Economia

A herança do mito

Yasser Arafat viveu e morreu por uma causa: a criação do Estado palestino. Em torno desse ideal, galvanizou os desejos de milhões de pessoas do mundo árabe. Na seu longa trajetória, que se iniciou em 1964, com a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), e terminou na última quinta-feira, num hospital em Paris, Arafat conquistou seguidores, fez inimigos mortais e também amealhou uma bilionária soma de recursos, através das doações feitas por simpatizantes da causa palestina. Por isso, sua morte deflagrou duas corridas paralelas. A primeira, em torno do poder, começou a ser definida horas depois, logo que Abu Mazen, aliado de Arafat, foi confirmado presidente interino da OLP. A segunda, muito mais complexa, diz respeito à divisão da gigantesca fortuna construída por Arafat nos últimos 40 anos. Cálculos modestos apontam que seu patrimônio seria de US$ 300 milhões, o que o colocaria como o oitavo líder político mais rico do mundo, atrás de figuras como Saddam Hussein, do Iraque, e da família Suharto, da Indonésia. No entanto, há também estimativas de que Arafat poderia controlar até US$ 6,5 bilhões, em contas na Suíça e no Caribe. ?O sistema de arrecadação de recursos na Palestina nunca foi transparente e Arafat sempre usou essas verbas para comprar apoio das facções políticas e se manter no poder?, avalia o escritor palestino Said Aburish, que produziu biografias não autorizadas de Arafat e também de Saddam Hussein.

Devastados pelo conflito com Israel, os territórios palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia abrigam 3,4 milhões de pessoas, com uma renda anual média de US$ 1,1 mil. Lá, a riqueza per capita encolheu 6% desde 1993. Como então, numa região tão pobre, Arafat conseguiu reunir tanto dinheiro? Paradoxalmente, os recursos vieram dos que defendem o Estado palestino e também de Israel. Desde 1994, as doações externas, especialmente de fontes árabes, somaram US$ 5,5 bilhões. Além disso, o governo de Jerusalém transfere US$ 30 milhões mensais à Autoridade Palestina, referentes a impostos dos produtos consumidos pelos palestinos. Com o auxílio de seu contador Mohamed Rachid, Arafat transferiu parte dos recursos e usou o dinheiro para financiar ataques contra Israel e também para lançar negócios em vários países ? Arafat era dono de uma empresa telefônica na Tunísia, de uma empresa de cimento no Golfo Pérsico e de um cassino em Jericó. Além disso, nas compras de armas provenientes do Irã, havia comissões desviadas para contas secretas. Isso não significa que Arafat ostentasse uma vida nababesca. Até o fim de seus dias, ele viveu sem luxo, escondido num bunker na cidade de Ramallah, na Cisjordânia. Aparentemente, viveu e usou grande parte do dinheiro em função da causa palestina. No entanto, agora é possível que a maior beneficiária da herança seja Suha, a mulher de Arafat, de 34 anos, que circula pelo jet-set europeu e já foi investigada pelas transferências milionárias que costuma fazer em bancos suíços.

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