Economia

Nó da fome


Era tudo o que o governo Lula queria ouvir para justificar seus investimentos no social. Paradoxalmente, era o que a oposição precisava para atacar as políticas públicas do governo como ineficientes. Na quarta-feira, 17, o IBGE divulgou a primeira pesquisa sobre Segurança Alimentar realizada no País e mostrou a percepção dos brasileiros sobre seu acesso aos alimentos. Os números indicam que em 2004 a fome bateu à porta de pelo menos 18 milhões de lares. No jargão técnico, 72 milhões de pessoas conviveram em domicílios com insegurança alimentar em três níveis: grave, moderada ou leve. Nesses números frios também aparecem os brasileiros inscritos em programas sociais como o Fome Zero, com o qual o governo gastou R$ 4 bilhões no ano passado. Mesmo entre os que recebem ajuda governamental, pelo menos 15% ainda apontam a fome como companheira do dia-a-dia. De acordo com a pesquisa, entre os que participam do programa Fome Zero, 66% ainda afirmaram ter preocupação com a falta de comida. Em 1,2 milhão de lares, as pessoas disseram ter ficado pelo menos um dia sem ter o que comer, entre setembro e dezembro de 2004. ?Isso mostra que as atuais políticas sociais precisam ser repensadas com urgência. Há uma grave distorção de foco?, afirma o senador Álvaro Dias, do PSDB.

Embora a pesquisa do IBGE sugira o contrário, a situação alimentar do Brasil vem melhorando. E muito. Em 2004, os brasileiros que viviam abaixo da linha da pobreza ?com menos de US$ 1 de acordo com os critérios da ONU? eram 6,74% da população. Número muito inferior aos 12,41% registrados em 1993. A redução da pobreza por esse critério é monitorada pela FGV no Brasil e faz parte da chamada Primeira Meta do Milênio de redução da extrema pobreza à metade entre 1990 e 2015, proposta pela ONU. O resultado esperado em 25 anos foi alcançado em 10 anos pelo Brasil. Um outro levantamento, realizado pela USP recentemente, apontou outro dado positivo: no ano passado 6,75% das crianças do semi-árido brasileiro passavam fome. Ainda é muito, mas bem menos que os 47% de 1975. Com números tão positivos o que explica os dados do levantamento do IBGE? A resposta pode estar na psicologia. O levantamento feito pelo instituto, desta vez, levou em conta não apenas os números e o resultado da balança na pesagem de criancinhas. As perguntas buscaram captar situações e dramas que a balança não acusa. Um lar onde falte comida por meia dúzia de dias em um ano pode não ter crianças subnutridas, mas certamente vive um drama social de primeira grandeza. Para captar esse sentimento, as pessoas responderam perguntas como ?deixou de comer porque não tinha dinheiro?? Em caso positivo, a família era classificada como caso de insegurança alimentar. ?É a sensação de segurança alimentar, em qualidade e quantidade que se está medindo?, explica a pesquisadora do IBGE Vandeli dos Santos Guerra. Para o professor Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV, não há como modificar esse cenário sem distribuição de renda, reforma agrária e crescimento econômico. ?Os programas não são de superação da pobreza. Eles aliviam, mas não resolvem?, garante. ?A pesquisa mostra que estamos no caminho certo?, analisa Rômulo Paes, secretário de Avaliação e Gestão da Informação. ?O Fome Zero está chegando justamente onde a população precisa?.

RAIO-X DA FOME
72 milhões de pessoas ainda vivem com insegurança alimentar

R$ 4 bilhões
foi quanto o governo gastou com o programa Fome Zero em 2005

15%
dos inscritos em programas sociais disseram ainda passar fome

6,7%
dos brasileiros vivem com menos de US$ 1 por dia. Menos que os 12% de 1993