Economia

José Dirceu agora empresário


O nome é pomposo: José Dirceu & Associados. Eis a empresa do homem que há pouco tempo era o ministro mais forte do governo Lula. Dias atrás, soube-se que foi essa firma que pagou o aluguel de um jatinho, de prefixo PT-WBY, que levou Dirceu de São Paulo a Juiz de Fora, para um encontro político com o ex-presidente Itamar Franco. O custo da viagem, de R$ 12 mil, é quinze vezes maior que um vôo de carreira. Sinal de que, na nova atividade, Dirceu começou com o pé direito, ainda que a empresa não tenha registro na Junta Comercial de São Paulo e esteja com o CNPJ inativo na Receita Federal. Procurado por DINHEIRO, o ex-ministro evitou falar sobre a vida empresarial. ?Sou advogado, tenho uma consultoria privada e não devo explicações?, disse, de Caracas, na Venezuela. ?Estou fora da política?, completou, numa declaração incoerente com a própria natureza da viagem a Juiz de Fora. Além da JD & Associados, o ex-ministro também está se associando a um escritório de advocacia em São Paulo: o Ribeiro & Barros. ?Somos amigos e não vejo impedimento para que voltemos a trabalhar juntos?, disse Lílian Ribeiro, sócia do escritório e amiga de Dirceu desde os anos 60. Os dois, inclusive, já haviam sido sócios entre 1994 e 1998.

Teoricamente, nada impede que Dirceu assuma novas funções na iniciativa privada. ?Ele precisa viver e está exercendo legitimamente a atividade de consultor?, diz José Luiz de Oliveira Lima, advogado do ex-ministro. É também provável que alguns empresários o contratem em função de sua experiência. Afinal, poucos homens concentraram tanto poder na história do Brasil recente. E são ainda mais raros os que conhecem, como ele, o funcionamento da máquina pública. A questão é que é muito tênue a fronteira que separa a atividade de aconselhar e a de abrir portas no governo. ?Moralmente, o Dirceu deveria estar impedido de fazer qualquer negociação que envolva o setor público?, diz o consultor político Ney Figueiredo. No caso de Dirceu, a situação é mais delicada, uma vez que acaba de ser denunciado pelo procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, como o chefe de uma ?quadrilha? de 40 pessoas ? esta foi a expressão usada por ele ? que estaria infiltrada no governo.

A revelação das atividades empresariais de José Dirceu também deflagrou uma onda de boatos em Brasília sobre quais seriam seus clientes. O principal rumor era o de que o ex-ministro já estaria trabalhando para ninguém menos que o bilionário Carlos Slim, terceiro homem mais rico do mundo ? oficialmente, a informação é negada pelos assessores do mexicano. Surgiram ainda especulações sobre a real extensão do poder de Dirceu, mesmo fora da Casa Civil. Na nova Agência Nacional de Aviação Civil, o ex-ministro conseguiu emplacar a advogada Denise Abreu numa diretoria. Ela foi uma de suas assessoras jurídicas na Casa Civil. Na mesma repartição, José Antonio Toffoli, subchefe jurídico de Dirceu, está a um passo de assumir a Controladoria-Geral da União. Tudo isso pode acabar criando constrangimentos para o presidente Lula. Afinal, se os empresários acreditarem que Dirceu ainda manda no governo ? mesmo que não seja verdade ? eles não estarão comprando os seus conselhos, mas apenas seu poder de influência.