Economia

A indústria vai à Fazenda


Foi como hastear a bandeira em território inimigo. Eis o significado da escolha de Júlio Gomes de Almeida, chamado de Julinho pelos amigos, para a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, na equipe de Guido Mantega. Devoto da Unicamp e do Iedi, o tradicional Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, Julinho é o que se pode chamar de desenvolvimentista da gema. E o Ministério da Fazenda, seu novo endereço, vinha fechando as portas a figuras com o seu pedigree há décadas ? lá, só eram bem-vindos representantes da ortodoxia monetarista. Julinho é o oposto disso. Pensa em indústria e produção 24 horas por dia. E tomou posse na segunda-feira 22 já mergulhado em dois pacotes voltados para o setor produtivo: um de emergência para socorrer agricultores e outro focado em medidas para desvalorizar o real. ?Esse câmbio é irracional?, disse a um amigo, antes de seguir correndo para Brasília. ?Pode acabar desindustrializando o País?.

O novo secretário contou até com uma certa sorte de principiante. Muitas das medidas que Mantega lhe encomendou na área cambial tornaram-se menos urgentes diante das turbulências externas, que trouxeram o dólar de volta à casa dos R$ 2,30. Mas ? é bom que se diga ? a queda do real foi pequena na visão de Julinho. Sua escolha, naturalmente, foi saudada pelos empresários. ?Isso sinaliza que o presidente Lula decidiu dar uma guinada pró-crescimento?, avalia Paulo Skaf, presidente da Fiesp. ?A política econômica agora estará muito mais afinada com o pensamento empresarial?, reforça Josué Gomes da Silva, presidente da Coteminas e do Iedi. Na prática, a Secretaria de Política Econômica passará a ser uma trincheira da indústria dentro da Fazenda. E lá Julinho tentará transformar algumas de suas idéias em propostas concretas. Ele defende a redução mais rápida dos juros, a eventual imposição de controle de capitais, o que evitaria a entrada de recursos especulativos, uma política industrial ativa e um ajuste fiscal mais sólido ? ou seja, com menos gastos com juros e um superávit fiscal não superior a 4,25% do PIB. ?O Brasil tem espaço para ousar mais na política monetária?, tem dito Julinho aos seus interlocutores mais próximos.

De certa forma, a sua escolha cumpre uma promessa feita pelo presidente Lula há 40 meses. Durante a campanha eleitoral de 2002, o então candidato do PT o mirou nos olhos, após um debate no Iedi, e disse: ?Vou ter você na minha equipe?. No time conservador de Antônio Palocci, não havia espaço ? e nem diálogo. Com Guido Mantega, a sintonia é total. Mas no dia do anúncio da sua escolha, o ministro da Fazenda deu um aviso: ?Ele quer reduzir os juros tanto quanto eu, desde que haja condições para isso?. Isso significa que Julinho se curvará às limitações da realidade? Quem o conhece sabe que ele manterá o pé no chão, mas nem tanto.

AS IDÉIAS DE JÚLIO

Câmbio
O dólar atual causa desindustrialização.

Juros
O Banco Central pode ousar mais e testar uma taxa real abaixo de 10%.

Controle de capitais
Ele é favorável à idéia, que evitaria a entrada de recursos especulativos.

Política industrial
Ele defende medidas para ampliar as exportações de manufaturados.

Déficit público
Superávit de 4,25% é o bastante. Mais, significaria cortar em infra-estrutura.