Economia

Furtado está vivo


Jaz no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, o corpo do economista Celso Furtado. Ele morreu de um ataque cardíaco no sábado, aos 84 anos, e foi enterrado no domingo, dia 21, no mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Diante do fato inexorável, alguns, como o economista César Maia, prefeito do Rio, se apressaram a declarar que, junto com o caixão e a bandeira do Brasil que o envolvia, desceram ao túmulo as idéias econômicas do morto, marcadas por uma preocupação obstinada e prática em compreender (e superar!) o subdesenvolvi-
mento brasileiro. É como se o primeiro ministro do Planejamento do País, o mais conhecido e publicado intelectual brasileiro no exterior, fosse apenas uma relíquia dos anos 50, sem significado para o Brasil moderno. Mas não.

Basta passar os olhos sobre a obra do primeiro desenvolvimentista para perceber que os coveiros estão errados. Furtado está vivo, ou, pelo menos, vivas estão suas idéias e viva está, infelizmente, a cena brasileira de atraso e pobre-
za em que elas foram concebidas. Os liberais querem enterrar o desenvolvimentismo antes de ter desenvolvido o País. Movem-se por uma cartilha universal que não se baseia na história ou nas necessidades do Brasil. Furtado não. Combativo, original, esteve no centro da vida brasileira naquele intervalo dourado que foi da posse de Getúlio Vargas em 50 ao golpe militar de 64, durante o qual se registrou, com a presença ativa do Estado, o maior crescimento e a mais profunda modernização social do Brasil. Quando se compara essa herança com a dos 14 anos de desemprego e estagnação desde Fernando Collor, entende-se por que os liberais têm pressa em decretar a morte intelectual de Furtado. Embora tenham patronos como Eugênio Gudin e Roberto Campos, eles não têm um sucesso comparável a exibir.

A primeira dimensão espantosa na vida desse intelectual de claros olhos verdes e modos formais é sua enorme abrangência. Ele nasceu no sertão da Paraíba em 1920, ainda a tempo de ver os últimos cangaceiros, e morreu trocando e-mails na internet. Na sua juventude o conceito de Nordeste não existia. Foi mais ou menos inventado por ele com a criação da Sudene, que tinha por objetivo estimular o desenvolvimento da região mais pobre do País. Lutou na Europa com a FEB, foi o primeiro brasileiro a se doutorar em Economia na França e esteve na primeira equipe da Cepal, a Comissão Econômica da ONU para a América Latina. Ali, no escritório de Santiago do Chile, se articularam os primeiros estudos sobre industrialização da economia brasileira. Furtado trabalhou com Juscelino Kubitschek na execução do Plano de Metas, permaneceu na equipe de Jânio Quadros e traçou, como ministro do Planejamento, o Plano Trienal que tentou dar estabilidade ao governo de Jango Goulart. Foi cassado na primeira lista do golpe de 1964. Voltou do exílio, durante o qual lecionou e escre-
veu proficuamente, para ser ministro da Cultura no governo de José Sarney, o primeiro depois do ciclo militar. Era um universalista capaz de escrever com elegância e discorrer sem tropeços sobre música, história, filosofia e artes plásticas. Deixou 32 livros (com 53 traduções), dos quais o mais influente talvez seja Formação Econômica do Brasil, de 1959.

O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, discípulo confesso, diz que a grande percepção de Furtado foi a de que a países como o Brasil estava fechada a porta do desenvolvimento pela via pura e simples do mercado. Este reservava aos latino-americanos uma integração subalterna e agrária na ordem mundial. A industrialização ? e o desenvolvimento ? teria de resultar de uma estratégia consciente de cooperação entre o Estado e as elites nacionais, e da substituição de importações. Ridicularizada pelos liberais, essa idéia transformou o Brasil em uma das maiores economias do mundo. Continuou dando frutos mesmo distorcida pelo autoritarismo militar. Depois dela os brasileiros têm sido submetidos a um árido ?ajuste? que parece não ter fim e nem finalidade. Nos último anos Furtado estava desapontado com a inapetência da elite brasileira em atacar as raízes da pobreza nacional. Como homem de esquerda, depositara enorme esperança na gestão de Lula. Morreu dividindo com amigos a perplexidade com o conservadorismo do governo do PT.

TESTEMUNHOS


Juscelino
?Mostrava uma força e um caráter que nem pareciam saídos de homem tão alegre?

Eugênio Gudin
?Era inteligente, mas com uma idéia
alienada do Brasil?

Jânio Quadros
?Era um despreparado para o cargo?

Jango Goulart
?Era um primitivo, um pobre de caráter?

FHC
?Há entre nós uma incompreensão que impede a comunicação?