Economia

Lições argentinas


A loja de vinhos Baar localiza-se em um dos pontos comerciais mais elegantes de Buenos Aires, no início da avenida Santa Fé. Ali, na terça-feira 9, um senhor entrou no final da tarde e comprou uma dúzia de garrafas de um bom vinho argentino que lhe custou 160 pesos cada. Nos bons tempos da paridade cambial, quando os argentinos gastavam como se não houvesse amanhã, essa compra passaria despercebida. Agora não. ?Faz tempo que não tínhamos isso por aqui?, diz Germán Arballo, dono da loja e produtor de vinho no interior do país. ?Desde a crise, as pessoas não estavam comprando quase nada. Agora voltaram.? Longe dali, na sede da associação da indústria metalúrgica argentina, a atmosfera também é de retomada. ?Vejo todo mundo investindo, sobretudo as pequenas e médias empresas?, diz Manfredo Arheit, presidente da entidade que congrega 23 mil companhias. ?A demanda cresceu, mas o grande diferencial é a confiança. Ela voltou.? Eis aí, em duas imagens, um resumo da primavera argentina, estação do otimismo econômico e da reativação. A economia cresce a robustos 7,1% e a sensação desse crescimento está por toda parte. Ela se faz presente nas 50 mesas do café e restaurante Gran Victoria, a poucos metros da Casa Rosada. Pela localização estratégica, o Victoria virou um símbolo dos altos e baixos da vida portenha. Ali, o jovem restauranter Leonardo Ares constata que o movimento está ?pelo menos? 20% maior. ?A classe média voltou a gastar?, diz ele, entusiasmado. ?Depois de tudo que passamos, é incrível.?

Do ponto de vista brasileiro, o que acontece na Argentina é duplamente inacreditável. Afinal, de acordo com a cartilha econômica adotada no Brasil desde 1994, é inconcebível que uma economia que ?rompeu com o mercado? e suspendeu o pagamento da dívida externa esteja crescendo duas vezes mais do que o Brasil. A outra coisa difícil de entender é que o crescimento argentino, que bateu 8,6% em 2003, esteja se repetindo este ano. Afinal, os conservadores juravam que o ano passado havia sido apenas o espasmo de uma economia que chegara ao fundo do abismo. Ocorre que o suspiro está se repetindo e deve chegar a 2005 com força de 5% de crescimento anual. O resumo da ópera é que a Argentina deu calote, está crescendo acelerado pelo segundo ano consecutivo e se prepara, desde a semana passada, para retomar o pagamento de US$ 80 bilhões da dívida externa em default, com desconto de 50% sobre o valor de face. O pagamento dos títulos, além disso, será condicionado à arrecadação de impostos e ao crescimento da economia. Em outras palavras, parece que o crime compensa.

?Diga aos muchachos no Brasil que não somos um exemplo a ser seguido?, adverte o economista Ricardo Schefer, do Centro de Estudos Macroeconômicos. ?O crescimento de agora nos custou muito caro. Antes dele, o país esteve dois anos de férias.? A queda acumulada do PIB entre 1999 e 2002 foi de quase 20%; e mesmo agora a economia ainda se encontra nos níveis de 1998. ?Os brasileiros não sabem o que é isso?, diz Schefer. Entre as muitas coisas que os brasileiros desconhecem está a fórmula para crescer 7% ou 8% ao ano sem que o Banco Central sofra um ataque de nervos. Dias atrás, durante uma palestra em Buenos Aires, o economista Javier González Fraga, da Universidade Católica Argentina, apresentou uma tese simples para explicar o que acontece em seu país. González Fraga diz que a Argentina vive a melhor situação econômica em 40 anos, causada por uma combinação inédita de crescimento acelerado, baixa inflação, balança positiva e superávit fiscal de 3,9% do PIB. O grande segredo desse bolo sustentado de crescimento, diz González Fraga, são as taxas de juros pagas aos depositantes pelos bancos. Elas são de cerca de 3% ao ano, contra uma inflação de 4,9%. No passado recente, os bancos argentinos pagavam 12% e até 20% ao ano de juros sobre os depósitos dos clientes. Era melhor que no Brasil, onde um aplicador em fundos DI pode obter 13% ao ano. ?A grande novidade na Argentina é que não há mais estímulo para viver de renda?, sustenta o economista. ?Com essa taxa de juros ficou mais interessante colocar o dinheiro na produção.? Dinheiro de colchão, diga-se, porque as pessoas perderam a confiança nos bancos, guardam dinheiro em casa e não estão dispostas a pegar empréstimos pagando taxas de juros que variam entre 6% e 15%. Diante disso, a grande questão que se coloca ? em Buenos Aires como em Brasília ? é a sustentabilidade da nova onda de investimento. Os economistas dizem que se os bancos não voltarem ao circuito emprestando, o dinheiro do colchão vai acabar e o crescimento pode arrefecer, mas o ministro Roberto Lavagna, da Economia, faz outra conta. Até agora ele tem usado o dinheiro do superávit primário para estimular a economia com crédito oficial barato, mas também isso ele quer mudar. Depois que a Argentina formulou uma proposta para voltar a pagar seus credores, Lavagna imagina que o país será reintegrado ao circuito financeiro e os capitais e investimentos retornarão gradualmente. Pode ser. Mas pode ser também que isso não funcione, que os credores recusem os novos títulos com desconto e que a Argentina continue como país-pária do mercado internacional ? um pária que cresce 7% ao ano, com baixa inflação e rápida redução de desemprego. Quem vive nos países vizinhos sabe que a vida pode ser bem pior do que isso.

2004, O MELHOR ANO EM DÉCADAS
Indicadores do País, comparados a 97

Ano

1997

2004

Crescimento

8,1 %*

7,1 %*

Inflação

0,5 %

4,9 %

Balança

– 2,3 %*

9,5 %*

Superávit

0,5 %*

3,9 %*

Juros

7,0 %

3,0 %

* em % do PIB