Economia

Palocci venceu. De novo


Esplanada dos Ministérios, segunda-feira 20. Circula no centro do poder a informação de que o ministro Antônio Palocci, da Fazenda, vai utilizar o excesso de arrecadação do governo para elevar a meta de superávit primário, então estabelecida em 4,25% do PIB. Com o presidente Lula em Nova York, os ministros se telefonam em busca de detalhes. ?Vou falar com o Lula quando ele voltar?, anunciava um deles. ?Já não está dando para investir com o atual orçamento.? Outro articulava a reação entre os colegas. ?Já somos cinco ministros contra a idéia?, contabilizava. No dia seguinte, um terceiro ministro, com gabinete no Palácio do Planalto, queixava-se de que a idéia de Palocci chegara aos jornais sem passar por ele. ?Não tem sentido economizar agora. Tem que aproveitar a onda e apostar no crescimento?, dizia. Na manhã de quarta-feira 22, Lula chegou de volta a Brasília para decidir a parada. Passou a tarde com Palocci e os ministros José Dirceu, da Casa Civil, e Guido Mantega, do Planejamento. Ninguém mais foi escutado. Ao final do encontro, Palocci vencera mais uma vez. O superávit primário de 2004 foi elevado para 4,5% do PIB. Era de R$ 71,5 bilhões e agora será de R$ 75,8 bilhões, uma diferença de R$ 4,2 bilhões. ?O plano é fazer um superávit maior em anos de crescimento e devolver parte dos recursos à sociedade em períodos de menor expansão da economia?, prometeu Palocci, eufórico.

A decisão do presidente foi tomada diante de uma encruzilhada. De um lado, explicou Palocci, estava a possibilidade de elevações seguidas da taxa de juros para manter a inflação dentro da meta de 4,5%. Do outro, estava a elevação do superávit e, com ela, a possibilidade de conter a inflação sem novos aumentos da Selic. Nesse caso, aumentar o superávit seria o menos doloroso ? embora não haja garantia de que o aumento de juros será evitado. Para convencer o presidente, o ministro da Fazenda usou o argumento de que o corte dos gastos públicos também criará confiança adicional nos mercados financeiros. Funcionou. ?Quem não esperava nada do governo do PT, está dando nota dez?, disse o economista Paulo Guedes, um dos donos da JGP, uma das grandes empresas nacionais de gestão de recursos. Mas quem esperava grandes mudanças, está decepcionado. É o caso da economista Maria da Conceição Tavares (leia box abaixo). Mas, na prática, a verdade é que o aumento do superávit em pouco afeta a realidade das contas públicas. Ele apenas ratifica a política de aperto que já vinha sendo executada com mão de ferro. Com o Tesouro sentado sobre o caixa, o superávit acumulado de 12 meses já está em 4,65%. Tomados apenas os meses deste ano, ele é ainda maior, 5,59%. Até julho o governo guardava em caixa R$ 58,8 bilhões e vai continuar guardando. ?Foi uma decisão simples?, explicou o presidente Lula na manhã de quinta-feira. ?Eu arrecadei um pouco mais do que eu queria. Estou gastando um pouco mais do que previa gastar, mas, ainda assim, tem uma folga. Em vez de gastar tudo vamos pagar a mais uma parte do que devemos.?

Tomada essa decisão, os olhos se voltam agora para o próximo ano. Palocci tentou conseguir a elevação de meta fiscal também para 2005, mas nesse caso a resistência de Dirceu prevaleceu. No entanto, apesar do aumento do superávit, a dívida interna continua crescendo no País, porque a economia não acompanham as despesas com juros ? neste ano, o Brasil gastará mais de R$ 140 bilhões com o serviço de uma dívida que beira 60% do PIB. Para os críticos da política econômica, a idéia de aumentar o superávit depois de subir os juros reproduz a imagem de um cachorro que corre atrás do próprio rabo.

ADEUS À PORTUGUESA


Maria da Conceição Tavares é velha conhecida dos brasileiros. Militou na oposição à ditadura, foi professora de economistas importantes como Pedro Malan e Marcos Lisboa e desde a fundação do PT tem sido um dos oráculos em defesa de modelos alternativos de política econômica. Pois na semana passada a lutadora de 72 anos jogou a toalha. Veio a público, para dizer que se retirava do debate econômico, por raso e inútil. Instalou-se a perplexidade. Amiga de Lula, José Dirceu, Aloízio Mercadante e Carlos Lessa, será que nem a pugnaz Conceição sacudiria o governo do feitiço liberal? Sua desistên-
cia sugere um cansaço. Aos amigos tem manifestado desilusão com a política econômica e pudor em usar sua influência pessoal junto a Lula para influenciar. Também é claro seu desconforto em criticar abertamente os camaradas no poder. Presa na armadilha da lealdade, Conceição preferiu sair de cena. O silêncio que
ela deixa ao seu redor é ensurdecedor.