Economia

Gás inflamável


A cerâmica Gyotoku, de São Paulo, tem 100% de sua linha de produção movida a gás natural. E não é a única. No seu setor, 95% da matriz energética é composta pelo gás. Juntas, as fabricantes de cerâmica ? que exportaram US$ 400 milhões em 2005 ? consomem 3 milhões de m³ por dia. Isso é 10% de tudo que o Brasil importa da Bolívia. Mas não foi sempre assim. A construção do gasoduto que ligou Brasil e Bolívia, em 1999, e o apagão de 2001 estimularam a busca por novas fontes energéticas e o gás natural foi apresentado como a melhor alternativa para a indústria em geral. De lá para cá, o consumo brasileiro cresceu ao ritmo de 20% ao ano e atingiu os 47 milhões de m³ por dia em 2006 ? dos quais 51% vêm das reservas bolivianas. O resto vem da Bacia de Campos. Assim, as máquinas dos fabricantes de vidro, que em 2000 eram movidas metade a óleo e metade a gás, hoje dependem 100% do gás natural. Setores como o petroquímico, químico, siderúrgico – nos quais estão incluídas gigantes como Carbocloro, Gerdau, Copesul, Fosfertil, Acesita, Solvay e Bayer ? também são movidos à gás. De acordo com a Abrace, a associação dos grandes consumidores de energia, os segmentos representados por ela consumiram, no ano passado, 18,5 milhões de m³ desse combustível por dia. É o equivalente a 82% do total queimado pela indústria nacional. ?Nem cogitamos a possibilidade de desabastecimento. Isso resultaria em perda de equipamentos e empregos e abortaria planos de investimento”, comenta Lucién Belmonte, superintende da Abividro. Seu setor faturou R$ 3 bilhões em 2005 e gera 12 mil empregos diretos.

Números e fatos mostram que a decisão boliviana de colocar soldados dentro das instalações da Petrobras para nacionalizar as reservas, as refinarias e a exploração de gás não preocupa apenas os executivos da estatal e os diplomatas do Itamaraty. Na lista dos que estão perdendo horas de sono com Evo Morales estão grandes empresários que nunca puseram um pé na fronteira com a Bolívia. Eles cobram do governo firmeza nas negociações para conseguir, ao mesmo tempo, proteger os investimentos empresariais e garantir o fornecimento de gás sem reajustes abruptos de preços. Segundo Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais da Presidência e mentor das postura adotada por Lula frente aos vizinhos, é exatamente isso que o governo tenta fazer. Em entrevista aos repórter Gustavo Gantois, de DINHEIRO, ele disse que nas conversas que o Brasil vem tendo com a Bolívia não há ?contemporização ou hostilidade? e que a posição brasileira tem sido ?firme, mas sem bravatas?. ?O confronto não interessa ao governo”, diz ele. Segundo García, no encontro com Morales em Puerto Iguazu, na quinta-feira 4, o presidente Lula deixou claro que a continuidade dos investimentos brasileiros na Bolívia está sujeita a duas coisas: garantia de abastecimento de gás e negociação sobre os preços do combustível, que a Bolívia ameaça aumentar em 45% de forma unilateral. ?Não foi declarada guerra. Há um contencioso que estamos tratando com negociação”, diz o assessor.

Até agora, o que se viu foi bem pior do que isso. Em Puerto Iguazu, o presidente Lula deixou-se envolver em uma assembléia de presidentes ? ele, Néstor Kirchner, da Argentina; Hugo Chávez, da Venezuela e Morales ? na qual os interesses e a importância regional do Brasil foram melancolicamente diluídos. Enquanto a Petrobras rosna em defesa dos seus direitos, com o presidente José Eduardo Gabrielli jurando que não põe mais ?um centavo? na Bolívia, Lula comporta-se como se Morales fosse seu filho mais novo fazendo uma travessura. Essa atitude sugere fraqueza e pode estimular outras bravatas de Morales e do seu inspirador ideológico, Hugo Chávez. Os empresários e boa parte da opinião pública brasileira gostariam que o presidente defendesse com mais clareza os interesses nacionais, como fazem outros presidentes. Kirchner, quando acha que a Argentina está sendo lesada, não se acanha em mostrar seu desagrado publicamente, como já fez mais de uma vez. E sempre com bons resultados. Não se trata de abrir guerra, mas de portar-se com clareza e desassombro. Se Lula tem dificuldade em portar-se com a firmeza que a situação demanda, o Itamaraty não deveria expô-lo a esse tipo de negociação direta. Poucos questionam que a Bolívia tem direito à suas reservas. Mas, diferente do presidente Lula, nem todos estão disposto a admitir que Morales possa fazer o que quer com os ativos da Petrobras e com os contratos firmados com a empresa brasileira. Segundo a expressão feliz da revista The Economist, está em curso uma ?guerra de energia?, cujas batalhas se desenrolam ao redor do mundo. Na América do Sul, depois da semana passada, o placar está em Um para os produtores e Zero para o Brasil. Pior para as empresas brasileiras.

US$ 1,5 bilhão foi o valor investido pela Petrobras na Bolívia