Economia

O desabafo de Casseb


Cássio Casseb, ex-presidente do Banco do Brasil, sentia-se aliviado na manhã da quinta-feira 18, dois dias depois de deixar o comando da maior instituição financeira do País. ?Acabou meu serviço militar?, desabafou Casseb. A caminho de uma casa de praia no litoral norte de São Paulo, ele falou à DINHEIRO.

DINHEIRO ? Por que o sr. deixou o BB?
CÁSSIO CASSEB ? Fiz meu serviço militar. Vim para o governo para ficar dois anos e conhecer o setor público. Fiz toda minha carreira no setor privado, mas desconhecia o outro lado do balcão. Agora, é hora de descansar.

Houve fogo amigo?
Os sindicatos não se conformaram com o fato de o governo Lula, dos trabalhadores, ter trazido para o comando do BB um homem de mercado.

Esperavam uma ação mais voltada para o social?
O legal do BB é que dá para gerar resultado, sem perder de vista o lado social.

Os críticos dizem que sua gestão visou apenas gerar lucro para os acionistas.
A ação do Banco do Brasil subiu de R$ 8,25 para R$ 31,70 desde que eu assumi. Isso foi muito bom, porque criou uma percepção no mercado que o banco era e vai continuar a ser gerido de forma profissional.

Como se chegou a isso?
Foram vários eixos de mudança. O primeiro foi uma postura agressiva na área comercial, que nos permitiu ampliar a base de clientes em 5 milhões de pessoas. Além disso, mudei uma coisa com a qual eu não me conformava.

Que coisa?
O fato de o Banco do Brasil ser o maior banco nacional e o terceiro em repasses do BNDES. Em julho deste ano, pela primeira vez, superamos o Bradesco, com operações de R$ 1,7 bilhão.

Houve outras mudanças?
Além da agressividade comercial, valorizamos mais os funcionários. Antes da minha gestão, o banco distribuía 6,25% do lucro. Hoje, a parcela pode chegar a 11,25%, desde que todas as metas sejam atingidas. O lado social também não foi esquecido. Passamos de 400 mil operações de financiamento à agricultura familiar para 1 milhão, muitas delas no Nordeste. E a carteira de crédito para pequenas e médias empresas saltou de R$ 8,2 bilhões para R$ 16,4 bilhões.

Isso aumentou o risco?
Tudo foi feito com absoluto controle de riscos e os resultados do banco mostram isso.

O que mais o desgastou na presidência do BB?
Os sindicatos vão querer dizer que me derrubaram, alguns no governo também, mas o fato é que eu queria sair e já tinha pedido demissão ao ministro Antônio Palocci há mais de um mês.

Ele tentou segurá-lo?
Tenho convites para integrar dois conselhos: o do BB e o do BNDES. Vou estudar.

A crise com a ala sindical do PT começou na greve dos bancários?
Aquilo foi uma chateação. Mas o fato é que ao alinhar as negociações dos funcionários com a Federação Nacional dos Bancários eles conseguiram um
dissídio maior.

E o episódio Kroll?
Foi desagradável. Fui seguido, mas não era eu o alvo da investigação. Eles estavam buscando informações sobre a Telecom Italia. Eu apareci porque me encontrei com eles, como também me encontrei outras vezes com a Carla Cico, da Brasil Telecom. Faz parte do meu trabalho.

E as denúncias sobre recursos no exterior?
Todos os recursos que eu tenho estão devidamente declarados à Receita Federal.