Economia

Por que Lula está cantarolando


Ele andava sorumbático e mal-humorado. Fazia pelo menos três semanas que o presidente Lula não dialogava abertamente com ninguém. Em seu gabinete do Palácio do Planalto, ouvia e falava pouco, fechava a carranca quando algum ministro tentava lhe arrancar alguma informação sobre assuntos do governo, a reforma ministerial, por exemplo. Mesmo para os auxiliares mais íntimos, como o ministro-chefe José Dirceu, ele se recusava a abrir seus planos. Em sua casa na Granja do Torto, a acidez vinha sendo aplainada com litros de café. Lula mandou instalar mesinhas com garrafas térmicas em pelo menos seis diferentes locais da casa oficial. O presidente começou a mudar o semblante na manhã de segunda-feira 29, quando o ministro Antônio Palocci, da Fazenda, chegou à reunião da coordenação de governo com uma novidade: ?Tudo indica que o IBGE vai divulgar o crescimento do PIB e que vem coisa boa para a gente?. Mais tarde, antes do sol se pôr, Palocci telefonaria para o presidente adiantando o número que seria anunciado no dia seguinte. Na seqüência, Lula conversou com o ministro Mares Guia, do Turismo. ?Uma coisa maravilhosa será divulgada amanhã?, informou Lula.

Os dias subseqüentes foram os mais felizes do presidente desde sua posse há dois anos. ?Fui a seu gabinete minutos depois do anúncio do IBGE e o encontrei eufórico e radiante?, relata Mares Guia. Segundo o ministro Palocci, Lula começou a cantar em pleno Palácio do Planalto. ?Ele foi cantando de sua sala até um evento com prefeitos do PT?, conta Palocci. O trajeto durou pelo menos 15 minutos de cantoria. Um outro ministro, com gabinete do Planalto, revela que Lula teria se ajoelhado no tapete e levantado as mãos para o céu. ?Ele estava no maior pique?, conta esse ministro. ?Como presidente, como se pode reclamar??, perguntou Lula diante dos auxiliares. ?Como presidente, estou de bem com a vida?, disse em outro momento. Logo depois, exclamaria: ?Que belo presente de Natal!?. Numa visita a Salvador, na noite de terça-feira 30, Lula não parava de sorrir. Puxava um ministro e ria, cochichava no ouvido de outro e ria de novo, falava com quem se aproximasse e ria. Ficou com olhos marejados quando um grupo de crianças cantou para ele ?What a Wonderfull World?, de Louis Armstrong, abraçou duas garotas e puxou o coro de aplausos ? de pé, é claro. Em conversas privadas ou em discursos públicos, repetiu pelo menos três vezes a parábola da UTI ? a de que pegou o País na UTI, levou para a enfermaria e que agora o Brasil já está saindo para a rua. Até a manhã de quinta-feira 2, Lula prosseguia comemorando. Chegou a patrocinar uma alegre rodada de brindes na Granja do Torto.

Entre os ministros do núcleo político do governo, a avaliação é de que os números do IBGE acabam de garantir ao presidente Lula uma avenida de bom astral e de popularidade que deve desembocar na sua reeleição em 2006. ?Ele viabilizou uma candidatura forte, mas não a vitória nas urnas?, diz um ministro do círculo palaciano. Faltando dois anos para o pleito, é prudente ainda não cantar vitória. Mas não há como não reconhecer que, no momento, Lula tem ótimos motivos para soltar a voz.