Economia

China pede tudo


O romantismo, de uma vez por todas, cedeu a vez ao pragmatismo nas relações comerciais entre o Brasil e a China. Este é o primeiro resultado da visita de cinco dias ao País, iniciada na quinta-feira 11, do presidente chinês Hu Jintao. À frente de uma comitiva de 300 empresários, ele desembarcou muito mais disposto a fazer pedidos comerciais e diplomáticos do que em perder tempo com a retórica dos salões. Também veio oferecer algumas vantagens de acesso ao mercado chinês, mas de olho principalmente em matérias-primas. O que Jintao mais quer é que o Brasil reconheça seu país como uma economia plena de mercado. Caso essa posição se espalhe pela maioria dos países com os quais a China mantém relações comerciais, isso poderia esvaziar as 12 investigações por prática de dumping que os chineses sofrem neste momento na Organização Mundial de Comércio (OMC). ?A China ainda não é efetivamente uma economia de mercado?, disse à DINHEIRO o embaixador Mário Vilalva, chefe do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty. ?A presença forte do Estado na definição dos preços mostra que o país ainda está em transição.? Como moeda de troca para a concessão do status de economia livre, o presidente chinês ensaia liberar a entrada da carne brasileira em seu território. Previsões pessimistas dão conta de que o Brasil poderia exportar US$ 600 milhões a mais, por ano, com essa autorização.

O presidente Lula convidou seu colega Jintao para um churrasco na Granja do Torto, no sábado 13. Ali eles deveriam discutir, ainda, a abertura do mercado chinês para as carnes de frango e suína, além de investimentos chineses aqui nos setores de siderurgia, mineração e ferrovias, que podem alcançar US$ 8,5 bilhões. ?Os projetos ainda não saíram porque o governo está batendo a cabeça em relação às Parcerias Público-Privadas?, acusa um alto funcionário do Ministério do Planejamento. Há três semanas, porém, uma equipe de especialistas do Ministério do Comércio chinês esteve no Brasil para verificar as condições de investimentos para a Transnordestina. O governo brasileiro estima em US$ 1,2 bilhão a construção da ferrovia. E esperava que os chineses a bancassem pela PPP. Na hora de discutir os pontos do acordo, o que se viu é que somente o maquinário seria oferecido por Pequim. O Brasil entraria com o dinheiro. ?A China não será o Banco Mundial do Brasil?, disparou à DINHEIRO Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil-China. ?Não queremos, não podemos e nem oferecemos isso.?

Neste momento, as parcerias entre os dois países por meio de acordos bilaterais já acumulam negócios no total de US$ 6 bilhões. ?Somos economias complementares?, atesta Renato Amorim, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China. Há muitos entraves, no entanto, para a entrada de investimentos chineses no País. ?A maior queixa dos chineses é a dificuldade para se obter visto de negócios no Brasil?, diz Renato Amorim. Pesa, ainda, a diferença cultural, da língua e a dificuldade que os chineses têm de entender o emaranhado da legislação societária brasileira. ?As grandes empresas chinesas sempre foram controladas pelo governo?, afirma a advogada Heloísa Nader, responsável pela filial do escritório em Pequim. ?Para eles é muito difícil dividir o comando, se adequar à regras societárias.?

Acima de todas as dificuldades, no médio e longo prazos a estimativa é de que o atual superávit de quase US$ 2 bilhões que o Brasil tem com a China cresça em até 52%. Hoje, o país recebe cerca de 6% das nossas exportações, importando mais de US$ 4,5 bilhões. As vendas brasileiras para a China entre 1999 e 2003 cresceram 560%. Na mão contrária, a expansão foi de 150%. Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústria de Base (Abdib), não vê riscos em ampliar as negociações com a China, mas pede que o governo exija uma contrapartida. ?Temos de qualificar esse investimento estrangeiro?, disse Godoy. ?Se essas empresas vierem para investir com dinheiro do BNDES, não adianta. Esse investimento tem de acrescentar valor, pois a grande deficiência do Brasil hoje é justamente a falta de crédito.?

?RELAÇÃO DE RISCO”

A Gradiente já está na China. Tem um escritório em Shezen, o maior pólo mundial da indústria eletrônica. Está lá para comprar e fazer parcerias, talvez fabricar, no futuro. Eugênio Staub, presidente da empresa, tem opiniões experimentadas sobre os parceiros-rivais:

?Há riscos na relação, por causa do câmbio e do preço da mão-de-obra. É um desafio para a indústria brasileira. Vamos ter de aprender a somar valor em vez de bater de frente.”

?A indústria brasileira já enfrentou o Japão e a Coréia. Agora é a China. Ela é uma grande base industrial, mas não tem marca nem distribuição. Vamos descobrir como tirar partido disso.”

?Temos de negociar direito, caso a caso. Não somos a África, que precisa aceitar qualquer coisa. Os empresários chineses são jovens e há muitos aventureiros.”

?O que queremos em troca do reconhecimento da China como economia de mercado? Reconhecimento da vigilância sanitária brasileira, para que eles parem de criar problemas com a nossa carne, e apoio para obter uma cadeira no conselho de segurança da ONU.?