Economia

A herança maldita de Palocci


Vista de longe, a eleição municipal de Ribeirão Preto tinha tudo para ser uma barbada. Terra natal de Antônio Palocci, a cidade, governada pelo PT desde 2000, é uma das mais prósperas de São Paulo e, graças à euforia do setor de álcool, vive um boom de receitas tributárias. Por ano, a cidade, com PIB de US$ 3,5 bilhões, arrecada R$ 500 milhões. Além disso, nacionalmente, o ministro da Fazenda tem sido apontado como um dos nomes mais populares do governo Lula. Seria natural, portanto, que ele transferisse parte de seu prestígio pessoal ao candidato Gilberto Maggioni, do PT. Porém, depois de contados os votos dos 359 mil eleitores da cidade, Ribeirão Preto foi palco de um dos piores revezes sofridos pelo PT. Pela primeira vez desde 1992, o partido sequer chegou ao segundo turno ? Maggioni, mesmo tendo feito a campanha mais cara, estimada em R$ 7 milhões pelos adversários, ficou atrás de Welson Gasparini (PSDB) e de Baleia Rossi (PMDB). Quando se investiga de perto o porquê de uma derrota tão dura, a razão que se aponta localmente é a herança deixada em Ribeirão Preto pelo atual filho ilustre: o ministro Palocci. ?Ele representa o presente e o eleitor preferiu o passado?, raciocina Antônio Vicente Golfeto, economista da associação comercial.

Palocci foi prefeito pela primeira vez em 1992. Elegeu-se novamente em 2000, mas deixou o cargo em novembro de 2001, na transição entre os governos FHC e Lula. Foi no segundo mandato que os problemas da gestão Palocci apareceram. Mesmo tendo assumido o cargo com R$ 70 milhões em caixa, fruto da privatização da telefônica Ceterp, o ex-ministro deixou a Prefeitura com um déficit R$ 100 milhões ? o maior de todo o Estado de São Paulo. Hoje, a estimativa da Comissão de Finanças da Câmara de Vereadores é de um rombo fiscal de R$ 150 milhões. Há duas explicações: o inchaço da máquina municipal, com a criação de 900 cargos comissionados, e uma sucessão de projetos que custaram caro, mas terminaram abandonados. Um deles, o mais ambicioso, previa a construção de uma ponte nos moldes da Golden Gate, de São Francisco, sobre o córrego Ribeirão Preto. Era o projeto Vale dos Rios. Depois de gastar cerca de R$ 5 milhões com estudos, desapropriações e demolições, ficou no lugar apenas uma praça, num terreno de dois mil metros quadrados. ?É a praça da vergonha?, dispara o vereador Nicanor Lopes. Outro projeto abandonado é o da Fábrica de Equipamentos Sociais, onde seriam feitos pré-moldados de concreto para as obras da Prefeitura. Dois anos e R$ 5 milhões depois de criada, a fábrica foi fechada. Além disso, pouco antes de deixar o cargo, Palocci se viu forçado a retirar uma concorrência pública para a construção da ?avenida do contorno? de Ribeirão Preto. O motivo: suspeitava-se que a obra, orçada em R$ 35 milhões, estaria superfaturada.

Na reta final da disputa, Maggioni, o candidato do PT, chegou a colocar dois mil ?militantes? pagos nas ruas. Fez ainda três showmícios, com Zezé di Camargo e Luciano, Edson e Hudson e Rio Negro e Solimões. Confiante, o próprio Palocci interrompeu uma viagem a Washington, foi a Ribeirão Preto votar e apostou duas garrafas de vinho com o presidente Lula, garantindo que seu pupilo passaria para o segundo turno. ?Gastaram mais do que todos os adversários juntos?, conta o advogado Welson Gasparini Júnior, filho do candidato tucano. No entanto, nos últimos dias já não se viam cartazes de Maggioni ao lado de Palocci. Alguns foram colocados no início da disputa, mas acabaram sendo retirados porque não agregavam votos. Ao contrário. Uma das explicações: o eleitor não perdoou Palocci por ter quebrado sua palavra ? logo que foi eleito, ele registrou um documento em cartório prometendo jamais abandonar a Prefeitura. Mesmo dentro do PT local, que perdeu quatro vereadores, o ministro passou a ser criticado. ?Não podemos ser apenas o partido do paloccismo?, disse o vereador Beto Cangussú, um dos poucos reeleitos.

As antigas amizades também custaram caro à imagem do ministro em Ribeirão Preto, especialmente a do consultor Rogério Buratti, ex-secretário de Palocci e diretor da empreiteira Leão Leão. Buratti tornou-se conhecido quando eclodiu o caso Waldomiro Diniz ? o ex-assessor de Palocci foi apontado como intermediário da renovação de um contrato entre a Caixa Econômica Federal e a multinacional americana Gtech. Depois disso, o Ministério Público obteve autorização judicial para interceptar suas ligações e, segundo os procuradores, surgiram indícios de que Buratti estaria no centro de um esquema de licitações fraudadas para varrição do lixo em várias cidades da região, inclusive Ribeirão Preto. Além disso, o próprio Palocci é réu em várias ações populares encaminhadas aos promotores. Numa delas, o objeto é uma licitação para compra de merenda escolar que teria sido dirigida a um grupo de empresas de Santo André: Gesa, Cathitha e Thathica. Isso porque as especificações exigidas pelo edital ? molho de tomate refogado e peneirado com ervilhas numa lata de 330 gramas ? só eram atendidas pelas empresas do ABC paulista.

Em Ribeirão Preto, cidade com 13 mil desempregados conhecida como a capital da Califórnia brasileira, o sucessor do PT terá a missão de reconstruir as finanças da Prefeitura. Alguns fornecedores de alimentos não recebem pagamentos há cinco meses. Maggioni, o atual prefeito, vem sendo pressionado pela Câmara dos Vereadores para revelar o valor corrente do déficit municipal. A esperança dos candidatos à sucessão vem do agronegócio. Os preços da cana estão subindo nos mercados interno e externo e há mais de 20 novas usinas sendo construídas em São Paulo. No entanto, o ministro Palocci, que tem sido retratado pelos credores como o bom aluno na gestão das finanças nacionais, já não tem a mesma força em sua cidade natal. Procurados pela DINHEIRO, Palocci e Maggioni não comentaram a derrota.

 


Comitê:
Campanha milionária


Abandono:

Terreno vazio e sem indústria


Lonas:
Fábrica pública fechada