Economia

SP sob o domínio do medo


O coronel Eliseu Eclair, comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, gozava na sexta-feira 12 de um merecido relaxamento. Com outros oficiais superiores da PM paulista, participava de um animado convescote na cidade de Franco da Rocha, na grande São Paulo, ao final de um dia carregado de eventos. Era noite e o telefone celular do coronel disparou. ?Atacaram uma das nossas bases?, disse a voz do outro lado. Assim, prosaicamente, tardiamente, a polícia foi informada de que havia começado a maior crise de segurança pública da história de São Paulo. Uma crise anunciada e previsível que transformou-se em tragédia, com saldo de 325 atentados, 155 mortes e enormes prejuízos econômicos. Mas não só. O levante da marginalidade, causado pela transferência de 765 presos ligados ao crime organizado, expôs a imensa fragilidade do aparato de segurança e inteligência brasileiros. Entre a noite de sexta e a manhã de terça-feira, enquanto os criminosos matavam, incendiavam e explodiam, o motor econômico do Brasil engasgou. São Paulo foi intimidada a fechar suas lojas, retirar seus ônibus de circulação, dispensar suas crianças da escola e encerrar o expediente em incontáveis empresas e repartições. A cidade que produz 11% do PIB do Brasil foi posta de joelhos. Na noite de segunda 15, um toque de recolher espontâneo, imposto pelo medo e pela desinformação, esvaziou as ruas da maior metrópole de continente, a ponto de torná-las irreconhecíveis. Bairros afluentes foram reduzidos ao silêncio que os traficantes costumam impor às favelas. A calma retornou somente depois que uma comitiva de autoridades foi ao presídio de Presidente Bernardes, no interior do Estado, de onde o chefe dos bandidos comandava a guerrilha urbana e revoltas sincronizadas em 92 prisões. Então, e apenas então, os 10,2 milhões de reféns paulistanos foram libertados. Por ora. ?O esperado e o evitável ocorreu e as autoridades não estão sendo cobradas?, indigna-se o advogado Maurício Zanoide, professor da USP e presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. ?A culpa por essa crise é do Estado, não dos bandidos.?

Arrombada a casa, correu-se a comprar cadeados. Tão logo os ataques arrefeceram, a polícia de São Paulo abriu guerra na periferia, matando 55 suspeitos em apenas dois dias, terça e quarta-feiras. Temia-se que entre eles houvesse um grande número de jovens inocentes. Na mesma quarta-feira, o senado aprovou em 40 minutos um pacote de 11 de medidas com intuito de endurecer a legislação do sistema pena. Sua principal medida é a criação do Regime de Segurança Máxima, que aumenta para 720 dias o regime de isolamento dos presos ligados ao crime organizado. Mas a medida que causou mais ruído foi a decisão judicial de bloquear a transmissão de sinais celulares nos arredores das seis prisões onde se encontram os chefes do Primeiro Comando da Capital, a organização criminosa que controla os presídios de São Paulo. Desde as rebeliões carcerárias de 2001 está claro que os celulares são elementos fundamentais na logística criminosa. Como as autoridades não conseguem impedir que os celulares entrem nas prisões, silenciá-los passou a ser visto como a única possibilidade de romper a cadeia de comando crime. A responsabilidade técnica de fazer isso recai sobre as operadores, com um único e sério problema – entre quatro paredes, as empresas ouvem da polícia que a escuta dos celulares é a única forma de controlar os planos dos criminosos. Aparentemente, não existe outra forma de inteligência no combate ao PCC. Logo, não se pode tirar os celulares do ar. DINHEIRO apurou que as autoridades sugeriram em pelo menos uma reunião com as empresas que elas ?fingissem? bloquear as transmissões, sem de fato fazê-lo.

?Essa atmosfera de violência pode afetar as decisões de investimento?, queixa-se Paulo Skaf, presidente da Fiesp. Na segunda-feira do caos, Godofredo Bitencourtt Filho, diretor do Deic responsável pela investigação do crime organizado, foi de helicóptero à sede da Federação das Indústrias, na avenida Paulista, acalmar os industriais. Aquela altura, agências bancárias haviam sido atacadas e 90 ônibus queimados na periferia da cidade. Um levantamento preliminar concluiu que as empresas de ônibus perderam R$ 6 milhões em receitas (porque tiveram que sair das ruas) e R$ 5 milhões com a destruição de seus veículos. Na conta mais geral, uma tarde parada da metrópole tem um custo de pelo menos R$ 106 milhões ? um terço da riqueza produzida diariamente na Capital. Nessa conta estão os 22 shopings que fecharam as portas, o comércio de rua que vendeu 20% menos e os restaurantes e bares que sequer funcionaram na noite de segunda. A Associação Comercial de São Paulo acompanhou a queda da atividade econômica através das consultas ao serviço de proteção ao crédito. A queda foi de 20%. ?Existe um enorme risco de contaminação dos negócios e dos investimentos?, constata Ib Teixeira, pesquisador e autor do livro A violência sem retoques, que analisa os impactos da ?barbárie urbana? na economia nacional.

Entre 1972 e 1974, o Estado brasileiro mobilizou 4 mil soldados para liquidar a guerrilha do Araguaia, que tinha no seu auge não mais que 69 guerrilheiros. O combate se deu na selva, a 1500 quilômetros de Brasília. Por ameaçar diretamente o poder constituído, a guerrilha do PC do B transformou-se em prioridade de Estado. Passados mais de 30 anos, o Estado brasileiro reage letargicamente ao crime organizado ? embora ele constitua uma ameaça muito maior à ordem pública. Na semana passada o PCC mostrou-se capaz de matar e levar o caos ao coração da cidade mais importante do País, mas a reação das autoridades continuou turva. O presidente Lula, repetindo a cegueira clássica da esquerda nessa questão, resumiu tudo a um problema de ?falta de investimento em educação?. Como se o governo não precisasse ter uma política eficiente de segurança, como se Lula não tivesse qualquer responsabilidade no pobre estado das escolas brasileiras. ?O Estado não reage contra o crime porque não quer, porque não dá importância ao assunto?, afirma o historiador Jacob Gorender. ?A inépcia do governo nessa questão é absurda.? As estatísticas mostram que o governo do PT reduziu investimentos em segurança. Ele caiu de R$ 730 milhões em 2002 para R$ 484 milhões no ano passado. Lula também não fez do combate ao crime uma prioridade política, mobilizando a sociedade e o Congresso em torno do tema. A Colômbia, sinônimo de pais gangsterizado, está saindo do abismo graças a atenção que o governo de Alvaro Uribe dedica ao assunto. No Brasil, por corrupção, covardia ou inépcia, não se combate o crime organizado. Estamos a caminho do abismo.