Economia

A conexão brasileira em Moscou


Num primeiro olhar, a mítica Rua Arbat, em Moscou, é apenas um calçadão comercial com muitas banquinhas de souvenirs. Tem matrioskas, as bonecas que se encaixam umas dentro das outras, chapéus de cossaco e recordações a granel dos tempos do comunismo. Na Rússia convertida ao capitalismo, a marca Coca-Cola é onipresente e ícones como Hard Rock Café e McDonald?s estão representados. Tudo limpo e organizado, embora um olhar atento revele figuras sombrias, como a da senhora que recolhe garrafas de cerveja no lixo ou a do soldado inválido, de muletas e pires na mão. Ouve-se inglês, italiano e alemão na Rua Arbat. Mas ouve-se também a língua local, falada bem alto nos telefones celulares que simbolizam a Nova Rússia. É isso que faz deste calçadão de lajotas avermelhadas algo mais do que uma armadilha para turistas. Foi neste local, eternizado no romance Os Filhos da Rua Arbat?, de Anatoli Ribakov, que, em 1986, uma geração de empreendedores clandestinos exigiu com violência o direito de vender suas matrioskas em praça pública. Quando o primeiro russo montou sua banquinha no meio da Rua Arbat, rompeu-se um dique e ergueu-se a onda de mudanças que até hoje empurra a Rússia para frente. E sob o governo de Vladimir Putin, a onda agora parece ganhar velocidade. A Rússia cresce ao ritmo de 7% ao ano, vive um boom imobiliário que põe o metro quadrado no centro de Moscou a US$ 2 mil e troca petrodólares por carros importados. É uma onda grande demais para ser ignorada. Por isso, na semana passada, o Brasil credenciou-se para surfá-la. Um pelotão de 35 empresas de calçados, tecidos, vestuário e joalheria desembarcou em Moscou para participar da Brazil Fashion Exhibition, evento de divulgação da moda brasileira coordenado pela Agência de Promoção de Exportações do Brasil (Apex). Aberta com um desfile de moda dos estilistas Alexandre Herchcovitch, Amir Slama (Rosa Chá) e Walter Rodrigues, a feira reuniu pesos pesados, como Alpargatas, Grendene, Teka, Santista e Hering. O evento custou US$ 750 mil, pouco perto da expectativa de negócios. ?A Rússia é um país de muitas oportunidades para quem souber encontrar o nicho certo e construir relações sólidas?, diz Juan Quirós, presidente da Apex.

O potencial é mais claro no setor de calçados, que movimenta US$ 6 bilhões por ano e triplicou a importação de pares brasileiros em três anos. Segundo a consultoria russa Step by Step, contratada pela Apex para fazer uma extensa pesquisa de mercado, a categoria de calçados de US$ 100 a US$ 200 está ?virtualmente desocupada?. Quando se trata de roupas, o que há por enquanto é entusiasmo e intuição. ?As mulheres russas são muito parecidas com as brasileiras?, avalia Walter Rodrigues. ?Ambas são vistosas e sentem-se bem em roupas sensuais?, observa
o estilista, que tem sua marca vendida em 11 países e faz agora sua primeira investida no Leste Europeu. Se isto é verdade, as confecções brasileiras estão perdendo dinheiro. Nos primeiros nove meses de 2004, apenas um carregamento de produtos têxteis brasileiros desembarcou na Rússia, movimentando menos de US$ 1 milhão ? uma gota d?água num oceano de US$ 20 bilhões anuais. Há, no entanto, trunfos mais sutis. ?O Brasil, em geral, e o presidente Lula, em particular, são considerados simpáticos aqui?, conta o consultor Yuri Ribeiro, especialista em comércio bilateral Brasil-Rússia.

Filho do líder comunista Luiz Carlos Prestes, Ribeiro é um observador atento da realidade russa. Para ele, a maior dificuldade para um estrangeiro é operar no que ele chama de ?capitalismo kgbista?. Estima-se que 50% da economia russa funcione na informalidade. ?Os mais jovens querem mergulhar nessa água turva e procurar seu peixe, enquanto as gerações criadas sob o comunismo têm saudade do tempo em que o peixe era posto na mesa pelo Estado?, reflete Yuri. ?Entre identificar um produto no Brasil e vendê-lo na Rússia passam-se, no mínimo, seis meses?, testemunha Pavel Lavrenthiv Grass, funcionário do grupo Smart-M, responsável por negócios com o Brasil. Entre os entraves, Grass cita a extensa documentação exigida para obter a certificação de qualidade e problemas com amostras barradas pela alfândega. Mas há mais do que isso. O que mais preocupa exportadores brasileiros são as imprevisíveis mudanças de humor das autoridades russas. O superávit comercial do Brasil encolheu de janeiro a agosto deste ano para US$ 541 milhões, contra US$ 683 milhões em igual período do ano passado. Parte do problema são embargos comerciais impostos pela Rússia, como o que está em vigor sobre a carne exportada pelo Brasil. O motivo alegado é a identificação de um caso de febre aftosa no Amazonas ? Estado de onde não sai um grama da carne. ?Para os criadores de porcos, que têm na Rússia o destino de 60% das suas exportações, a situação é dramática?, diz Yuri Ribeiro.

A insegurança, porém, é o preço do pioneirismo. Que o diga Ulrich Kuhn, diretor de Mercado Internacional da Hering. ?Vim à Rússia pela primeira vez em 1988 e garanto que o país mudou?, afirma. Kuhn relata que o GUM, centro de compras na Praça Vermelha, era o retrato da penúria: cinzento, escuro e com poucos produtos. ?Hoje, não deve nada à Vitorio Emmanuelle, de Milão?, atesta. A uns dois quilômetros dali há um símbolo ainda mais ostensivo da nova riqueza. Na travessa Tretyakovsky, enfileram-se lojas Armani, Tiffany, Dolce & Gabana, Prada, Gucci e Ermenegildo Zegna. E, além do petróleo, há uma efervescência empresarial em Moscou. A Rússia vive uma febre de aberturas de capital de empresas, que começa a injetar ar fresco no mercado de ações.

No primeiro contato com a realidade russa, o único susto foi o pequeno público pre-
sente à abertura do evento. O empresário Ervin Knopler, da Textil Dalutex, freqüenta feiras do setor desde 1985 e espantou-se com os corredores quase vazios na segun-
da-feira, 27. ?Nunca vi um primeiro dia de movimento tão fraco?, disse. Em eventos como este, porém, nem sempre a quantidade é o que mais importa. ?O público é pe-
queno, mas é segmentado e especializado?, pondera Rodrigo dos Santos, promotor de Negócios Internacionais da San Marino Calçados, que fez contato com sete impor-
tadores e distribuidores russos e via-se na confortável posição de escolher o mais indicado. Frustrante para uns, excitante para outros, esta é a Rússia versão 2004 ? uma onda intimidante, mas promissora para quem tiver coragem de surfá-la.