Economia

Jogo do bilhão


A crise política ganhou novo gás na semana passada. Tudo porque Sílvio Pereira, ex-secretário-geral do PT, denunciou ao jornal O Globo que o publicitário Marcos Valério de Souza pretendia levantar R$ 1 bilhão em esquemas de corrupção no governo. Foi a primeira vez que um dirigente do PT apontou a meta de arrecadação. Esse dinheiro, segundo o petista, viria de quatro fontes principais: Banco Mercantil do Brasil, Banco Econômico, Opportunity e dívidas agrícolas. Na quarta-feira 10, um tanto atormentado, Silvinho depôs na CPI dos Bingos e confundiu mais do que esclareceu. ?Não sei dizer o que é verdade e o que é mentira?, afirmou aos parlamentares. Ainda assim, DINHEIRO traçou um roteiro de como os personagens desse ?jogo do bilhão? poderiam alcançar seus objetivos, num tabuleiro que inclui favores, achaques e pressões. O próprio advogado Marcelo Leonardo, do publicitário Valério, não negou que seu cliente tenha tentado defender interesses empresariais junto ao governo. ?Mas ele mesmo disse que foi um péssimo lobista?, disse Marcelo Leonardo à DINHEIRO.

As principais fontes de recursos tinham a ver com o encerramento das liqüidações extrajudiciais dos bancos Mercantil do Brasil, do pernambucano Armando Monteiro Filho, e Econômico, do baiano Ângelo Calmon de Sá. Foi por isso que Valério foi 17 vezes ao Banco Central, numa romaria que se iniciou três meses após a posse do governo Lula ? em algumas das visitas, ele esteve até acompanhado de dirigentes do Banco Rural, interessados na compra do Mercantil. No fim do ano passado, Monteiro Filho calculava que seu banco, livre da intervenção, teria ativos de R$ 927 milhões, que poderiam ser transferidos ao Rural. Especulou-se que, com o negócio, Valério receberia uma comissão de R$ 200 milhões. Monteiro se defende. ?Nunca pedi interferência de ninguém e sempre quis resolver meus problemas na Justiça?, disse à DINHEIRO. No caso do Econômico, Calmon de Sá também teria tentado levantar a intervenção em diversas ocasiões. Nessa transação, o rumor é que Valério também ganharia cerca de R$ 200 milhões. Os dois negócios, porém, foram barrados pelo corpo técnico do Banco Central ? em especial, pelo presidente Henrique Meirelles. A amigos, Meirelles confidenciou que foi pressionado por ninguém menos que José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, a suspender as liquidações. ?Quem pensou numa loucura dessas não sabe como funciona a diretoria do Banco Central?, diz Carlos Eduardo de Freitas, ele próprio ex-diretor do BC.

A terceira fonte de arrecadação, o Opportunity, é a que deve causar mais controvérsia. Isso porque, em vez de agir para obter favores, o PT teria atuado na linha inversa: a da extorsão que evitaria embaraços. Essa acusação foi feita, durante o depoimento de Silvinho, pelo senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que trouxe a público documentos de um processo que tramita em Nova York. A ação envolve o Opportunity, de Daniel Dantas, e o Citibank, tendo como pano de fundo a disputa pelo controle da Brasil Telecom. Numa declaração do advogado Philip Korologos, que representa Verônica Dantas, irmã de Daniel, consta a denúncia de que o Opportunity teria sido perseguido pelo governo por se recusar a doar dezenas de milhões de dólares ao PT. E isso foi extraído de documentos do Citibank. ?Isso indica que o PT pode ter tentado extorquir dinheiro para não criar problemas para a empresa?, disse o senador Virgílio. Ele já apresentou requerimento para que a Justiça de Nova York encaminhe à CPI os documentos relativos ao caso.

Outros episódios ligados ao Opportunity reforçam essa linha de suspeitas. No período em que controlou a Brasil Telecom, Dantas contratou três advogados ligados ao PT, ainda que indiretamente, em contratos superiores a R$ 10 milhões. Dois deles, Antônio Carlos de Almeida Castro e Roberto Bertholdo, são amigos de José Dirceu. Um terceiro, Roberto Teixeira, é compadre do presidente Lula. A quarta fonte de arrecadação citada por Silvinho, a das dívidas agrícolas, é a que permanece mais obscura. Fontes ouvidas pela DINHEIRO apontam que o foco seria a rolagem de dívidas de usineiros do Nordeste. Cabe agora à CPI comprovar ou não.