Economia

Sucessão no Banco do Brasil


Há alguns anos, o Banco do Brasil costumava gerar notícias em função de seus problemas: créditos ruins, operações polêmicas e aportes de capital pelo Tesouro Nacional. Hoje, ao contrário, o BB talvez viva o melhor momento de sua história. No primeiro semestre de 2004, lucrou R$ 1,4 bilhão e obteve um retorno sobre o patrimô-
nio de 24%, superior ao de grandes bancos pri-
vados, como Bradesco, Real-ABN e Unibanco. Em vez de receber dinheiro da União, o BB distribuiu R$ 450 milhões em dividendos aos seus acionis-
tas. Como recompensa, as ações do banco valorizaram-se quase 270% e subiram de R$ 8,25 para R$ 31,70 ? foi a maior alta entre todas as instituições financeiras.

Em qualquer empresa privada, o responsável por essa guinada seria premiado. No Banco do Brasil, uma instituição ainda sujeita às pressões políticas, aconteceu o con-
trário. Na terça-feira 16, o executivo Cássio Casseb pediu o boné e formalizou sua saída da presidência do BB. ?A ala sindicalista do banco e do governo não se confor-
mou com o fato de o presidente Lula, representante dos trabalhadores, ter escolhido uma pessoa de mercado para comandar o BB?, desabafou Casseb à DINHEIRO, na manhã da quinta-feira 18, quando ele já estava a caminho de uma praia no litoral paulista (leia entrevista exclusiva). ?Não dá mais, chegou a hora de voltar para casa.?

O caso Casseb foi a crônica de uma queda anunciada, que começou a tomar corpo logo que surgiram sinais de ?fogo amigo?. Primeiro, em julho deste ano, eclodiu o episódio do patrocínio de R$ 70 mil do Banco do Brasil a um show da dupla Zezé di Camargo e Luciano, destinado a arrecadar recursos para o PT ? embora tenha sido autorizado pelo executivo Henrique Pizzolato, diretor de marketing, a conta caiu nos ombros de Casseb. Depois, em agosto, a CPI do Banestado vazou operações financeiras de US$ 593 mil, que Casseb teria feito no exterior. Em setembro, foi a vez do caso Kroll, quando se soube que encontros de Casseb com executivos da Telecom Italia foram monitorados pela empresa de investigação. Foi a gota d?água. Naquele momento, ele decidiu sair e entregou o cargo ao ministro Antônio Palocci. A interlocutores próximos, Casseb, que enriqueceu e construiu uma sólida carreira no setor privado, com passagens pelo Citibank e pela Credicard, disse que não precisava nem iria mais se desgastar. Desde então, Palocci tentou convencê-lo a ficar. A última oferta foi a presidência do BNDES ? cargo que Casseb recusou. Agora, é possível que ele continue colaborando com o governo, nos conselhos de administração do Banco do Brasil ou do BNDES.

A troca de comando logo deflagrou uma intensa guerra de bastidores em Brasília. A presidência do Banco do Brasil é um dos cargos mais cobiçados do País, menos pelo salário mensal de R$ 25 mil do que pelo gigantesco poder de fogo de um mamute que administra R$ 240 bilhões em ativos. Interinamente, Palocci indicou para o lugar de Casseb o vice-presidente Rossano Maranhão, mas ainda falta efetivá-lo. O nome que mais agrada à ala sindical do PT é o do ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, mas ele esbarra numa dificuldade legal. De acordo com o estatuto do BB, o presidente do banco não pode ser uma pessoa sem curso superior, como é o caso de Berzoini. Um segundo nome é o de Sérgio Rosa, presidente do fundo de pensão Previ, que conta com o apoio do ministro Luiz Gushiken. Para fazer frente a ambos, Palocci lançou outra carta na mesa: a do executivo Nelson Rocha Augusto, de Ribeirão Preto, que comanda a BB-DTVM, distribuidora de fundos do Banco do Brasil. Com tanta disputa entre os caciques do PT, o mais provável é que Rossano Maranhão, em vez de interino, acabe ficando de vez.

INTERINO COM JEITO DE EFETIVO


Há 28 anos no Banco do Brasil, Rossano Maranhão é um executivo discreto e habilidoso, que prefere ouvir a falar. Como vice-presidente de Negócios Internacionais do BB, ele integrou a missão brasileira que em maio deste ano foi à China. Lá, revelou ao presidente Lula a abertura de uma linha de crédito de US$ 500 milhões para financiar o comércio bilateral. Ganhou a simpatia do presidente e a imagem de um técnico capaz. No mercado, Rossano também é visto como um executivo competente. ?Sua escolha sinaliza a continuidade com a gestão profissional?, diz Tomas Awad, da Itaú Corretora. No circuito de intrigas políticas, alguns o acusam de ter ligações próximas com o ex-presidente José Sarney e com Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro das campanhas tucanas. A aposta é que, se resistir ao fogo amigo, ele fica no cargo.