Economia

Os oito ases da Fiesp


Podia ser apenas mais uma diretoria, mas acabou com cara de ministério. Na noite da segunda-feira 8, a Federação das Indústrias de São Paulo empossou nomes como Delfim Netto, ex-czar da economia no regime militar, Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, Ivoncy Ioschpe, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), e Benjamin Steinbruch, dono da CSN. A eles, se juntarão Viviane Senna, que é uma referência em ações sociais no País, Alfredo Rizkallah, ex-presidente da Bovespa, João Guilherme Ometto, um dos maiores usineiros do mundo, e Roberto Giannetti da Fonseca, responsável pela política de promoção de exportações no governo FHC. Com esses ases, Paulo Skaf, o novo presidente da Fiesp, quer chacoalhar a entidade e influenciar a condução da política econômica. ?Seremos uma instituição engajada, pró-ativa e com voz nas decisões comerciais e políticas?, disse Skaf. Responsável por 40% do PIB nacional, a Fiesp definhava nos últimos anos e era agente coadjuvante do debate econômico. Agora, com livre trânsito em Brasília e uma superdiretoria em São Paulo, Skaf acredita que poderá recuperar o velho prestígio. ?É importante que a indústria tenha peso nas decisões políticas?, reforça o economista Antônio Lacerda.

De fato, fazia tempo que não se via na Fiesp um presidente que circulasse bem dos dois lados do balcão, com muitos amigos no governo e um grupo de assessores ministeriáveis. Ele também parece disposto a usar esse poder para, sutilmente, tocar em questões sensíveis, como a gestão do câmbio, dos juros e mesmo nas negociações comerciais. ?Vamos ajudar a mudar a política econômica?, diz Delfim, que irá coordenar o Instituto Roberto Simonsen, centro de estudos econômicos da Fiesp. Se o aviso partisse de qualquer outra pessoa, pareceria presunção. Mas o fato é que Delfim, responsável pelo período de maior expansão da economia brasileira, o milagre dos anos 70, é ouvido tanto pelo ministro Antônio Palocci como pelo presidente Lula. Sua maior crítica ao modelo atual é a política de metas de inflação que obriga o Banco Central a adotar juros muito altos. ?O BC vem sendo terrorista?, diz. Outros pesos pesados da Fiesp, Steinbruch e Ioschpe, têm feito críticas pesadas à recente valorização cambial, que reduz a receita com exportações. Na área externa, a dupla Giannetti e Barbosa baterá de frente com o Itamaraty. Os dois defendem um governo mais duro com a Argentina e mais flexível com os EUA ? oposto do que vem sendo feito pela equipe de Celso Amorim. ?A Fiesp vai trabalhar para o Brasil ser mais ativo nas negociações bilaterais?, diz Giannetti.

Antes mesmo da posse, Skaf já havia fixado hora e data para fazer lobby. Todas as quartas-feiras, vai a Brasília negociar as reivindicações da indústria. Amigo pessoal do vice-presidente José Alencar e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o empresário também tem passe livre nos gabinetes do presidente Lula e do ministro Palocci. Graças a esse trânsito, a posse de Skaf foi a mais suntuosa da história da Fiesp, reunindo 4 mil empresários, Lula, dez ministros, o presidente do BC, Henrique Meirelles, seis governadores e vários parlamentares. Skaf cultiva o relacionamento com os poderosos, mas é também um homem de resultados. À frente da Abit, associação das empresas do setor têxtil, derrubou as cotas de importação de têxteis que bloqueavam as vendas brasileiras para a União Européia. Como vice-presidente do antecessor Horácio Piva, coordenou o grupo que criou o Refis. Agora, está diante de seu maior desafio: convencer um governo ainda conservador a implantar uma agenda econômica desenvolvimentista.