Economia

Mantega acelera


Guido Mantega ainda não está totalmente familiarizado com os comandos da economia. Na ampla sala de reuniões anexa ao seu gabinete de ministro da Fazenda, ele testou três controles até conseguir ligar o ar condicionado. ?Agora aprendi?, disse ele, na quinta-feira 4, em mais um dia seco do outono brasiliense. ?O que ainda não memorizei foi o nome de todas as secretárias e motoristas?. Curinga do PT, Mantega já cumpriu várias missões no governo Lula ? e sempre trocou de posição justo na hora em que decorou os nomes dos assessores. Começou no Planejamento, jogando na defesa e segurando gastos. Migrou para o BNDES, onde fez o meio de campo com empresários. Na Fazenda há um mês, ele diz que é hora de atacar e marcar gols. ?As condições para o desenvolvimento são ideais?, disse ele à DINHEIRO, numa de suas primeiras entrevistas no novo posto. Aos poucos, Mantega afia um discurso quase inverso ao de seus antecessores. Enquanto eles propalavam estabilidade e cautela, Mantega oferece crescimento e ousadia. E o melhor, diz ele, é que o esse discurso já não causa qualquer arrepio. ?Dias atrás, em Washington, eu disse com todas as letras aos investidores e técnicos do FMI que não sou ortodoxo; mesmo assim, o risco Brasil seguiu em queda?, diz ele. ?Isso prova que os tempos mudaram porque os nossos fundamentos econômicos também passaram da água para o vinho?.

Ser heterodoxo, no dicionário de Mantega, significa não perseguir um superávit primário superior a 4,25% do PIB. ?Havia quem defendesse um superávit ilimitado?, diz Mantega. ?Só que ninguém tem coragem de assumir que isso implica em reduzir gastos sociais, como os do Bolsa Família?. Com a economia fiscal de 4,25%, o ministro garante que será possível fazer com que a dívida pública caia para pouco mais de 40% do PIB até o fim de 2010 ? em 2003, quando Lula assumiu o governo, ela estava em 60%. ?Desarmamos essa bomba?, diz ele. Ser heterodoxo, segundo Mantega, também significa não perseguir o que ele chama de uma ?inflação suíça?. Ou seja: se havia técnicos no Banco Central com a intenção de reduzir a meta de inflação que será fixada para os próximos anos, a chance agora é praticamente nula. Até porque Mantega é quem preside o Conselho Monetário Nacional. Ao que tudo indica, a meta para 2007 será de 4,5%, idêntica à deste ano. ?Esse é um nível que permite conciliar estabilidade e crescimento?, diz o ministro. E ele garante que o quadro atual, no front inflacionário, é absolutamente confortável. Nos últimos doze meses, a taxa acumulada pelo IPC da Fipe foi de apenas 2,5% ? a menor desde a introdução do regime de metas de inflação, em 1999.

Tanta calmaria nos índices de preços também tem deixado Mantega à vontade para alfinetar o Banco Central. Isso porque, na última ata do Comitê de Política Monetária, a palavra chave usada pelos diretores do BC foi ?parcimônia?, indicando que as próximas reduções na taxa de juros, hoje em 15,75%, serão decididas com mais cautela. ?Eles podem até ter cautela, desde que continuem baixando?, disse ele. ?A decisão técnica, com essa inflação tão controlada, é reduzir mais a Selic?, garante. No meio da entrevista, o ministro recebeu de um de seus assessores um quadro apontando que a expectativa do mercado para a próxima reunião do Copom é de mais um corte de 0,75 ponto percentual ? se isso vier a ocorrer, a taxa será a menor desde o início do Plano Real. Mantega também minimizou suas eventuais diferenças com Henrique Meirelles, o chefe do BC, que conseguiu criar um canal direto de comunicação com o Palácio do Planalto, deixando de se subordinar à Fazenda. ?O presidente Banco Central não pode ter divergências com o presidente da República?, disse Mantega. E o ministro está seguro de que Lula hoje também joga no time da ousadia.

Com juros em queda e um superávit fiscal que não será nem maior nem menor do que a meta de 4,25% do PIB, Mantega está convicto de que, neste ano, o Brasil crescerá 4,5%. ?Com isso, vamos criar pelo menos mais um milhão de empregos formais?, aposta. Nem mesmo o leve recuo da produção industrial, que caiu 0,3% em março, o preocupa. ?São ajustes sazonais?, diz ele. ?O que importa é que, no trimestre, houve expansão de 4,6%?. Com um ritmo mais forte na economia, Mantega prevê investimentos públicos de quase R$ 20 bilhões neste ano ? incluindo gastos das estatais e do setor público em infra-estrutura. Além disso, as medidas de desoneração tributária para o setor privado, com reduções de alíquotas para compra de máquinas e também para micro e pequenas empresas, representam benefícios fiscais da ordem de R$ 19 bilhões. A única coisa que realmente o preocupa hoje diz respeito à taxa de câmbio, que já se aproxima de R$ 2. ?Isso está, de fato, prejudicando muito o agronegócio e os setores exportadores?, reconhece. A solução, diz Mantega, é reduzir mais rapidamente os juros para que o real se desvalorize. Além disso, o BC continuará comprando reservas ? só no ano passado foram US$ 30 bilhões.

Esse quadro benigno deverá garantir, na visão do ministro, a disputa eleitoral mais tranqüila de toda a história do País ? ao menos na economia. ?Quem quiser apostar contra o País vai perder muito dinheiro?, diz ele. Mantega também aposta que um crescimento mais forte do PIB fará Lula se reeleger. ?Será uma guerra, mas os ganhos de renda e a expansão do crédito estão sendo sentidos pela população?. No momento em que falava à DINHEIRO, Mantega também foi interrompido para firmar seus cartões que serão enviados à Casa da Moeda. Dentro de poucos dias, todas as cédulas que circulam no País terão sua assinatura. Mantega acredita piamente que será assim até dezembro de 2010.