Economia

A voz do império


Foi uma viagem relâmpago. Ele desembarcou em São Paulo na terça-feira 23 e regressou a Nova York três dias depois, partindo do Rio de Janeiro. Phil Gramm, o visitante ilustre, tem credenciais de peso. Na esfera privada, é chairman honorário do UBS, titã financeiro que comprou o Pactual por US$ 3,1 bilhões. No mundo político, o ex-senador de 64 anos é hoje uma das vozes mais influentes nos Estados Unidos. Texano, é amigo da família Bush e o The Wall Street Journal o aponta como futuro secretário do Tesouro norte-americano, cargo equivalente ao de ministro da Fazenda na economia mais poderosa do mundo. Gramm poderá ser nomeado ainda em 2006, em substituição a John Snow, ou, na hipótese pessimista, teria o cargo num eventual mandato de John McCain ? o favorito para suceder George W. Bush. Simpático, esse falcão do Partido Republicano cumpriu uma extensa agenda nos dias em que esteve no Brasil. Visitou financistas como André Esteves (Pactual), Armínio Fraga (Gávea Investimentos) e Mario Garnero (Brasilinvest), e manteve encontros reservados em grandes empresas como Votorantim, Camargo Corrêa e CSN. Na semana em que uma nova crise financeira parecia rondar os mercados globais, Gramm impressionou os interlocutores pela franqueza. O que ele disse, num estilo bem direto, representa a voz do Império sobre as grandes questões mundiais. Eis algumas amostras:

? Crise nos mercados ? É passageira, segundo Phil Gramm. Seria grave apenas se os números da inflação americana viessem muito ruins nos próximos meses ? o que não será o caso. Por isso, os juros nos Estados Unidos deverão ser mantidos ao redor de 5%. Ele também aposta que Ben Bernanke, o novo presidente do Federal Reserve, será bem-sucedido (leia quadro abaixo).

? Choque do petróleo ? O preço do barril não irá a 100 dólares, como alguns alarmistas têm previsto. ?Dentro de três anos, o petróleo será bem mais barato do que é hoje?, aposta Gramm. E por que tanta certeza? ?Porque nós já invadimos o Iraque?. Reservas gigantescas serão colocadas em operação.

? O futuro do etanol ? Não é tão brilhante quanto muitos supõem. Se os EUA estivessem mesmo apostando no etanol, diz Gramm, já teriam zerado impostos para permitir a entrada do álcool brasileiro. O programa americano, à base de milho, consome bilhões em subsídios. E John McCain, que ele aponta como sucessor de Bush, é contra. Ou seja: os EUA continuarão movidos a petróleo.

? Armas nucleares ? A chance de que o Irã venha a ter a bomba atômica é praticamente nula. Gramm acredita até na possibilidade de que os EUA bombardeiem os locais onde os iranianos desenvolveriam suas armas. Mas nada de invasão. Apenas um ataque cirúrgico ? e mesmo sem o apoio de países como França, Rússia ou China.

? América Latina ? A onda de populismo, representada por Hugo Chávez e Evo Morales, preocupa a Casa Branca ? mas nem tanto. Isso porque os países da região causam um dano maior a si próprios do que ao resto do mundo. Além disso, essa onda é um ?petropopulismo?. Com o barril mais barato, Chávez perderia sua força na região.

? Cuba ? Pode se converter no país de mais rápido crescimento no mundo ? após a morte de Fidel Castro, é claro. Isso porque os cubanos radicados na Flórida, de espírito capitalista, retomariam o controle da Ilha. Seria um ótimo lugar para se investir agora, desde que fosse possível obter garantias sobre o direito de propriedade.

É claro que boa parte do que Gramm disse aos empresários brasileiros talvez simbolize apenas a tradicional arrogância norte-americana. Mas o fato é que ele tem tudo para se transformar numa das vozes dominantes da economia global. Tem credenciais acadêmicas sólidas ? ele foi assessor de Ronald Reagan e criou uma espécie de Lei de Responsabilidade Fiscal nos EUA ? e também possui habilidade política. Nas últimas disputas eleitorais, ele foi um eficiente tesoureiro de campanha. Criou até um método novo de arrecadação. Ele vendia por US$ 2 mil os convites para jantares com os candidatos republicanos. Caso o convidado estivesse disposto a doar sem ter a obrigação de ir ao jantar, o preço era outro: US$ 4 mil. ?Foi um sucesso?, diz Gramm.

A DURA ESTRÉIA DE BERNANKE

Ben Bernanke: Novo presidente do Fed foi testado pelos mercados e o dólar disparou no Brasil
O economista Ben Bernanke assumiu o comando do Federal Reserve em fevereiro, mas seu batismo de fogo aconteceu só na semana passada. Na segunda-feira 22, as bolsas de valores despencaram no mundo inteiro ? mais até do que no 11 de setembro de 2001. O motivo: um índice de inflação nos Estados Unidos apontou uma taxa anualizada da ordem de 5%. Se esse ritmo persistir nos próximos meses, a conseqüência natural será uma alta mais drástica nos juros americanos ? a taxa atual, de 5% ao ano, já sofreu 16 altas consecutivas. Na prática, foi como se o mercado decidisse testar as convicções anti-inflacionárias de Bernanke. E a dúvida dos investidores, em parte, é fruto da própria inexperiência do novo presidente do Fed. Num encontro com uma jornalista, ele deixou escapar um comentário despretensioso sobre inflação, que foi mal interpretado. Dias depois, Bernanke teve de vir a público para se desculpar do seu ?lapso de juízo? e disse que, agora, só falará em cerimônias oficiais ? nos Estados Unidos, os responsáveis pela política monetária são obrigados a periodicamente prestar contas de seus atos ao Congresso. Como consolo, vale dizer que seu antecessor, Alan Greenspan, também foi testado. Greenspan só ganhou a reputação de maestro das finanças globais após um crash da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrido em 1987. Com o susto da semana passada, que derrubou os preços das ações nos mercados emergentes, o impacto no Brasil foi grande. A Bovespa chegou a acumular uma queda de 15% em maio, o risco-País disparou e o dólar bateu em R$ 2,40 ? antes de recuar para R$ 2,29 na quinta-feira 25. No entanto, curiosamente, essa foi a primeira crise benigna que atingiu a economia brasileira em muitos anos. Ela produziu exatamente aquilo que as autoridades vinham buscando: uma leve depreciação do real. Até nisso Lula tem dado sorte.