido do Instituto Ethos, mensurou quanto o racismo custa para o Estado brasileiro e chegou a um número: R$ 67,2 bilhões. Esse, segundo ele, é quanto o Brasil deixou de investir ao longo da História ?e que teria de investir a partir de agora– para reduzir o fosso que existe entre negros e brancos quando se fala em educação, habitação e saneamento. ?Essa é uma discussão que apenas começou a aflorar. Ainda falta muito para chegarmos ao ideal?, afirma. Hélio Santos lembra que o Brasil tem 80 milhões de negros, ou o dobro da população argentina, que historicamente esperam por uma chance de inclusão social.

Quando chegaram ao Brasil fugindo das mazelas de seus países de origem, os imigrantes europeus já tinham, quase todos, casa e emprego garantidos. Privilégio que nem de longe foi dado aos mais de 750 mil negros que por mais de 350 anos trabalharam como escravos nas lavouras espalhadas pelo País. ?Se há negros na elite isso tem muito do esforço que eles têm feito para conquistar o seu espaço?, afirma Santos. Hoje, apesar de representarem 46,4% da população economicamente ativa, os negros ganham metade do salário que é pago aos brancos. Mesmo entre os que possuem melhores níveis de escolaridade o salário é 30% menor, segundo levantamento feito pelo Instituto Ethos. A situação é ainda pior entre as mulheres. Elas ganham por hora apenas 46% do que é pago para os homens. ?Ser negro me obrigou a me esforçar mais. Tinha sempre de provar ser pelo menos duas vezes mais competente, a cobrança sempre foi maior?, confessa Domingo Ramos, que com apenas 30 anos coordena o departamento de controle tributário da multinacional DuPont em toda a América Latina. Filho de um eletricista e de uma dona de casa, o administrador de empresas com MBA na USP já liderou projetos na Holanda e morou nos Estados Unidos. ?Às vezes me sentia uma estrela solitária por ser o único negro na sala da universidade?, desabafa. Sentimento de solidão? ?Não. Frustação. Isso tem de mudar um dia.? O diretor de Negócios da Siemens, César Almeida, tem opinião semelhante. Aos 42 anos, ele afirma se orgulhar de poder dar uma vida confortável aos três filhos, mas lamenta não haver mais empenho do governo para ampliar as políticas públicas de inclusão. ?É triste ver que o número de negros na favela e na população carcerária crescer cada vez mais.?

Na tentativa de reverter esses números e, claro, melhorar a sua imagem, muitas empresas começaram a desenvolver programas de diversidade e inclusão racial. Um deles é coordenado por Osvaldo Nascimento, gerente-executivo da IBM. A companhia, ao lado instituições como o Itaú e HSBC, foi uma das pioneiras no desenvolvimento desse tipo de ação, criou projetos especiais para a contratação de trainees afrodescendentes e oferece cursos de capacitação e idiomas. ?Queremos reduzir o fosso que existe na formação entre jovens negros e brancos que chegam ao mercado de trabalho?, afirma. Filho de um alfaiate e de uma dona de casa, Nascimento se formou em engenharia pelo Mackenzie, estagiou na Inglaterra, fez pós na Unicamp, especialização em Harvard e MBA na Fundação Dom Cabral. Pode ser considerado um exemplo dos que chegaram ao topo da pirâmide, ao lado de Antonio Carlos Buenos, diretor de Recursos Humanos do Bradesco, César Nascimento, dono de uma consultoria que foi executivo de corporações como a Price, Thompson e Microsoft, ou o empresário de 82 anos Adalberto Camargo, eleito em 1966 o primeiro deputado negro do Brasil. Ainda assim, o número de negros ocupando cargos de comando nas grandes empresas ainda é muito baixo. ?Eles são menos de 2% num País em 54% da população é afrodescente?, alerta o advogado Humberto Adami, outro exemplo de sucesso que defende bandeiras como a que prevê a criação de cotas para negros nas universidades. Ele lembra que apesar de o Brasil se identificar como um País multiracial, ainda há muito para avançar. ?Um dia eu estava com o Joaquim Barbosa num restaurante em Ipanema, no Rio, aguardando a chegada de nossos carros e uma senhora nos entregou a chave do carro dela pensando que éramos manobristas?, conta. ?Ainda existe no inconsciente das pessoas a idéia de que negro de terno é manobrista ou segurança de shopping.? César, da Siemens, também tem uma história interessante: ?Peguei um táxi no aeroporto e quando disse que estava indo para Alphaville o taxista perguntou em que time de futebol eu jogava?, conta. Ele levou na brincadeira. Mas, eles lembram que inconscientemente as pessoas imaginam que os negros só conseguem ganhar dinheiro no esporte ou como cantor de pagode. Um erro que também se explica com outra estatística: os afrodescendentes são 66% dos 10% mais pobres da população.

Questão racial
Apesar da melhora da participação de afrodescendentes na elite, os negros ainda sofrem com a questão racial

Eles são 46,4% da população economicamente ativa

Mas recebem 30 % menos que os brancos, mesmo tendo nível de escolaridade igual

O custo do racismo para o País, segundo o economista Mário Theodoro, é de R$ 67,4 bilhões Isso representa o fosso existente entre negros e brancos em serviços básicos como educação, saúde, habitação e saneamento básico

Fontes: IBGE, Pnad, FGV, Instituto Ethos e Seade/Dieese

2% é o percentual de negros que hoje acupa cargos de alto escalão nas grandes empresa do País

80 milhões de afrodescendentes vivem no Brasil. Isso é o dobro da população de um País como a Argentina