Economia

Dilma versus empresários


A mesa está armada e os punhos posicionados. Na queda-de-braço, a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, enfrenta o mercado e sai cantando vitória. A disputa aconteceu na terça-feira, 7, durante o primeiro megaleilão de geração de energia realizado pelo governo, que foi considerado o grande teste do novo modelo do setor elétrico. O leilão girou R$ 75 bilhões, menos que os R$ 100 bilhões esperados, e supriu as distribuidoras com 17 mil megawatts que serão usados nos anos de 2005, 2006 e 2007. Para cada megawatt esperava-se um preço entre R$ 60 e R$ 80. Os contratos fechados fixaram taxas de R$ 57,50 a R$ 75,46. ?Foi um sucesso?, disse a ministra à DINHEIRO (leia sua entrevista abaixo). Mas sua opinião está longe de alcançar unanimidade. Para empresários e diversos analistas do setor privado, o resultado frustrou as expectativas. Prova da decepção foi a débâcle sofrida pelas ações da Eletrobrás, maior empresa do setor, que despencaram mais de 20% em apenas dois dias. ?O preço ficou muito abaixo do esperado e isso vai prejudicar a rentabilidade das empresas?, afirma o analista do banco Brascan, Carlos Martins. O presidente da estatal, Silas Rondeau, rebate: ?Foi especulação?, disse ele. ?Os investidores provocaram uma bolha, que estourou logo após o leilão.?

No meio da polêmica, quem pode sair ganhando é o consumidor. A Agência Nacional de Energia estima uma queda de até 4,4% nos preços da tarifa já no ano que vem. ?O consumidor vai ser beneficiado no curto prazo, mas pagará um preço caro no futuro?, alerta o presidente da Câmara Brasileira de Investidores de Energia Elétrica, Cláudio Salles. Para ele, o preço pelo qual foi vendida a energia vai inviabilizar a construção de novas usinas e pode resultar em falta de energia ou demanda maior que a oferta, que resultará em disparada de preço. Dilma diz que a reclamação faz parte da típica choradeira empresarial, mas admite que espera um preço maior no futuro. ?As pessoas precisam entender que havia excesso de oferta e isso é regra do mercado: oferta maior que demanda resulta em queda de preço?, disse à DINHEIRO. ?O objetivo do leilão era derrubar preços e essa meta foi atendida?, disse à DINHEIRO, em tom de crítica, o presidente da Tractebel Energia, Manoel Zaroni. ?A Tractebel é perigosa?, rebate a ministra, que acusa o setor privado de ter provocado recuo maior que o esperado. A lista de insatisfeitos segue. Nela destacam-se a americana Duke Energy e Cesp, a geradora de energia em São Paulo. Para cada um a ministra tem uma resposta. ?A Cesp não vai cobrir o seu endividamento com uma tarifa maior?, dispara. A empresa tem uma dívida de US$ 6,5 bilhões. ?Quanto à Duke, ela apresentou os preços que estavam no seu planejamento, e que não fui eu quem fez?, afirma. ?Estão reclamando de quê?.? A próxima rodada de leilões acontece no primeiro trimestre de 2005. Pelo jeito, novas e intensas disputas virão.

?É CHORADEIRA?
Ministra diz que empresas reclamam sem ter razão

DINHEIRO ? Ministra, as ações da Eletrobrás estão derretendo.
DILMA ROUSSEFF ? As ações subiram muito antes do leilão porque houve uma bolha. Após o leilão, o preço voltou ao normal. A bolha estourou e o mercado realizou lucro. Foi um movimento especulativo.

A sra. acha então que foi bom?
Sim. Na Eletrobrás havia excesso de oferta. Furnas tinha apenas 25% de sua energia contratada em 2005. Após o leilão garantiu 75% ao preço de R$ 57,51.

Empresários dizem que as estatais puxaram os preços para baixo.
Foi o contrário. Furnas sempre teve os maiores preços. Para 2005, queria vender a R$ 60,94 e a Duke Energy a R$ 59,89. O que derruba preço é a lei da oferta e da demanda. Havia excesso de oferta.

O preço ficou dentro do que a sra. esperava?
Achei que ficaria acima, por volta de R$ 62 em 2005 e R$ 71 em 2006. Na prática, foram R$ 57,50 e R$ 67,33.

As empresas dizem que, com esse preço, não haverá investimentos…
A choradeira visa pressionar para elevar preço nos leilões futuros. Essa gritaria é desnecessária porque, pela lógica do mercado, o preço vai subir naturalmente.

Cogita-se apagão em 2008. A sra. teme isso?
Falar isso é uma besteira. Só vai faltar energia se as obras paralisarem ou se não houver nem meio leilão. Isso é criar pânico onde não existe. Não há esse risco.