Economia

Dois homens, duas visões


Nesta terça-feira 2, um número estimado em 130 milhões de americanos irá às urnas para escolher o próximo presidente dos Estados Unidos, talvez o homem mais poderoso do mundo. Seria de se esperar que essa eleição, que tem enormes implicações dentro e fora dos EUA, fosse um processo lógico, transparente e democrático, como corresponde ao país que se apresenta como o campeão do mundo livre. Curiosamente, não é o caso. De tão peculiares e confusas, as eleições americanas são melhor descritas pela palavra bizarra ? e seu resultado, sobretudo em disputas apertadas, está longe de ser confiável. As esquisitices são muitas. Em 32 Estados americanos, por exemplo, já estão em curso as eleições antecipadas para quem quiser votar antes de 2 de novembro. Ninguém mais no mundo faz isso. Também não há cédulas nacionais padronizadas e cada Estado ou condado decide sua própria legislação eleitoral. Se isso já não fosse uma boa receita para confusão, há ainda o fato de empresas privadas estarem encarregadas de cadastrar eleitores. E assim como nas melhores repúblicas de bananas, sobram denúncias sobre pessoas (em geral integrantes de minorias pobres) que são impedidas de votar. Em qualquer outro lugar do mundo isso tudo seria objeto de desdém e de piada, mas na maior economia do mundo passa por tradição.

Na semana passada, em meio a 121 pesquisas indicando empate entre Bush e John Kerry, voltaram a emergir evidências de que a apuração da eleição será problemática. Na quarta-feira 27 descobriu-se que um lote de 60 mil cédulas enviadas pelo correio para eleitores da Flórida simplesmente sumiu. A Flórida foi o Estado em que Bush efetivamente ganhou a eleição de 2000, em meio a pesadas acusações de fraudes e erros de contagem. Lá, seu irmão é governador. Como uma enquete divulgada na semana passada mostrou que 55% dos americanos esperam novas fraudes naquele Estado, cada um dos partidos mobilizou um exército de advogados para lançar ou proteger-se de contestações. Jimmy Carter, o ex-presidente americano, prêmio Nobel que viaja o mundo como observador de eleições alheias, já disse que o sistema eleitoral da Flórida é uma espécie de queijo suíço, mas ninguém parece dar ouvidos. Os americanos oferecem aulas de democracia para o mundo, mas não gostam de fazer a própria lição de casa.

É sabido que no país da democracia pouco mais de 50% dos possíveis eleitores se importam em votar, preferindo o verbo comprar. Mas este ano, devido à polarização causada por Bush, estima-se que o número de eleitores crescerá 20%. Questões como impostos, protecionismo e gastos públicos estão na linha de frente, mas os grandes temas desta eleição são ideológicos. Kerry e Bush batem de frente sobre segurança nacional, guerra do Iraque, aborto, casamentos homossexuais e educação religiosa, entre outros assuntos. Desde 11 de Setembro, Bush deu uma guinada à direita em busca de enraizamento nos setores mais conservadores da sociedade americana. Virou o comandante em chefe e quase o pastor em chefe do país, produzindo uma divisão ideológica inédita. A eleição virou uma disputa entre o bem e o mau. Com isso cresceu o debate sobre o sistema eleitoral. Em 2000 havia nos EUA 3 mil sites de discussões sobre a eleição, que este ano saltaram para 17 mil.

A expansão do debate, contudo, tem pouco resultado prático, porque os americanos não votam de forma direta. Eles elegem 538 integrantes de um colégio eleitoral que escolhe o presidente. Se Bush ganhar na Pensilvânia, todos os 25 delegados do Estado votam por ele no colégio, ainda que sua vitória nas urnas tenha sido por um único voto. E na maioria absoluta dos 51 Estados já se sabe quem vencerá a eleição: a Califórnia é historicamente democrata, o Texas é republicano, e assim por diante.

Descontada a hipótese de um terremoto político, os eleitores democratas do Texas irão às urnas inutilmente. Nesse jogo de cartas manjadas, quem decide a eleição é a meia dúzia de Estados nos quais nenhum dos partidos tem maioria histórica. Neles, até o final da semana passada, Kerry parecia estar ganhando por pequena margem. Em 2000, Al Gore teve 200 mil votos a mais que Bush e não levou. Este ano Kerry quer levar, mesmo perdendo.