Economia

O discreto poder de Condoleezza


Um aperto de mão, um suave sorriso. Está resumido a estes dois gestos todo contato da diplomacia brasileira com a mulher mais poderosa dos Estados Unidos ? e, nessa medida, do planeta. Condoleezza Rice, indicada na semana passada secretária de Estado em substituição ao general Colin Powell, não pronunciou uma palavra sequer diante da comitiva brasileira que em junho do ano passado se reuniu por mais de duas horas com o presidente George W. Bush na Casa Branca. Um silêncio talhado ao seu feitio. Toda vez que houve alguém entre ela e Bush, visitantes estrangeiros ou auxiliares diretos do presidente, Condoleezza mais ouviu do que falou durante os quatro anos em que atuou como conselheira de Segurança Nacional.

Explique-se: a nova secretária de Estado sempre foi no mandato Bush-1 a primeira assessora a despachar a sós com o presidente pela manhã e a última a falar com ele sozinha no final do dia. É como se essa pianista fã de Brahms, ao mesmo tempo vaidosa e discreta aos 50 anos, se entendesse com Bush por música. Orgulhoso da intimidade, o presidente gosta de chamá-la por Condi e, simultaneamente, conceder-lhe todo o protocolo. ?Na doutora Rice, o mundo verá a força, a benevolência e a decência do nosso país?, afirmou Bush na terça-feira 16, durante a cerimônia em que promoveu a assessora. Ela retribuiu na mesma moeda. ?Sob sua firme liderança, senhor presidente, os Estados Unidos estão vencendo a guerra contra o terrorismo.?

Amiga de Colin Powell, a quem no passado foi subordinada, Condoleezza tem estilo diverso do antecessor. Enquanto ele foi um dos poucos globetrotters do governo Bush, percorrendo o mundo tentando mostrar a face mais liberal do governo ameri-
cano, ela ainda não deu sinais de que pretende despachar mais tempo em aviões e hotéis do que em Washington. Preocupado com questões comerciais, Powell outra vez não encontra paralelo na sucessora. A grande preocupação de Conoleezza é com a política de segurança nacional dos EUA e suas guerras. Questões como a Alca, que fizeram parte da agenda de Powell em sua última visita ao Brasil, não a emocionam.

É provável que primeiro o mundo conheça em Condoleezza a força. Ela é a formuladora, dentro da Casa Branca, da teoria de que o combate ao terrorismo demanda uma estratégia de guerra global. Também está por trás do conceito do eixo do mal, que enfileirou o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte como inimigos dos EUA. Acumulou dois apelidos ? anti-Kissinger e Princesa Guerreira ? e de ambos se orgulha. Condoleezza, afinal, jamais procurou dividir a presidência com Bush como fazia, na prática, o então conselheiro de Segurança Nacional Henry Kissinger nos tempos de Richard Nixon. Não titubeou, ao contrário, foi enfática na defesa da invasão do Afeganistão e, em seguida, do Iraque para justiçar os atentados de 11 de setembro.

Na qualidade de assessora, só dava palpites. A partir de sua nova sala no sétimo andar do Departamento de Estado, terá poderes para mover as tropas americanas. Para ela, chegar ao novo local de trabalho será fácil. A secretária mora no edifício Watergate, a menos de dez quadras de distância. A adaptação ao cargo é que são elas. ?Ser conselheira é muito diferente de atuar no mundo diplomático?, diz um funcionário do Departamento de Estado ouvido pela DINHEIRO. ?De uma vida fechada na Casa Branca passa-se à necessidade de negociar com o mundo.? A estréia de Condoleezza acontece nesta sexta-feira 19 e no sábado 20, quando ela estará ao lado de Bush no Chile, durante a reunião da Organização dos Países do Oceano Pacífico. Tentou-se montar um passagem dela pelo Brasil, mas a idéia não prosperou.

Aluna prodígio da Universidade de Denver, onde entrou aos 15 anos de idade e for-
mou-se aos 19 em Ciência Política, Condoleezza foi diretora para questões soviéticas no Conselho de Segurança Nacional no governo de Bush pai. Com a maioria republi-
cana no Senado, ninguém duvida que ela terá seu nome aprovado para se tornar a segunda mulher a assumir o posto, depois de Madeleine Albright, e a primeira negra a alcançá-lo. Uma vez lá, o mundo sentirá os efeitos do seu trabalho.

O MUNDO DE CONDI


AMÉRICA LATINA:
Nunca houve troca de idéias entre ela
e diplomatas do Brasil de Lula. Do
venezuelano Hugo Chávez, não gosta


IRAQUE:
Vai manter a linha dura. Defendeu
a invasão ao país e a guerra


CHINA:
Rejeita sistema de economia aberta com
política fechada, mas respeita poderio militar