Economia

Exuberância econômica no Brasil


 

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Não foi preciso sequer esperar o réveillon para comemorar. O ano estava ganho. Na semana passada, o IBGE trouxe a público uma enxurrada de números que, juntos, se tornaram uma chave de ouro para o fechamento do segundo ano do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Nos primeiros nove meses do ano, o PIB cresceu 5,3% em relação ao mesmo período de 2003. É o melhor resultado dos últimos oito anos, superado apenas em 1996. Mesmo que entre outubro e dezembro a economia fique estagnada, o resultado divulgado pelo IBGE já garante uma expansão de 5% em 2004. Mas as boas notícias para o Planalto não pararam de brotar à medida em que a numeralha era dissecada por técnicos e analistas. Segundo o instituto, o grande motor da arrancada foi a indústria, com expansão de 7% no terceiro trimestre, comparado aos três meses anteriores. Em relação a 2003, o índice ficou em 2,8%. A grande surpresa, porém, ficou por conta de um item chamado Formação Bruta de Capital (leia-se investimentos) ? e por essa nem mesmo os governistas mais otimistas esperavam. Nesse caso, o crescimento bateu em 20% em relação ao mesmo período de 2003, derrubando a desconfiança generalizada de que os bons ventos na economia não vinham acompanhados de investimentos necessários para dar consistência à expansão.

 

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LULA ADMIRA A OBRA No Porto de Santos, exportação mantém o ritmo apesar do câmbio

Tão logo os economistas do IBGE colocaram os números no ar, o País se dividiu. Alguns, a maioria, comemoraram. Outros minimizaram os possíveis feitos de Lula e seu time, e até o classificaram como ?exuberância irracional?. Eis um representante do primeiro grupo: ?Esses resultados mostram que não há uma bolha na economia, mas sim o início de um processo de desenvolvimento?, afirma Aristides Macedo, presidente da Kraft Foods, dona de marcas como Lacta, Maguary e Nabisco. Até outubro, o faturamento da empresa saltou 11%. ?Só não foi melhor porque o verão deste ano não ajudou.? Agora, o outro lado: ?O governo está comemorando uma política econômica de curto prazo, mas se não olhar o longo prazo, o crescimento pára em 2005 ou 2006?, ataca Yoshiaki Nakano, economista ligado ao PSDB.

De qualquer forma, o anúncio do IBGE levou o Planalto e a equipe econômica a um estado de euforia. Os números foram vistos como uma vitória do ministro da Fazenda Antônio Palocci e do presidente do Banco Central Henrique Meirelles, mas o grande crédito caiu mesmo na conta do presidente Lula. ?Eu estou feliz e o presidente Lula está cantando?, afirmou Palocci, em entrevista logo após o anúncio . O ministro aproveitou para reafirmar que não abre mão do aperto fiscal, nem do sistema de metas de inflação e tampouco do câmbio flutuante. De quebra, defendeu a política de juros do BC, num apoio explícito a Meirelles. ?Os indicadores confirmam o êxito de uma receita clássica, sem mágica?, disse ele.

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CASAS BAHIA: Crescimento de mais de 30% nas vendas e 11 mil novas contratações

Para alguns analistas, a mágica ficou por conta dos empresários. ?O crescimento foi puxado pelas empresas que fugiram dos juros altos e da carga tributária?, afirma Júlio Sérgio Almeida, diretor do Iedi. Almeida divide a sociedade em três grupos. Um deles, cerca de 30%, é formado por grandes empresas. ?Elas têm capacidade para buscar recursos no exterior, escapando dos juros internos, e fazem planejamento tributário, pagando menos impostos?, explica. Outros 30% estão na informalidade absoluta ? e não são atingidos pela carga tributária. ?A conta é paga pelos 40% restantes?, afirma ele. ?São os 60% que garantiram esse crescimento na economia.? Para as grandes corporações, os resultados são melhores ainda. Um estudo do Iedi com as 100 maiores indústrias do País, revela que o retorno médio sobre o patrimônio delas nos últimos dois anos bateu em 20%, contra um índice histórico de 5%. ?Elas estão capitalizadas, investem e explicam o crescimento na formação bruta de capital. Só resta saber se esse modelo se sustenta por muito tempo.?

Em outras palavras: quem está crescendo conseguiu driblar as restrições da política econômica. ?Estamos vendendo porque criamos alternativas à falta de crédito?, afirma Dante Iacovone, diretor da área de celulares da Gradiente. Neste ano, o mercado de telefonia móvel deverá crescer entre 35% e 40%. Do total de aparelhos vendidos, 85% são pré-pagos e podem ser adquiridos em 10 prestações de menos de R$ 20. ?Por isso, quem mais compra hoje são as classes C e D?, diz Iacovone. Por enquanto, lembra ele, as operadoras de telefonia e os fabricantes bancam o custo desse financiamento. ?Com a alta de juros, não sei por quanto tempo será possível manter esse modelo?, alerta.

 

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FURLAN Para ele, dólar a R$ 2,70 compromete as exportações

O IBGE indica uma possível alternativa para esse dilema. De acordo com o instituto, o consumo das famílias brasileiras cresceu 5,7% nos três primeiros trimestres deste ano, comparado a igual período de 2003. A explicação encontra-se em outro número. Entre janeiro e novembro, foram criados 1,8 milhão de novos empregos com carteira assinada no Brasil. Foram seis meses consecutivos de alta, o que ajudou a alimentar a safra de boas notícias para o governo. A construção civil, o melhor termômetro do nível de emprego no País, gerou 112 mil postos de trabalho, entre janeiro e setembro, 9,69% a mais do que o registrado no mesmo período do ano passado. As Casas Bahia podem ser um dos exemplos mais reais da recuperação da renda e do consumo interno do País. A rede de lojas populares, que faturou R$ 6 bilhões no ano passado, estima um crescimento de mais de 33% este ano e até novembro deste ano criou 11 mil novos postos de trabalho com carteira assinada, 55% mais que no ano passado. ?A queda dos juros estimulou a indústria, que gerou emprego e renda, ajudando a melhorar o consumo interno?, disse à DINHEIRO Michael Klein, diretor da Bahia. Neste ano, foram inauguradas 64 novas lojas ? a média dos dois últimos anos foi 25. A carteira de crédito da empresa deve terminar 2004 com 16 milhões de clientes, desse total 11 milhões são considerados ?ativos?, ou seja, aqueles que todo mês estão em alguma loja efetuando algum tipo de compra.

Um levantamento realizado pelo Dieese mostra de onde vem a opção preferencial pelos pobres feita por diversas empresas. Neste ano, as quatro categorias profissionais mais mobilizadas do País (metalúrgicos, bancários, químicos e petroleiros) conquistaram reposição integral da inflação, entre 6% e 7%, e aumentos reais que variaram de 2% a 4%. ?Essas categorias servem de referência para as negociações dos demais trabalhadores?, afirma Clemente Lúcio, diretor do Dieese. No berço político do presidente Lula, o ABC paulista, as notícias são animadoras. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos, os trabalhadores devem embolsar cerca de R$ 200 milhões a título de participação nos resultados. ?Acho que vai dar, em média, uns R$ 4 mil de bônus, mais do que um 14º salário?, diz um dirigente da entidade.

Essa injeção de dinheiro e, por tabela, o consumo maior das famílias, contribuiu para alimentar o índice de 5,3% levantado pelo IBGE ? e fez com que muitas empresas voltassem seus olhos para o mercado interno. Até outubro, a Motorola vendeu 70% a mais de celulares do que a previsão do início do ano. A capacidade de sua fábrica de Jaguariúna (SP) bateu no teto. ?Tivemos de diminuir as exportações?, diz Enrique Ussher, diretor de marketing. Nos primeiros dez meses de 2004, a empresa vendeu para o exterior US$ 327 milhões. No mesmo período de 2003, o volume foi de US$ 434 milhões. ?Acabamos de fazer um investimento de US$ 11 milhões para aumento da capacidade de nossa unidade?, afirma Ussher. ?Com isso, no próximo ano voltaremos aos níveis anteriores de exportação.?

A perda no fôlego das exportações acendeu um sinal amarelo. Enquanto o governo comemorava as estatísticas do IBGE, a voz do ministro do Desenvolvimento Luiz Fernando Furlan alertava para o risco de uma valorização excessiva do real frente ao dólar e dos efeitos nas vendas externas. Também bateu na taxa de juros e pediu mudanças. ?Isso é difícil? Por quê? Por que falta coragem??, questionou ele. Nakano faz coro. ?A economia cresceu com base nas exportações. Agora, com a valorização do real, estão quebrando o mecanismo da recuperação?, diz ele.

O aumento do consumo dos brasileiros também provoca o temor de uma pressão inflacionária ? temor que se aproxima da paranóia, já que até agora os indicadores não mostraram pressão alguma. A questão é saber se os investimentos das empresas vão acompanhar o ritmo de aumento do consumo. ?Este ano, o crescimento da economia caiu a cada trimestre em relação ao anterior?, diz Octavio de Barros, economista do Bradesco. ?E os investimentos aumentaram. Isso garante um crescimento da economia sustentável.?

Manter a curva para cima também é uma das preocupações do governo. Lula marcou para os dias 10 e 11 uma grande reunião ministerial para avaliar o que foi feito até agora pelo governo ? e principalmente para definir o que será feito daqui para frente. A maior parte dos ministros gostaria de flexibilizar a política econômica, cumprir o Orçamento e não fazer superávit acima do necessário. Dias atrás, numa reunião com ministros do PT, Lula, extremamente irritado, avisou que a ?política econômica é esta que está aí, quem quiser ficar que se adapte a ela, quem não quiser que saia?. Desde então, não houve mais espaço para debate interno; depois que o IBGE anunciou o PIB, sequer restou uma fresta. Se o IBGE trouxe uma enxurrada de boas notícias, deixou uma certeza: a política econômica manterá seu teor conservador, agora vitaminado pelo sucesso de 2004.

Com Eduardo Pincigher e Elaine Cotta

EM RITMO DE FESTA
DINHEIRO apurou com diversos setores o impacto
do crescimento na economia real. O saldo é positivo

Varejo
O setor pode ser considerado um dos melhores termômetros da retomada econômica. A recuperação do emprego e da renda elevou o consumo das famílias e aumentou os lucros das lojas e supermercados

Veículos
Há dois grupos bem distintos. As marcas de automóveis ainda se queixam de juros, impostos e baixa demanda interna. As de caminhões, por sua vez, estão felizes da vida: bateram recordes de produção e efetuaram novas contratações

Siderurgia
Os preços das commodities industriais estão nas alturas. Por isso as siderúrgicas vivem uma era de ouro: há forte procura interna e externa. Só que elas estão próximas do gargalo. Terão de investir rapidamente para suprir os clientes

Imóveis
Consultorias e incorporadoras que atuam no segmento corporativo estão rindo à toa. A demanda por imóveis industriais é alta. Mas se o ritmo de crescimento atual se mantiver vão faltar instalações daqui a três anos

Alimentos
Dois fenômenos típicos: o boom da economia impulsionou as vendas. Mas houve também migração para produtos mais caros. Além de ganhar no volume, portanto, o setor melhorou as margens de lucro

Eletrônicos
As vendas estão em alta, mas o setor não repetiu a performance de 1996. Foi o melhor ano da história, com a invasão dos importados. Agora, porém, a demanda é pelos nacionais

Construção
Pela primeira vez em três anos, o setor vai fechar no azul. Houve melhora na oferta de emprego e a classe média voltou a comprar. Mas a principal reclamação continua sendo as altas taxas de juros: o pior inimigo dos financiamentos

Química
Sofreu muito com as recentes altas dos derivados de petróleo, que constituem a principal matéria-prima do segmento. Devido à demanda aquecida, porém, conseguiu repassar os aumentos. Isto é: poderia ganhar ainda mais do que ganhou