Economia

Dez perguntas para Ibrahim Eris


Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central, é um dos mais respeitados críticos da política econômica. Na sua visão, a alta dos juros é fruto da insistência do governo em perseguir uma meta de inflação estreita em 2005. ?Por que esse fetiche de 4,5%??, indaga Eris.

O governo iniciou uma nova rodada de aumento dos juros. Agiu bem?
A alta dos juros decorre da meta de inflação de 2005, fixada em 4,5%. Vamos supor que Deus nos falasse que a inflação do ano que vem iria ficar estável em 6%. E que isso talvez trouxesse um crescimento maior. Não seria melhor? Eu prefiro esse cenário. Por que nós temos esse fetiche com inflação de 4,5%? A meta é essa porque o governo fixou. Não existe debate.

As metas deveriam mudar?
O melhor era nem ter um número fixo. Defendo uma faixa de variação. Nossa meta seria manter a inflação entre 3% e 7%. Os modelos de análise são precários e sempre pode ocorrer um fato novo.

É bom o setor produtivo ter assento no Copom para influir na escolha
da meta?

Temos de definir uma instância mais ampla, com representantes da área econômica do governo, das universidades, do empresariado e dos trabalhadores. Uma equipe com seis membros com poder de definir as metas e levá-las ao presidente
da República.

Como o sr. avalia a valorização recente do real?
A melhor coisa que aconteceu no País foi o salto das exportações. Portanto, controlar a inflação com o câmbio valorizado, como na época do Gustavo Franco, seria insistir num velho erro. Com o dólar a R$ 2,88, os exportadores vão reclamar. Isso é ruim para atrair novos investimentos.

A política econômica hoje afugenta investidores?
Acho que uma alta de 0,25 ponto nos juros não vai necessariamente dispersar investimentos. Mas isso revela um conservadorismo do BC. No Brasil, no primeiro sinal de tensão econômica, o governo toma uma decisão conservadora. Isso não encoraja nenhuma empresa a investir.

Isso causa a média de crescimento tão baixa?
Claro. Veja o caso do setor automobilístico. Este ano, as montadoras estão produzindo 50% a mais do que 2003. Mas as empresas ainda têm um terço de capacidade não utilizado porque, lá atrás, investiram acreditando que o crescimento continuaria. Quando isso acontece, o investidor fica com o pé atrás.

Como o sr. avalia o aumento do superávit primário?
Como o governo aumentou a alíquota de alguns impostos e a economia cresceu mais do que se esperava, a arrecadação está crescendo muito. Dá para aumentar o superávit sem problemas.

O crescimento atual é sustentável?
Até agora, há uma recuperação cíclica, ou seja, uma ocupação de espaço de produção existente. Mas falta a segunda fase, que é a do crescimento via investimento. E tem ainda uma terceira questão: nós temos poupança suficiente a este investimento?

O conservadorismo do governo o surpreende?
Não, porque o governo está sendo consistente. Mas há um falso tecnicismo no BC que me desagrada. Eles acham que questionar decisões seria questionar se dois mais dois, em vez de quatro, seriam 3,9. Se fosse assim, bastava colocar um computador no BC, dar números e ele diria para aumentar juros. Falta um pouco de arte ao BC.

Falta arte ao Palocci?
Ele é um bom político, é habilidoso e sabe trabalhar em equipe. Além disso,
conduz a economia sem sobressaltos. Mas o núcleo em torno dele é um pouco limitado. O debate no País hoje está pobre demais e as alternativas são descar-
tadas com facilidade.