Economia

A volta do sr. FHC


A economia cresce 6%, as exportações batem recorde e o desemprego, até ele, está em queda. Os deuses da economia pareciam resolvidos, na semana passada, a despejar boas notícias sobre os brasileiros. Mas pelo menos um deles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não se deixou curvar por esses fatos. Ao ocupar o microfone de um seminário em São Paulo, na manhã de segunda-feira 30, Fernando Henrique tirou as luvas de pelica e atacou com agressividade inédita a gestão do Partido dos Trabalhadores. ?Este governo é incompetente?, disse ele, para surpresa de seus próprios correligionários. ?Só não deixa transparecer mais a sua incompetência porque o presidente Lula é eficiente em falar com a população, e isso embaça a percepção de quanto a coisa não anda.? Quando terminou de falar, 25 minutos depois, o ex-presidente havia produzido uma manchete e deixara, pairando no ar, uma certeza e uma dúvida. A certeza é que o homem que comandou o País por oito anos estava de volta à cena, ainda que não se saiba, aos 73 anos, qual o exato teor das suas ambições. A dúvida é se ele não expusera o flanco desnecessariamente, atacando o governo em meio a uma enxurrada de boas notícias. ?Sabe aquele ex-marido que não quer que a mulher seja feliz com outro??, devolveu o presidente Lula, sem mencionar seu antecessor. Coube a José Genoino, presidente do PT, a tarefa de bater boca em público com aquele que já foi o homem mais poderoso do País. ?Fernando Henrique nos entregou o Brasil quebrado e não tem autoridade para fazer essa crítica?, contra-atacou. ?Em dois anos fizemos mais pela estabilidade e pelo crescimento do que ele fez em oito anos. Incompetente é ele.?

Embora esclarecedor, esse franco debate de idéias parece estar sendo travado com omissões de parte a parte. O ex-presidente Fernando Henrique, ao acusar Lula de incompetente, omite que o governo está sendo muito eficiente pelos parâmetros fixados na Era FHC ? tem baixa inflação, faz a economia crescer e amplia a credibilidade externa. Da sua parte, Lula também gosta de ocultar que seu governo tornou-se, em termos macroeconômicos, o terceiro mandato do seu antecessor. O presidente deu poder a uma equipe de economistas de fora do partido que engavetou o ideário petista e administra o Brasil como se Pedro Malan ainda estivesse na Fazenda. Ainda que haja ruídos, a política econômica parece estar caminhando gradualmente para o consenso ? algo que pode servir ou desservir ao País, mas que provoca arrepios de pânico entre os políticos.

Logo, o que se viu na semana passada foi o ensaio de FHC para afinar um discurso capaz de distingui-lo do PT. Luiz Carlos Bresser Pereira, influente economista tucano, diz que o PSDB já tentou criticar o PT por ser autoritário e por ter deixado de ser de esquerda ? duas críticas que se revelaram inócuas. Agora, ao mirar na questão da competência gerencial, FHC teria acertado na carne. ?A administração deles é muito ruim, sobretudo na área social?, diz Bresser. Opinião semelhante é defendida por outro prócer tucano, o financista Luiz Carlos Mendonça de Barros. ?Fora a política econômica, o governo não anda?, diz ele. Mesmo na economia, o ex-ministro acusa o governo Lula de estar aplicando uma política ultrapassada. ?Eles copiaram o nosso programa econômico, mas ficaram na versão 1.0?, ironiza. ?Nós estamos na versão 2.1?. Dividido como o PT entre liberais e desenvolvimentistas, é improvável que o PSDB tenha uma resposta original para os problemas do País. O que ficou claro na semana passada é que o partido já tem líder, talvez até mesmo um candidato.