Economia

Ok, Meirelles, você venceu!


Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, não cabe em si de tanta modéstia. Logo que recebe elogios, que têm sido muitos e intensos desde que o IBGE divulgou o crescimento de 6,1% no último trimestre e de 5,3% nos nove primeiros meses do ano, ele saca uma resposta despretensiosa: ?Generosidade sua?, ?Não mereço tanto?, ?Que é isso!?. Mesmo contagiado pela maior expansão do PIB em oito anos, o xerife do BC exibe a síndrome do ?não fui só eu?. Tanto pudor e tanta compostura mal escondem sua enorme satisfação com os dados recentes da economia. E, à medida que a conversa avança, aflora a sensação de que Meirelles, em estado de graça, vive um daqueles momentos raros na vida de um ser humano. Para ele, é chegada a hora de saborear uma doce vingança produzida por fatos e números tão eloqüentes que parecem até capazes de calar os críticos e fazer os inimigos recolherem as armas. ?Antes diziam que não podia dar certo. Depois disseram que o Brasil cresceria apesar da má vontade do BC. A nova tese, também errada, é que o crescimento ou poderia ser maior ou vai durar muito pouco?, afirmou Meirelles à DINHEIRO, sem a preocupação de conter os risos que entremeavam suas colocações. ?Acho que os críticos vão ter que começar a rever os seus conceitos?. Ok, Meirelles, você venceu. Leia a seguir os principais trechos da sua entrevista, em que ele detalha como venceu as principais batalhas de 2004 e como tentará colher novas vitórias em 2005.

DINHEIRO ? O que explica o crescimento?
HENRIQUE MEIRELLES ? A razão é uma política econômica bem feita e bem aplica-
da. A questão que deveria ser colocada é outra: por que isso é tão surpreendente?

DINHEIRO ? Porque, em tese, juros altos e aperto fiscal contraem a economia. Não há uma contradição?
MEIRELLES ? É uma contradição aparente. Em primeiro lugar, fizemos um ajuste fiscal consistente. Depois, o Brasil tem um Banco Central comprometido com metas de inflação. E tem uma política de câmbio flutuante, que lhe permite tirar partido das oportunidades de mercado. Portanto, não havia razão para dar errado.

DINHEIRO ? E por que houve tantas dúvidas?
MEIRELLES ? Elas se devem a uma questão de diagnóstico. Em 1999 o Brasil flutuou o câmbio e fez a Lei de Responsabilidade Fiscal. Eram medidas corretas, mas o País cresceu pouco nos anos seguintes. E isso criou um falso dilema, como se aquelas medidas fossem inadequadas.

DINHEIRO ? Que dilema?
MEIRELLES ? O de inflação versus crescimento, ou de estabilidade versus desenvolvimento.

DINHEIRO ? E qual era o seu diagnóstico?
MEIRELLES ? O de que aquilo, em vez de ser rejeitado, deveria ser melhorado. O que essa administração fez foi simplesmente aprofundar a aposta em pilares como o ajuste fiscal, a flutuação cambial e o compromisso com a estabilidade de preços. Consolidamos tudo. Um exemplo é o das contas externas. Antes, o Brasil crescia, mas gerava déficits em conta corrente. E sempre que aumentava a aversão a risco nos mercados, o Brasil entrava em crise. Em razão disso, o ambiente para os agentes econômicos tornava-se menos previsível, o que reduzia a taxa de crescimento.

Biô Barreira
“Lula mudou sim o Brasil.
O País cresce e gera emprego
sem rombos externos”

DINHEIRO ? Que medidas foram mais importantes?
MEIRELLES ? A primeira foi o aprofundamento do ajuste fiscal, quando o superávit primário passou de 3,75% para 4,5% do PIB. Isso reduziu a curva de endividamento. E tivemos uma política monetária e cambial balanceada, que tornou o País menos vulnerável a choques externos.

DINHEIRO ? Sua política monetária manteve os juros altos.
MEIRELLES ? Ela mostrou compromisso com a estabilidade e fez com que os empresários pudessem enxergar um futuro mais seguro, o que teve efeito no aumento dos investimentos.

DINHEIRO ? No começo do ano, muitos duvidavam de que aprofundar a ortodoxia daria certo. Vocês já enxergavam o crescimento?
MEIRELLES ? Note bem, ser mais ou menos ortodoxo é uma questão subjetiva. Depende do seu parâmetro de julgamento. O que se dizia, no começo de 2004, é que a atividade econômica continuava fraca e que o Banco Central precisava continuar baixando os juros. E nós dizíamos que a atividade já vinha crescendo forte. Foi por isso que interrompemos o ciclo de redução de juros. E se você olhar agora os dados do PIB verá que a avaliação do Banco Central estava correta. Por isso, retrospectivamente, não cabe dizer que estávamos sendo muito ortodoxos.

DINHEIRO ? O Brasil investe mesmo com juros de dois dígitos? Não é um paradoxo?
MEIRELLES ? É um aparente paradoxo. A coisa mais importante na decisão de investimento é a previsibilidade. O empresário não vai investir apenas se o crescimento for acima de um patamar. Ele vai investir se houver segurança de que o crescimento irá persistir ao longo do tempo.

DINHEIRO ? O que move o empresário não é o instinto animal de quem tem uma carteira cheia de encomendas?
MEIRELLES ? Sim, mas o problema é que, no passado, havia picos de crescimento e logo se descobria que era uma bolha. Agora é diferente. No momento em que a parte fiscal está equacionada, assim como o lado externo, o empresário tem confiança. Vou te dar um exemplo: se o empresário acha que suas vendas vão crescer 10% ao ano durante dez anos, ele investe. Se você amplia a perspectiva para 15%, mas sem sustentabilidade no tempo, ele não investe.

DINHEIRO ? Alguns empresários dizem que o investimento pode cair no quarto trimestre, como resultado dos juros.
MEIRELLES ? Os investimentos vão se manter por algumas razões. A primeira é que o empresário é mais racional na hora de decidir investir do que na hora de conversar com a imprensa. A segunda é que, além do instinto animal, existe a questão da previsibilidade. Até porque o grande erro de alguns analistas era achar que a volta da inflação traria mais crescimento, quando, no passado, a inflação gerou estagnação.

DINHEIRO ? Mas ninguém fala em voltar à inflação. O que se pede é uma meta um pouco mais frouxa.
MEIRELLES ? Lógico, é sempre assim. Quando o Brasil entrou no período inflacionário, sempre se falava em um pouquinho mais de inflação. Ninguém chega e fala: ?vamos fazer logo 50%?.A história mostra que inflações que começam a se aproximar dos dois dígitos tornam-se instáveis. Isso está empiricamente comprovado. É difícil equilibrar uma inflação na casa dos 9% ou 10% ao ano. E quando ela se aproxima dos 5% ela torna-se mais administrável.

DINHEIRO ? Mas por que o custo do capital, que é alto no Brasil, não inibiu os investimentos?
MEIRELLES ? Do crédito doméstico no Brasil, 60% é crédito livre e 40% é crédito direcionado. Além disso, existe uma parcela muito grande de crédito externo. Este está relativamente barato. E o crédito direcionado, que inclui as operações do BNDES e do financiamento agrícola, não é influenciado pela taxa Selic, do BC. Ou seja: a grande parcela do investimento no Brasil não sofre interferência negativa da Selic.
Ao contrário, sofre uma influência positiva.

DINHEIRO ? Como assim?
MEIRELLES ? Ora, se a Selic visa controlar preços, o que se está fazendo é proteger a demanda, uma vez que a inflação corrói a
renda do consumidor. Na prática, o custo
do investimento não foi afetado e o bolso
do cliente foi protegido.

DINHEIRO ? O sr. mesmo disse que um dos pilares desse crescimento é o saldo externo. Agora, os empresários dizem que a valorização do real em relação ao dólar compromete o superávit. Eles estão certos?
MEIRELLES ? Em abril de 2003, eu falava com empresários e um deles disse: ?Henrique, você está criando a maior crise da história?. Isso porque o dólar recuara de R$ 3,50 para R$ 3,00. E ele previu que teríamos déficit na balança em setembro de 2003 e uma crise cambial em outubro. Em setembro eu o encontrei e havíamos tido o maior superávit da história. Então eu lhe disse: ?Ainda bem que as nossas preocupações não se materializaram?. Mas ele retrucou: ?Ainda não, vai ser daqui a 90 dias que vamos quebrar?.

DINHEIRO ? Quem é o empresário?
MEIRELLES ? Não vou dar o nome, porque ele representa toda uma corrente de pensamento.

DINHEIRO ? Mas é paulista, não é?
MEIRELLES ? Também não vou dar a estadualidade (sic).

DINHEIRO ? O sr. tem ouvido outras previsões furadas?
MEIRELLES ? Outra é que estaríamos incorrendo no mesmo erro do período de 1995 a 1998, quando tivemos a âncora cambial. É um equívoco, uma vez que hoje temos câmbio flutuante. Não é razoável supor que haverá desequilíbrios, pela simples razão de que o câmbio pode deslizar.

DINHEIRO ? O sr. costuma dizer que o BC mira apenas a inflação. O saldo comercial também será monitorado?
MEIRELLES ? Se houver uma deterioração da balança comercial, as previsões externas irão se alterar e os investidores mudarão suas hipóteses sobre qual a
taxa de câmbio.

DINHEIRO ? Não é uma postura muito passiva?
MEIRELLES ? Um governo intervencionista não é necessariamente um governo
bem-sucedido. Muito pelo contrário.

DINHEIRO ? Hoje se diz que, não fosse o conservadorismo do BC, teria dado ainda mais certo. Como o sr. reage?
MEIRELLES ? É bom assim. Antes diziam que não ia dar certo. Depois, quando
deu certo, afirmaram que isso acontecia apesar do BC. As novas teses é que o crescimento ou poderia ser maior ou vai durar pouco. O Brasil está numa situação única, em estado de graça.Muitas pessoas têm pecado por privilegiar apenas
um fator nas suas análises.

DINHEIRO ? Como assim?
MEIRELLES ? É verdade que com um dólar maior, os exportadores ganham. Porém, um dólar barato favorece investimentos, reduzindo o custo da importação de máquinas. O nosso papel é balancear todos os dados da equação. E um resultado balanceado sempre será sujeito a críticas.

Biô Barreira
“O empresário só aposta quando
tem a certeza de que os preços
não vão mais subir”

DINHEIRO ? O sr. se incomoda com elas?
MEIRELLES ? Eu as respeito. O importante é ter firmeza. O BC não pode ser uma instituição em busca de popularidade. Não podemos fazer pesquisa entre empresários e jornalistas econômicos para saber que decisão tomar.

DINHEIRO ? Esse é o momento para recomprar reservas?
MEIRELLES ? No fim de 2003, nós anunciamos um plano de reservas líquidas ajustadas, que previa US$ 21 bilhões em dezembro de 2004. Nós já estamos com US$ 24 bilhões.

DINHEIRO ? O Brasil pode se libertar do FMI e andar com as próprias pernas?
MEIRELLES ? Como estamos à frente do cronograma, recompondo reservas, esta-
mos já em condições de não renovar o acordo com o Fundo Monetário Internacional.

DINHEIRO ? O que se pode esperar de 2005? Será um ano de aperto monetário? O próprio ministro Luiz Furlan tem dito que, depois de ser o melhor aluno do FMI, chegou a hora de mudar e reduzir juros, até porque o presidente Lula foi eleito
para mudar.
MEIRELLES ? O padrão monetário de 2005 será o adequado para que a inflação convirja para as metas. O presidente Lula, de fato, foi eleito para mudar. E o fato é que ele está mudando. Está criando uma economia que tem crescimento forte, ge-
ração de empregos, saldo em conta corrente, aumento da massa salarial, expansão das receitas públicas e um Banco Central comprometido com a estabilidade.

DINHEIRO ? Mas que ainda tem juros altos.
MEIRELLES ? O que importa são os resultados, não os meios. O que o pre-
sidente Lula prometeu foi criar empregos e crescer de forma equilibrada. Isso
está acontecendo.

DINHEIRO ? Não estamos crescendo abaixo do potencial?
MEIRELLES ? A função do BC é fazer com que a economia cresça no seu po-
tencial. Se ela crescer acima disso, não haverá sustentabilidade. E se o BC
não agir, a inflação o fará.

DINHEIRO ? O BC definiu como 3,5% esse potencial?
MEIRELLES ? Mito. Se o BC não quisesse um crescimento acima de 3,5%, o
Brasil não estaria crescendo 5%. Eu nunca disse isso. Só disse que a projeção
para 2005 é de 3,5%.

DINHEIRO ? Neste ano, os 5% já estão garantidos e as pessoas já discutem se será 5,5% ou até 6%.
MEIRELLES ? Vamos esperar a reavaliação do mercado, que apostava em 4,7% antes da divulgação do PIB. Esses dados do IBGE terão que ser levados em conta.
E os críticos talvez tenham que rever os seus conceitos.

DINHEIRO ? Como evoluiu a dívida dolarizada do governo?
MEIRELLES ? No começo do governo, a dívida dolarizada representava 40% do PIB. Hoje, ela está em 11%. Se houver brechas, vamos continuar reduzindo.

DINHEIRO ? E a dívida interna?
MEIRELLES ? Ela havia atingido 62% do PIB e agora está em 53%. Até 2010, o plano é aproximá-la de 40%.

DINHEIRO ? Isso não deveria melhorar o risco do País?
MEIRELLES ? É uma pergunta a se fazer para as agências. Mas nós não nos comportamos como uma criança, que não consegue esperar um mês para
ganhar um presente.

DINHEIRO ? Quais são os grandes riscos que o sr. enxerga?
MEIRELLES ? A minha expectativa para a economia internacional em 2005 é boa. Vai crescer menos, mas vai continuar crescendo. O risco óbvio é o dos déficits gêmeos dos Estados Unidos, o fiscal e o externo.

DINHEIRO ? A queda do dólar no mundo não estaria atenuando o problema?
MEIRELLES ? Sim, é um fenômeno de ajuste. Seria ruim se houvesse movimen-
tos abruptos, com alta da inflação e dos juros nos Estados Unidos. O que se es-
pera é um ajuste suave, com adequações também em outras economias, como
a Europa e o Japão.

DINHEIRO ? Em outras entrevistas recentes à DINHEIRO, o sr. se comparou a Stirling Moss, o piloto que corria bem na chuva, e ao goleiro Castilho. O sr. já se vê no ataque, como um artilheiro, um Ronaldo?
MEIRELLES ? Desta vez não vou fazer analogias. Deixo a comparação para vocês.