Economia

Crescimento esmagado


Os números são inequívocos. Calculados pelo IBGE, eles mostravam, na semana passada, que a produção industrial brasileira cresceu 9,% entre janeiro e setembro. Apurados pela CNI, apontavam no mesmo período para um crescimento de 16,87% nas vendas da indústria. Os dois indicadores somados registravam que a economia está em rápida expansão, embora o ritmo tenha arrefecido em setembro. Boa notícia? Nem tanto. No momento em que o País calcula estar crescendo entre 4% e 5% ao ano, abrindo a possibilidade de expansão de emprego e renda, há pessoas em Brasília que vêem nisso um excesso condenável. Nesta semana, quando o Copom se reunir para discutir a taxa de juros, dá-se como certo que ela será elevada de 16,75% para 17%. ?É óbvio?, diz o economista Delfim Netto. ?Se o Brasil está crescendo 4,8% e o BC acredita que não pode crescer mais que 3,5%, vai cortar a demanda.?

Eis o problema. Desenvolvidos pelo economista John Taylor, subsecretário do Tesouro americano, alguns modelos usados pelo BC sugerem que a economia brasileira está operando acima do seu ?produto potencial?, uma espécie de teto além do qual apareceria a inflação. Esse limite de 3,5% de crescimento não foi explicitado nos documentos do Banco, mas existe ? e costuma aparecer nas palavras dos diretores do BC e nas entrelinhas dos seus comunicados. ?O ritmo acelerado de preenchimento do hiato do produto representa um risco importante à convergência da inflação para a trajetória de metas?, afirma, em bom economês, o relatório de setembro do Copom. Hiato de produto significa, em português, a diferença entre o PIB real e o PIB potencial estimado pelo BC. O fato de que ele esteja sendo ?preenchido? sinaliza, para o Copom, que a economia está batendo no teto e tem de ser contida antes de gerar inflação. ?Não há esse risco?, discorda o ministro Guido Mantega, do Planejamento. ?O governo está trabalhando para que haja condições de crescimento.?

Dias atrás, a fração do governo que Mantega representa reuniu por nove horas, em Brasília, um grupo de oito economistas associados com o que se chama de esquerda, ou desenvolvimentismo. Era gente como João Sayad, Paulo Nogueira Batista e Antonio Barros de Castro. Discutiu-se, diante de um ministro atento e silencioso, o potencial de crescimento da economia brasileira. Ninguém concordou com o teto de 3,5% marcado pelo BC ? embora seja claro, para todos, que os investimentos têm de crescer para dar conta da expansão da demanda. O grupo também tem reservas quanto à capacidade de modelo do BC de refletir o que acontece nas fábricas. ?A opinião geral é de que esse número é rígido, enquanto a economia real é flexível?, diz o economista Julio de Almeida, do Iedi, um dos presentes ao encontro. O executivo Boris Tabacof, da Suzano, exemplifica a diferença entre prática e modelagem econômica. ?Se o empresário achar que tem mercado, ele arruma um jeito de ampliar a produção?, diz ele. ?Brasília não entende disso.?

O debate esquentou com a divulgação, na terça-feira 9, do estudo mensal da CNI sobre utilização da capacidade instalada na indústria. Ele mostrou que, na média, as fábricas operaram em setembro com 83% da sua capacidade de produção. O que isso significa? ?É uma excelente notícia?, diz Flávio Castelo Branco, economista da CNI. ?Capacidade ociosa é sintoma de crise. Fábrica ocupada é sinal de crescimento.? Para quem tem medo dos ?gargalos?, ele avisa que os setores com maior índice de ocupação são aqueles que mais estão investindo. É a velha lógica do capitalismo: aumento de demanda leva ao investimento e à elevação da produção. O contrário disso é a Cama de Procusto do Banco Central. Assim como o personagem da mitologia, que cortava as pernas das pessoas para que se encaixassem nas medidas do móvel que criara, o modelo do BC tenta enquadrar a economia do Brasil em uma fôrma menor do que ela. Pode conseguir, mas vai ter de amputar-lhe as pernas.