Economia

Todo poder a Bush


O mundo esperava todo tipo de resultado nas eleições americanas, mas foi impossível esconder a perplexidade diante da avalanche de votos a favor de George W. Bush ocorrida na terça-feira 2. Num desempenho que desnorteou analistas, humilhou institutos de pesquisas e selou qualquer brecha para contestações, o velho presidente dos Estados Unidos tornou-se o novo presidente dos Estados Unidos quebrando recordes históricos um atrás do outro. Bush arrebatou 59 milhões de votos diretos e tornou-se o candidato mais votado da his-
tória americana. Superou em 3 milhões de cédulas a contagem do adversário democrata John Kerry, apagando em definitivo a derrota por 500 mil votos para o democrata Al Gore em 2000. Desta vez, obteve a preferência de 51% do eleitorado, contra 48% na primeira eleição. Fez 274 delegados no Colégio Eleitoral, contrariando previsões de que não passaria de 250. Noutro fato histórico raro, liderou o partido republicano na ampliação de suas maiorias na Câmara e no Senado. O presidente obteve, ainda, o direito de indicar, ao longo do mandato, três juízes para a Suprema Corte.

Surfando a onda conservadora, o comandante-em-chefe nunca esteve tão forte. ?A América falou?, resumiu Bush diante da vitória triunfal. Foi um recado direto. A legitimidade de seu primeiro mandato, conquistado por uma decisão da Suprema Corte, foi posta em dúvida até o dia da nova eleição. Quando a América falou, descobriu-se que ela e seu presidente haviam se tornado, enfim, uma entidade indissociável. Bush é conservador? Assim é a América. A América quer impor seus valores ao mundo? ?Eu estou pronto para liderar os americanos?, responde o próprio Bush. Tão pronto que já tem tudo preparado para assinar o primeiro da série de cheques em branco que a vitória eleitoral lhe concedeu. Um pedido de mais US$ 70 bilhões para incrementar a guerra do Iraque deve chegar ao Congresso nos próximos dias. A tarefa de conseguir o dinheiro, que vai elevar a conta total da ação para US$ 225 bilhões, ficou amplamente facilitada com a maioria republicana nas duas casas. ?Nossos comandos terão tudo o que precisam para completar sua tarefa?, disse Bush na quinta 4, na coletiva na Casa Branca.

Nos próximos dias, num arranjo conservador intramuros, serão anunciadas mudanças na equipe presidencial. O secretário de Estado Colin Powell, considerado moderado, poderá ser substituído pela conselheira de Segurança Nacional, Condoleeza Rice, uma das vozes mais agressivas da política externa americana. Bush não parece disposto a deixar dúvidas sobre o caráter do seu segundo mandato. Será um aprofundamento do belicismo que se viu no primeiro. ?Bush é um radical que tenta redesenhar uma região inteira do mundo pelas armas?, atesta John Mearsheimer, diretor do programa sobre Política de Segurança Internacional da Universidade de Chicago.

Na economia interna, a continuação da agenda liberal faz parte de seus planos imediatos. Bush já avisou que vai promover uma nova rodada de cortes de impostos e a redução da presença do Estado nos serviços de previdência social e atendimento médico para famílias de baixa renda. ?O custo de não fazer nada será muito maior?, justificou na entrevista coletiva. Parece importar pouco a ele ter assumido o país, em 2000, com um déficit orçamentário igual a zero e apresentar, quatro anos depois, um buraco de US$ 400 bilhões nas contas públicas. Também não o inquieta o fato de esse déficit ter sido feito não em gastos sociais, mas principalmente em despesas militares. ?O que precisamos é fazer a economia crescer. Se crescer, vai haver mais receita no Tesouro?, simplificou. Com as ações sociais do Estado em baixa, papéis de companhias dos setores de energia, segurança e farmacêutico dispararam na Bolsa de Nova York com sua reeleição. Dono de maioria congressual, Bush está livre para conceder uma autorização para a prospecção de petróleo numa reserva ambiental no Alaska.
 

As muitas pendências comerciais dos americanos serão resolvidas à base do típico maniqueísmo do presidente. Ele age como um capitalista selvagem cujos interesses estão à frente de quaisquer considerações multilaterais. Os efeitos dessa política serão sentidos diretamente pelo Brasil no prosseguimento das negociações da Alca (leia mais). Com a Europa, os EUA manterão alianças estratégicas para que foros como a OMC defendam mecanismos de proteção comercial e barreiras tarifárias. Na ONU, no entanto, os amigos serão aqueles que apoiarem a continuação da Guerra do Iraque. ?A Europa vai continuar criticando Bush como antes, mas acho que agora ele não está nada disposto a ouvir?, ironizou o primeiro-ministro da Suécia, Goeran Persson.

A acachapante vitória dentro dos EUA não escondeu a situação de bagunça em que se dá a eleição americana. Com 50 regras diferentes, uma para cada Estado da federação, os eleitores usaram seis tipos diferentes de cédulas. Havia Estados em que era possível se registrar no mesmo dia da votação. A batalha final aconteceu em Ohio, Estado em que Bush esteve 20 vezes nos últimos seis meses. Ali, ele abriu mais de 150 mil votos de vantagem sobre Kerry, mas nem todos os votos foram contados. Ficaram de fora as cédulas provisórias, cerca de 200 mil. O senador democrata foi instado por seu vice, John Edwards, a não reconhecer a derrota até que todos fossem computados. Isso iria demorar cerca de 12 dias. Abatido pelos resultados nacionais, nos quais conseguia liderar apenas entre mulheres, negros e jovens, e frustrado com a inversão, nas urnas, dos prognósticos de boca-de-urna que lhe indicavam uma vitória folgada, Kerry percebeu que só havia uma coisa a fazer. Ligou para o presidente na manhã da quarta 3 e endossou ao presidente a mensagem dada pela América: mais quatro anos para Bush.

A NOVA AMÉRICA



US$ 70 bilhões serão pedidos ao
Congresso para incrementar as ações
militares na Guerra do Iraque

Cortes de impostos tendem a aumentar o
déficit orçamentário de US$ 400 bilhões

Crescimento do PIB para este ano é de 4%, mas de apenas 2% para 2005

Previdência social e serviços de saúde começarão a ser privatizados

Ações de companhias dos setores de energia, segurança e farmacêutico
com tendência de alta