Economia

Saudades do futuro


O documentário Entreatos, de João Moreira Salles, com estréia prevista para sexta-feira 26, é obrigatório. O filme acompanha os quarenta dias que antecederam a eleição de Lula, em outubro de 2002. Pelas lentes do diretor de fotografia Walter Carvalho, vê-se a intimidade da campanha. É essencial para entender a recente história econômica e política do Brasil, a saga do metalúrgico barbudo que virou presidente. Começa com o candidato convencendo o empresário José Cutrale a gravar um depoimento de apoio, ainda no primeiro turno, e termina com Lula, já eleito, cercado por jornalistas antes de seu primeiro pronunciamento oficial. Entre um instante e outro, assiste-se às cenas íntimas de um homem carismático, um líder popular com um único paralelo entre os governantes do País: Getúlio Vargas. Mas Entreatos pode ser visto de uma outra maneira. Mostra como o poder subtraiu a mágica e a emoção de uma grande idéia, a ascensão de um operário ao Palácio do Planalto. A história correu mais que o filme. Ele é excelente, não envelheceu nesses 24 meses em que permaneceu na ilha de edição. Mas o cotidiano em Brasília, as relações do governo com a sociedade e a imprensa, sempre árduas, demoliram a emoção daqueles dias em que tudo era apenas uma vontade. Dois anos na Presidência fizeram mais estragos à imagem do PT do que 20 anos na oposição.

A bem da verdade, cabe salientar que o próprio Lula conhecia, desde sempre, o risco deste Ovo de Serpente. Em um dos momentos do documentário, a bordo do jatinho que o levava de uma cidade a outra, na maratona de 2002, ele diz: ?Tenho medo de me tornar prisioneiro da máquina de governo?. É uma frase que, hoje, soa premonitória. Em outro instante, às vésperas do debate final com José Serra, o marqueteiro Duda Mendonça aproxima-se de José Dirceu, sentado no sofá e suspira: ?Está terminando?. Dirceu responde: ?Não, está começando?. E, uma vez começado, adeus… o FMI, os juros, as alianças partidárias, o pragmatismo do poder, tudo ajuda a manchar uma emocionada trajetória. Sai-se da sala escura com uma incômoda sensação, a de que aquelas cenas ocorreram há 50 anos ? e foi apenas ontem. Muita coisa foi feita, evidentemente, e seria leviandade dizer que Lula mudou. Não, certamente não, e muitos dos que o cercam, como Dirceu e o senador Eduardo Suplicy, continuam a pensar como antes. São coerentes ? mas, como gostava de brincar Mané Garrincha diante de partidas difíceis, só faltou combinar com o adversário.

É como se houvesse saudades do futuro. Não se trata de demoli-lo de vez, porque Lula ainda tem dois anos de mandato, e a reeleição é uma possibilidade real. Há saída porque Lula e o PT sabem onde mora o perigo ? o difícil é enfrentá-lo. Entreatos revela que todos sempre estiveram conscientes do que viria depois de fechadas as urnas. Há momentos que parecem responder às críticas que brotariam mais tarde. O gosto de Lula pela bebida? ?No intervalo do trabalho, eu ia pro bar, tomava três, quatro pingas antes do almoço, comia em 15 minutos e ainda ia jogar bola. Voltava para a fábrica com o macacão todo melequento?, diz ele. A estrela plantada no Alvorada? ?Aquele palácio (o Alvorada) é triste porque o Fernando Henrique não joga bola, não dança e não bebe um gole.? A acusação de autoritarismo, ao propor a criação do Conselho de Jornalistas? ?Vou organizar o sindicato dos fotógrafos, vocês não têm ordem nenhuma?, brinca diante dos repórteres fotográficos. Entreatos é o mais bem acabado perfil de Lula por ele mesmo. Mas é também, para os sonhadores, um soco no estômago, a prova cabal de que oposição e situação são antônimos.