Economia

O discreto poder de Walfrido


São 21h da quarta-feira 10. O ministro Walfrido dos Mares Guia, do Turismo, tem 40 ligações para retornar após mais de 12 horas de trabalho. ?Estou na melhor fase da minha vida?, disse à DINHEIRO. ?Minha família está encaminhada, meus negócios vão muito bem e trabalho no que eu gosto?. Aos 63 anos, 41 deles anotados na carteira profissional, Mares Guia é, nos bastidores, um dos principais articuladores da campanha de reeleição do presidente Lula. ?O presidente já tem um coordenador?, tergiversa. ?Mas o Brasil é grande demais e já me coloquei à disposição?. Na nova função, ele levou o PTB, seu partido, pacificado para o berço do governo. Agora articula diretamente com o presidente a presença do PMDB na chapa eleitoral. Como se não bastasse isso, sua pasta vai de vento em popa: teve o orçamento quadruplicado e o Turismo trouxe US$ 3,8 bilhões ao País no ano passado. A presença de turistas estrangeiros cresceu 10,5% nos últimos dois anos e os brasileiros passaram a viajar 35% a mais que em 2003. Walfrido é um daqueles raros ministros que não traz problemas, mas sim soluções. ?Sua grande vantagem é ser mineiro?, diz o empresário Guilherme Paulus, presidente da CVC. ?Aos poucos ele se tornou uma peça vital para o governo?.

Otimista vocacional, o ministro e dono da rede de ensino Pitágoras tem certeza de que a vitória de Lula está garantida. Ele explica que essa segurança, mais que simples fé, decorre de uma rotina implantada por ele assim que chegou ao governo. Toda semana recebe uma pesquisa com a avaliação da administração federal. Nos últimos meses, somaram-se a estas também as pesquisas eleitorais. ?Tenho um jeito muito metódico de avaliar as eleições?, explica. Sua conclusão: ?Com os índices de votos nulos e em branco que estão por aí, o presidente já tem mais da metade do eleitorado?.

Leal, simples, por vezes bonachão, ele se aproximou do presidente, um homem emotivo, e passou a gozar da sua confiança. ?Sou um conselheiro?, admite. Dias atrás, recebeu Lula em seu sítio no distrito de Santo Antonio do Leite, a 50 minutos de Belo Horizonte. O ministro não revela o que foi tratado durante o fim de semana em que os dois passearam de quadriciclo. Mas deixa entrever que o diálogo está cada vez mais afinado. ?Não chegamos a ser íntimos, mas nos identificamos em coisas simples da vida?, define. Sua influência cresce na proporção dessa aproximação. Foi de Walfrido a indicação de Milton Zuanazzi para a presidência da Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil. Essa é um a indicação que naturalmente não deveria ter saído do ministério do Turismo. Dias atrás, um amigo de Mares Guia foi visitá-lo em seu gabinete. Ao se deparar com uma foto da posse, contabilizou 18 ministros que tinham abandonado o governo ? ou por decisão pessoal, ou motivados pelos escândalos de corrupção. ?Você ficou?, disse o amigo. O ministro deu um sorriso amarelo, mas foi obrigado a concordar. Isso tem contado a seu favor junto a Lula. Entre os atuais ocupantes de gabinetes na Esplanada dos Ministérios, também é unânime a simpatia por Walfrido. ?Ele dá dinamismo às reuniões ministeriais?, elogia um ministro da área social. ?Suas propostas não se restringem ao Turismo. Ele sempre fala em criar um guarda-chuva para que os programas gerem renda, emprego e uma boa imagem do Brasil no exterior?.

O teste de lealdade e eficiência política do ministro ocorreu no início da crise do mensalão. Ele travou uma batalha interna no PTB com o presidente do partido, Roberto Jefferson, que quis tirar o partido da base governista. Walfrido barrou. Com seu jeito matreiro e a fala mansa, foi conquistando a confiança dos principais líderes do partido. Minutos antes da equipe de DINHEIRO encontrar o ministro, o deputado José Múcio Monteiro, líder do PTB na Câmara, saiu de seu gabinete. Logo depois foi a vez de Azeredo também fazer uma visita. ?O Walfrido não tem poder político?, esclarece um dos membros da executiva do partido. ?Mas a sua lábia e a competência que mostrou no ministério fizeram com que o PTB se curvasse a ele?. Para quem não sabe, o ministro tem bastante experiência em organização de campanhas, embora não tenha colhido vitórias. Em 1998, ele coordenou a campanha de Eduardo Azeredo para o governo de Minas Gerais. Azeredo perdeu, mas Walfrido foi eleito deputado. Em 2002, nova coordenação. Desta vez ele chefiou o time que tentou emplacar Ciro Gomes no Palácio do Planalto. Ciro também perdeu. Mas Walfrido foi levado ao ministério na cota pessoal do cearense. Em novembro, quando forem abertas as urnas da eleição presidencial, o ministro acredita que vai saborear sua primeira vitória como coordenador.