Economia

Empresários em alerta vermelho


O presidente Lula tem guardada, desde a sua posse, uma garrafa de champanhe que pretende abrir em algum momento do próximo ano. Segundo o ministro Luiz Furlan, do Desenvolvimento, a rolha vai voar no momento em que o Brasil chegar aos US$ 100 bilhões em exportações. Ocorre que no mesmo dia e local em que contou essa história ? na quarta-feira 24, durante o Encontro Nacional de Exportadores, em São Paulo ?, o ministro revelou uma estatística capaz de estragar o champanhe do presidente. Neste mês de novembro, durante cinco dias, o saldo da balança comercial brasileira esteve negativo. ?É a primeira vez que isso acontece no governo Lula?, dimensionou Furlan. ?Sinaliza que há um barateamento das importações de consumo.? Houve outros sinais recentes na mesma direção, como o crescimento de 30% das viagens aos Estados Unidos. Ou a redução do superávit semanal da balança comercial para US$ 209 milhões, contra uma média recente de US$ 500 milhões. Por trás desses sinais, que segundo Furlan mostram ?um aumento extraordinário das importações?, está uma única palavra: câmbio. Desde a posse do presidente Lula, o real sofreu uma valorização de 28% em relação ao dólar. Agora as contas do Brasil e das empresas começam a sentir o peso desses números.

?Estamos em alerta vermelho?, avisa o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que acaba de criar na entidade uma Unidade de Defesa Comercial, para antecipar problemas de comércio internacional. No momento, o radar da Fiesp está voltado para a China, onde são percebidas as maiores ameaças à indústria brasileira. ?Com o câmbio desfavorável, a economia brasileira crescendo e o reconhecimento da China como economia de mercado, podemos ter uma avalanche de manufaturados em 2005?, teme Skaf. Na quarta-feira, depois de participar do encontro nacional de exportadores, ele e Josué Gomes da Silva, da Coteminas, embarcaram direto para uma reunião em Buenos Aires. Lá, tentaram convencer industriais portenhos de que, graças ao câmbio, o verdadeiro inimigo é a China, não o Brasil. ?O câmbio tem efeito devastador sobre a competitividade da indústria?, diz Josué.

 

Trata-se, por enquanto, de risco potencial. Na Fiesp e na CNI ainda não há setores industriais queixando-se objetivamente da concorrência chinesa, ou de qualquer outra causada pelo dólar barato. Não há dúvida de que as importações cresceram, mas isso deve-se em parte ao próprio crescimento da economia. Um pedaço substancial das importações consiste em petróleo, máquinas industriais e matérias-primas, essenciais ao crescimento da economia. Mas existe, ainda assim, o temor da explosão de supérfluos. Ele se justifica por números como o do Pão de Açúcar, importador de produtos alimentícios e eletrodomésticos. As importações do grupo este ano cresceram 30% em dólares. Só a China saltou de fornecedor de 9% das compras externas do grupo em 2003 para 15% este ano. Mas Marcelo Ubriaco, diretor de comércio internacional, duvida da festa de importados. ?Não é só o real que está se valorizando frente ao dólar?, diz ele. ?Está acontecendo em todos os países. Todos os preços estão subindo.? Mas os preços dos chineses, cujo câmbio é controlado, sobem menos. É por isso
que neste ano a venda de televisores da China no Brasil cresceu 145%. No ano passado crescera 245%. É assustador.

Antes, porém, que se imagine um pesadelo, é importante ter claro que nem tudo é negativo na alta do dólar. Na quarta-feira, por exemplo, o Tesouro anunciou a compra de US$ 3 bilhões em moeda americana. O objetivo da operação foi obter divisas para pagar dívidas que irão vencer ao longo do primeiro semestre de 2005. A compra foi feita agora porque o dólar está barato. Essa intervenção do Tesouro também serviu para erguer o preço do dólar e acalmar os exportadores, mas não se deve esperar que ela se repita. ??As compras do Tesouro são insuficientes para reduzir o impacto do fluxo de dólares que está entrando no País??, explica Francisco Carvalho, responsável pela área de câmbio da corretora Liquidez. Com o dólar desabando no mundo inteiro, é mesmo difícil imaginar uma medida brasileira que consiga deter sozinha a alta da maré. Na quinta-feira, comprovando esse diagnóstico, o dólar voltou a cair em relação ao real. ?O dólar continuará a cair se não houver intervenção radical?, conclui Carvalho.

Em bom português, intervenção radical significa estabelecer um limite para a valorização do real e tentar defendê-lo em queda de braço com o mercado, gastando os suados reais do superávit primário na compra de dólares. Seria essa uma boa decisão para o País? Difícil dizer. Na semana passada foi divulgada uma entrevista do presidente Lula em que ele afirma à agência Bloomberg que um dólar entre R$ 2,90 e R$ 3,10 ?seria bom para as exportações?. É verdade, mas o Brasil também tem outros interesses. O dólar mais baixo ajuda a conter a inflação, facilita o pagamento das dívidas das empresas e melhora a renda das famílias, que, segundo as pesquisas, ganham poder aquisitivo em setores como alimentos e energia. Por outro lado, o real valorizado atrapalha as exportações, ajuda as importações e pode, se mal administrado, dinamitar as contas externas do País, como ocorreu exemplarmente na derrocada do Plano Real, em 1999. O que o governo precisa encontrar, em sintonia com a iniciativa privada, é uma forma de navegar na linha estreita que separa o dólar de menos do dólar demais. Tem de achar uma cotação estável que estimule as exportações sem encarecer demais a vida brasileira. Há quem tema que dentro do Banco Central e da Fazenda os técnicos só olhem para o dólar como um instrumento de controle da inflação, esquecidos do que a balança de pagamentos tem sido, historicamente, o grande tumor brasileiro ? e que a única forma de resolvê-lo é manter um elevado superávit. Na quarta-feira, falando aos exportadores, o ministro José Dirceu, da Casa Civil, disse que o governo estava em Brasília para ajudar no que fosse possível o comércio exterior. Talvez seja o caso de pedir o mesmo a Antônio Palocci, da Fazenda.