Economia

O candidato franciscano


A cena tem sido comum nos últimos dias. Ele desce do táxi, carrega a própria mala e entra na fila do check-in. Ao desembarcar, pega de volta a bagagem e, num passo tímido, caminha só pelo saguão. À sua espera, apenas um ou outro assessor. Esse é Geraldo Alckmin, que hoje mal lembra um candidato à presidência da República. Nesse papel, geralmente encaixam-se personagens cercados de aduladores, que movem-se em jatinhos e andam apressados. Para os críticos, a imagem de um Alckmin anônimo nos aeroportos é o sinal de que o candidato tucano teria sido abandonado até pelos aliados. Para Alckmin, no entanto, esse começo ?franciscano? tem sido 100% fiel ao que ele próprio planejou. ?Os vícios de um governo nascem na campanha?, disse ele em entrevista exclusiva à DINHEIRO. ?Aqui não haverá deslumbramento com jatinhos, mordomias e nem dívidas de campanha?. Na prática, Alckmin aposta até que esse estilo o fará crescer nas pesquisas. ?Só gasta fácil quem ganha dinheiro fácil?.

Na prática, porém, diversos analistas políticos têm apontado falhas no aparato de campanha montado pelos tucanos. Além da dificuldade de transporte, ainda não há um comitê ativo, em contato diário com rádios e jornais do interior do País. O primeiro evento de arrecadação de recursos aconteceu só na semana passada, num jantar em São Paulo que arrecadou R$ 660 mil. É pouco para competir com Lula, que disputa a reeleição no cargo. E essa tática ?franciscana? de Alckmin já desperta dúvidas quanto às chances do candidato. ?Uma guerra exige bala, exige munição?, diz o analista político Gaudêncio Torquato. O consultor Murillo de Aragão, da Arko Advice, aponta outra debilidade. ?Tem que haver uma mística em torno do candidato?, afirma. ?Ele não pode ficar uma hora esperando o vôo como se estivesse abandonado?. Além disso, num jatinho, o candidato visita até cinco cidades num dia. Em aviões de carreira, no máximo duas.

De toda forma, as últimas pesquisas têm reforçado as dúvidas em torno da candidatura Alckmin. Na noite da quinta-feira 1, o Ibope apontou que Lula teria 48% dos votos e venceria em primeiro turno ? o tucano ficaria com 19%. Alckmin, porém, não se abala. ?Já decolei?, diz ele. ?Estou com 20% sendo conhecido por apenas metade do eleitorado?. O candidato também admite que, a partir de julho, quando a campanha esquentar, os gastos serão maiores ? e um jato poderá fazer parte das despesas. Leia na página seguinte sua entrevista à DINHEIRO.

?Decolei faz tempo e Lula sabe disso?
O governador Geraldo Alckmin falou com exclusividade à DINHEIRO e disse que seus números nas pesquisas são melhores do que ele esperava. Leia a seguir.

Max G. Pinto

“Quem gasta pouco na campanha, gasta pouco no governo”

DINHEIRO ? A candidatura estacionou. Como o sr. irá reagir?
GERALDO ALCKMIN ? Essa é uma leitura equivocada. O normal seria começar com 6% ou 7%, como outros candidatos que, como eu, jamais disputaram uma eleição nacional. O Lula vai disputar a sétima, pois foram dois turnos contra o Fernando Collor, duas disputas contra o Fernando Henrique e dois turnos contra o José Serra. Ele está vivo na memória; eu não. E as pesquisas mostram que sou conhecido por metade do eleitorado. Por isso, surpreende começar com 20% sobre uma base de 50%. Eu já decolei. Lula sabe disso.

DINHEIRO ? Mas o PT prevê uma vitória em primeiro turno.
ALCKMIN ? Para fazer uma analogia futebolística, eles estão entrando em campo com o salto número 15. Nós vamos ao gramado com a sandália da humildade. No segundo turno, que com certeza virá, eles jogarão psicologicamente derrotados.

DINHEIRO ? Por que um começo de campanha tão modesto?
ALCKMIN ? O fato é que, por lei, nós ainda nem podemos fazer campanha. Ela só começa para valer em julho, depois da nossa convenção. Aliás, eu gostei muito da nova lei eleitoral, que proíbe showmícios, outdoors e distribuição de camisetas e brindes.

DINHEIRO ? Mas isso não favorece quem já está no poder?
ALCKMIN ? Não. Isso vai apenas tornar a campanha menos dependente do dinheiro e mais focada em conteúdos e programas. No campo material, eu não teria como competir com o PT.

DINHEIRO ? Voando em aviões de carreira e gastando pouco, muitos dizem sr. não irá muito longe.
ALCKMIN ? Essa tem sido uma ótima experiência. Toda semana eu tomo um vôo de carreira para o Rio de Janeiro, para Brasília ou outra cidade e vou carregando a minha malinha. Esse é o meu jeito e eu acho bom que seja assim. Até porque os vícios de governo começam na campanha. Aprendi com meu pai o seguinte: só gasta fácil quem ganha dinheiro fácil. E os vícios acabam sendo levados para dentro do governo. Ou será que os escândalos do PT não ensinaram nada?

DINHEIRO ? A campanha barata não retarda seu crescimento?
ALCKMIN ? Atrapalha. Outro dia fui ao Piauí. Saí de São Paulo às 10h da noite e cheguei às 5h da manhã do dia seguinte. Peguei um vôo para Salvador, aguardei a conexão para Fortaleza e só depois voei para Teresina. Mas sacrifícios têm de ser feitos por quem quer ter uma campanha limpa. Esse nosso repúdio ao desperdício também sinaliza como será o nosso governo.

DINHEIRO ? Como assim?
ALCKMIN ? Quem é econômico na campanha, é econômico no governo. É evidente que o Brasil não suporta mais uma carga tributária de 38,9% do PIB. É também evidente que o Brasil não precisa de 36 ministérios.

DINHEIRO ? Qual é a sua agenda?
ALCKMIN ? Choque de gestão, com a transformação do Estado e menos impostos. A primeira reforma será a tributária, pois o nosso modelo atual favorece a sonegação. A segunda será a reforma política. A fidelidade partidária e as cláusulas de barreira irão favorecer a governabilidade.

DINHEIRO ? Novas privatizações?
ALCKMIN ? Vender ativos não é prioridade. Vamos modernizar a infra-estrutura com concessões de estradas, portos e ferrovias, bem como com parcerias. Por incapacidade gerencial, o PT não fez uma PPP. A herança que estão deixando é ruim.

DINHEIRO ? Herança maldita?
ALCKMIN ? Há um populismo fiscal, com gastos eleitoreiros, e o populismo cambial está deixando a agricultura numa situação muito ruim.

DINHEIRO ? O episódio do PCC vai lhe tomar muitos votos?
ALCKMIN ? Nós aumentamos os gastos da Secretaria de Segurança Pública de R$ 2 bilhões para R$ 7,5 bilhões. E os homicídios, que foram 12,7 mil em 1999, caíram para 7,5 mil. Existe uma crise nos presídios, não na segurança do trabalhador.