Economia

Este homem tem planos ousados para a dívida


O maior desafio de Carlos Kawall, secretário do Tesouro há menos de dois meses, passa ao largo da melhoria do perfil da dívida pública. Aos 44 anos, o ex-economista-chefe do Citibank cultiva a certeza cartesiana de que o mercado absorverá a decisão de trocar a parcela dos títulos corrigidos pela Selic por títulos com renda prefixada. ?É um processo natural de qualquer grande economia emergente?, diz ele. ?Os compradores estão aceitando muito bem a nossa decisão?. Embora recém chegado, ele lida com os grandes números da dívida brasileira com a mesma familiaridade com que discorre sobre seu esporte preferido: a maratona. Alto e magro, corre semanalmente 60 quilômetros. Agora, prepara-se para debutar na corrida internacional de Porto Alegre, no próximo domingo 21. Essa, na verdade, tem sido a sua grande fonte de inquietação. Sobre o alongamento do papelório nacional, números tranquilizadores, externados no tom direto e didático de quem lecionou economia por vários anos. Em fevereiro, a parcela de títulos corrigidos pela Selic atingia 47,2% de uma dívida total de R$ 1,01 trilhão, diz ele. Em abril, esse percentual foi reduzido para 46,12%. Ou seja, menos da metade dos atuais papéis disponíveis no mercado não estão mais atrelados à maior taxa de juros do planeta. Ainda assim, Kawall, como o resto do mercado, considera alto esse percentual. ?Nosso objetivo é zerar a dívida atrelada aos juros?, avisa. ?Estamos num contexto econômico favorável para o inicio deste processo?.

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Formal e contido, embora extremamente acessível, Kawall é um representante um tanto heterodoxo da geração de economistas de mercado que tomaram o País de assalto nos últimos anos. Mestre e doutor pela Unicamp, circula com desenvoltura pelo meio financeiros graças aos oito anos de Citibank. Esse currículo meio neoliberal-meio desenvolvimentista o credenciaram a tocar o Tesouro sob a batuta Guido Mantega, que navega na mesma área de contradição. Quando chegou ao cargo, Kawall, assim como Mantega, foi comparado desfavoravelmente ao seu antecessor, Joaquim Levy, de sólidas convicções ortodoxas. Mas esse momento parece ter passado. Kawall, que raramente expressa opiniões controversas, atraiu a confiança dos operadores ao martelar o óbvio: o perfil da dívida tem de mudar, mas isso será feito de forma gradual e segura. Seus pontos de vista sobre esse assunto são conhecidos desde 2004, quando escreveu um paper chamado ?Política Monetária e Alongamento da Dívida Pública: uma Proposta para Discussão?, em parceria com outros dois economistas. Eles sugerem um modelo de atuação conjunta entre o Banco Central e o Tesouro para que a gestão da taxa de juros seja atrelada à melhora do perfil da dívida. A proposta prevê uma fase de transição para construir, aos poucos, uma curva de juros futuros com inclinação positiva, mas falta ainda combinar a parte que cabe ao BC. Lá, no outro prédio, trabalha um grupo de economistas sem muita disposição para ouvir sugestões de fora. Mesmo Levy, com PhD de ortodoxia, perdeu a paciência com a equipe de Henrique Meirelles. Tudo contabilizado, o secretário do Tesouro prevê que a Selic chegará ao final do ano na casa dos 14%. ?Não é o que eu gostaria, mas é um alvo possível?, contemporiza. Com os juros nesse patamar, seria atrativo para os compradores títulos com prazos de um a dois anos e rendimento médio de 15%? ?É muito difícil convencer o sujeito a trocar um papel que rende quase 15,75% em 24 horas por um que rende 15% daqui a um ou dois anos?, admite Kawall. ?Eles terão um custo, mas irão se familiarizar com esse processo de reestruturação?. O embate do secretário com o rentismo, em tom discretamente glauberiano, faz lembraf a batalha de sucessivos economistas de sucessivos governos contra a inflação. Todos eles foram devorados, até que um plano, o Real, reuniu as condições técnicas, políticas e emocionais para o abate do monstro. Seria esse o caso agora? Não se sabe ainda, mas ao secretário não falta determinação ? nem objetividade e e nem aritmética – para atacar o problema. ?Não dá mais para submeter o País a uma indexação à Selic, na qual qualquer elevação dos juros se transmite imediatamente para a dívida pública?, diz ele. Só falta combinar com a diretoria do Banco Central.

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